Saturday, 19 September 2026

Sarurday's Good Reading: “Os filhos do Brasil” by César Benjamin (in Portuguese)

 You can read the original source (in Portuguese) here.

 

A prisão na Polícia do Exército da Vila Militar, em setembro de 1971, era especialmente ruim: eu ficava nu em uma cela tão pequena que só conseguia me recostar no chão de ladrilhos usando a diagonal. A cela era nua também, sem nada, a menos de um buraco no chão que os militares chamavam de "boi"; a única água disponível era a da descarga do "boi". Permanecia em pé durante as noites, em inúteis tentativas de espantar o frio. Comia com as mãos. Tinha 17 anos de idade.

Um dia a equipe de plantão abriu a porta de bom humor. Conduziram-me por dois corredores e colocaram-me em uma cela maior onde estavam três criminosos comuns, Caveirinha, Português e Nelson, incentivados ali mesmo a me usar como bem entendessem. Os três, porém, foram gentis e solidários comigo. Ofereceram-me logo um lençol, com o qual me cobri, passando a usá-lo nos dias seguintes como uma toga troncha de senador romano.

Oriundos de São Paulo, Caveirinha e Português disseram-me que "estavam pedidos" pelo delegado Sérgio Fleury, que provavelmente iria matá-los. Nelson, um mulato escuro, passava o tempo cantando Beatles, fingindo que sabia inglês e pedindo nossa opinião sobre suas caprichadas interpretações. Repetia uma ideia, pensando alto: "O Brasil não dá mais. Aqui só tem gente esperta. Quando sair dessa, vou para o Senegal. Vou ser rei do Senegal".

Voltei para a solitária alguns dias depois. Ainda não sabia que começava então um longo período que me levou ao limite.

Vegetei em silêncio, sem contato humano, vendo só quatro paredes -"sobrevivendo a mim mesmo como um fósforo frio", para lembrar Fernando Pessoa- durante três anos e meio, em diferentes quartéis, sem saber o que acontecia fora das celas. Até que, num fim de tarde, abriram a porta e colocaram-me em um camburão. Eu estava sendo transferido para fora da Vila Militar. A caçamba do carro era dividida ao meio por uma chapa de ferro, de modo que duas pessoas podiam ser conduzidas sem que conseguissem se ver. A vedação, porém, não era completa. Por uma fresta de alguns centímetros, no canto inferior à minha direita, apareceram dedos que, pelo tato, percebi serem femininos.

Fiquei muito perturbado (preso vive de coisas pequenas). Há anos eu não via, muito menos tocava, uma mulher. Fui desembarcado em um dos presídios do complexo penitenciário de Bangu, para presos comuns, e colocado na galeria F, "de alta periculosia", como se dizia por lá. Havia 30 a 40 homens, sem superlotação, e três eram travestis, a Monique, a Neguinha e a Eva. Revivi o pesadelo de sofrer uma curra, mas, mais uma vez, nada ocorreu. Era Carnaval, e a direção do presídio, excepcionalmente, permitira a entrada de uma televisão para que os detentos pudessem assistir ao desfile.

Estavam todos ocupados, torcendo por suas escolas. Pude então, nessa noite, ter uma longa conversa com as lideranças do novo lugar: Sapo Lee, Sabichão, Neguinho Dois, Formigão, Ari dos Macacos (ou Ari Navalhada, por causa de uma imensa cicatriz que trazia no rosto) e Chinês. Quando o dia amanheceu éramos quase amigos, o que não impediu que, durante algum tempo, eu fosse submetido à tradicional série de "provas de fogo", situações armadas para testar a firmeza de cada novato.

Quando fui rebatizado, estava aceito. Passei a ser o Devagar. Aos poucos, aprendi a "língua de congo", o dialeto que os presos usam entre si para não serem entendidos pelos estranhos ao grupo.

Com a entrada de um novo diretor, mais liberal, consegui reativar as salas de aula do presídio para turmas de primeiro e de segundo grau. Além de dezenas de presos, de todas as galerias, guardas penitenciários e até o chefe de segurança se inscreveram para tentar um diploma do supletivo. Era o que eu faria, também: clandestino desde os 14 anos, preso desde os 17, já estava com 22 e não tinha o segundo grau. Tornei-me o professor de todas as matérias, mas faria as provas junto com eles.

Passei assim a maior parte dos quase dois anos que fiquei em Bangu. Nos intervalos das aulas, traduzia livros para mim mesmo, para aprender línguas, e escrevia petições para advogados dos presos ou cartas de amor que eles enviavam para namoradas reais, supostas ou apenas desejadas, algumas das quais presas no Talavera Bruce, ali ao lado. Quanto mais melosas, melhor.

Como não havia sido levado a julgamento, por causa da menoridade na época da prisão, não cumpria nenhuma pena específica. Por isso era mantido nesse confinamento semiclandestino, segregado dos demais presos políticos. Ignorava quanto tempo ainda permaneceria nessa situação.

Lembro-me com emoção -toda essa trajetória me emociona, a ponto de eu nunca tê-la compartilhado- do dia em que circulou a notícia de que eu seria transferido. Recebi dezenas de catataus, de todas as galerias, trazidos pelos próprios guardas. Catatau, em língua de congo, é uma espécie de bilhete de apresentação em que o signatário afiança a seus conhecidos que o portador é "sujeito-homem" e deve ser ajudado nos outros presídios por onde passar.

Alguns presos propuseram-se a organizar uma rebelião, temendo que a transferência fosse parte de um plano contra a minha vida. A essa altura, já haviam compreendido há muito quem eu era e o que era uma ditadura.

Eu os tranquilizei: na Frei Caneca, para onde iria, estavam os meus antigos companheiros de militância, que reencontraria tantos anos depois. Descumprindo o regulamento, os guardas permitiram que eu entrasse em todas as galerias para me despedir afetuosamente de alunos e amigos. O Devagar ia embora.

 

São Paulo, 1994. Eu estava na casa que servia para a produção dos programas de televisão da campanha de Lula. Com o Plano Real, Fernando Henrique passara à frente, dificultando e confundindo a nossa campanha.

Nesse contexto, deixei trabalho e família no Rio e me instalei na produtora de TV, dormindo em um sofá, para tentar ajudar. Lá pelas tantas, recebi um presente de grego: um grupo de apoiadores trouxe dos Estados Unidos um renomado marqueteiro, cujo nome esqueci. Lula gravava os programas, mais ou menos, duas vezes por semana, de modo que convivi com o americano durante alguns dias sem que ele houvesse ainda visto o candidato.

Dizia-me da importância do primeiro encontro, em que tentaria formatar a psicologia de Lula, saber o que lhe passava na alma, quem era ele, conhecer suas opiniões sobre o Brasil e o momento da campanha, para então propor uma estratégia. Para mim, nada disso fazia sentido, mas eu não queria tratá-lo mal. O primeiro encontro foi no refeitório, durante um almoço.

Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: "Você esteve preso, não é Cesinha?" "Estive." "Quanto tempo?" "Alguns anos...", desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: "Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta".

Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de "menino do MEP", em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do "menino", que frustrara a investida com cotoveladas e socos.

Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o "menino do MEP" nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram.

O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a importância do primeiro encontro. Eu não sabia o que fazer. Não podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almoço, desconversei: Lula só havia dito generalidades sem importância. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu.

 

Dias depois de ter retornado para a solitária, ainda na PE da Vila Militar, alguém empurrou por baixo da porta um exemplar do jornal "O Dia". A matéria da primeira página, com direito a manchete principal, anunciava que Caveirinha e Português haviam sido localizados no bairro do Rio Comprido por uma equipe do delegado Fleury e mortos depois de intensa perseguição e tiroteio. Consumara-se o assassinato que eles haviam antevisto.

Nelson, que amava os Beatles, não conseguiu ser o rei do Senegal: transferido para o presídio de Água Santa, liderou uma greve de fome contra os espancamentos de presos e perseverou nela até morrer de inanição, cerca de 60 dias depois. Seu pai, guarda penitenciário, servia naquela unidade.

Neguinho Dois também morreu na prisão. Sapo Lee foi transferido para a Ilha Grande; perdi sua pista quando o presídio de lá foi desativado. Chinês foi solto e conseguiu ser contratado por uma empreiteira que o enviaria para trabalhar em uma obra na Arábia, mas a empresa mudou os planos e o mandou para o Alasca. Na última vez que falei com ele, há mais de 20 anos, estava animado com a perspectiva do embarque: "Arábia ou Alasca, Devagar, é tudo as mesmas Alemanhas!" Ele quis ir embora para escapar do destino de seu melhor amigo, o Sabichão, que também havia sido solto, novamente preso e dessa vez assassinado. Não sei o que aconteceu com o Formigão e o Ari Navalhada.

A todos, autênticos filhos do Brasil, tão castigados, presto homenagem, estejam onde estiverem, mortos ou vivos, pela maneira como trataram um jovem branco de classe média, na casa dos 20 anos, que lhes esteve ao alcance das mãos. Eu nunca soube quem é o "menino do MEP". Suponho que esteja vivo, pois a organização era formada por gente com o meu perfil. Nossa sobrevida, em geral, é bem maior do que a dos pobres e pretos.

O homem que me disse que o atacou é hoje presidente da República. É conciliador e, dizem, faz um bom governo. Ganhou projeção internacional. Afastei-me dele depois daquela conversa na produtora de televisão, mas desejo-lhe sorte, pelo bem do nosso país. Espero que tenha melhorado com o passar dos anos.

Mesmo assim, não pretendo assistir a "O Filho do Brasil", que exala o mau cheiro das mistificações. Li nos jornais que o filme mostra cenas dos 30 dias em que Lula esteve detido e lembrei das passagens que registrei neste texto, que está além da política. Não pretende acusar, rotular ou julgar, mas refletir sobre a complexidade da condição humana, justamente o que um filme assim, a serviço do culto à personalidade, tenta esconder.

 

CÉSAR BENJAMIN, 55, militou no movimento estudantil secundarista em 1968 e passou para a clandestinidade depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro desse ano, juntando-se à resistência armada ao regime militar. Foi preso em meados de 1971, com 17 anos, e expulso do país no final de 1976. Retornou em 1978. Ajudou a fundar o PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006 foi candidato a vice-presidente na chapa liderada pela senadora Heloísa Helena, do PSOL, do qual também se desfiliou. Trabalhou na Fundação Getulio Vargas, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Prefeitura do Rio de Janeiro e na Editora Nova Fronteira. É editor da Editora Contraponto e colunista da Folha.

Friday, 18 September 2026

Friday's Sung Word: "Espelho do Destino" by Benedito Lacerda and Aldo Cabral (in Portuguese).

Você que sabe ser presunçosa
Ó mulher pretensiosa
Que de mim já se esqueceu
Não vê que com esse orgulho todo
Quem tirou você do lôdo
Quem lhe deu a mão, fui eu.

Mas na estrada desta vida
Para toda alma perdida
O sofrer é uma lição
E é sofrendo que se aprende
Quem tarde se arrepende
Não merece mais perdão.

Porém, a você dou um conselho
Olhe bem para esse espelho
Que o destino sempre traz:
Uma folha desprendida
Do galho onde foi nascida
Não se ergue nunca mais.

You can listen "Espelho do Destino" sung by Orlando Silva (1939) here

You can listen "Espelho do Destino" sung by Orlando Silva (1961) here

Thursday, 17 September 2026

Thursday's Serial: “The Song of Hiawatha” by Henry Wadsworth Longfellow (in English) - XIX

 

XIX. THE GHOSTS.

Never stoops the soaring vulture

On his quarry in the desert,

On the sick or wounded bison,

But another vulture, watching

From his high aerial look-out,

Sees the downward plunge, and follows;

And a third pursues the second,

Coming from the invisible ether,

First a speck, and then a vulture,

Till the air is dark with pinions.

So disasters come not singly;

But as if they watched and waited,

Scanning one another's motions,

When the first descends, the others

Follow, follow, gathering flock-wise

Round then: victim, sick and wounded,

First a shadow, then a sorrow,

Till the air is dark with anguish.

Now, o'er all the dreary Northland,

Mighty Peboan, the Winter,

Breathing on the lakes and rivers,

Into stone had changed their waters.

From his hair he shook the snow-flakes,

Till the plains were strewn with whiteness,

One uninterrupted level,

As if, stooping, the Creator

With his hand had smoothed them over.

Through the forest, wide and wailing,

Roamed the hunter on his snow-shoes;

In the village worked the women,

Pounded maize, or dressed the deer-skin;

And the young men played together

On the ice the noisy ball-play,

On the plain the dance of snow-shoes.

One dark evening, after sundown,

In her wigwam Laughing Water

Sat with old Nokomis, waiting

For the steps of Hiawatha

Homeward from the hunt returning.

On their faces gleamed the fire-light,

Painting them with streaks of crimson,

In the eyes of old Nokomis

Glimmered like the watery moonlight,

In the eyes of Laughing Water

Glistened like the sun in water;

And behind them crouched their shadows

In the corners of the wigwam,

And the smoke in wreaths above them

Climbed and crowded through the smoke-flue.

Then the curtain of the doorway

From without was slowly lifted;

Brighter glowed the fire a moment,

And a moment swerved the smoke-wreath,

As two women entered softly,

Passed the doorway uninvited,

Without word of salutation,

Without sign of recognition,

Sat down in the farthest corner,

Crouching low among the shadows.

From their aspect and their garments,

Strangers seemed they in the village;

Very pale and haggard were they,

As they sat there sad and silent,

Trembling, cowering with the shadows.

Was it the wind above the smoke-flue,

Muttering down into the wigwam?

Was it the owl, the Koko-koho,

Hooting from the dismal forest?

Sure a voice said in the silence:

"These are corpses clad in garments,

These are ghosts that come to haunt you,

From the kingdom of Ponemah,

From the land of the Hereafter!"

Homeward now came Hiawatha

From his hunting in the forest,

With the snow upon his tresses,

And the red deer on his shoulders.

At the feet of Laughing Water

Down he threw his lifeless burden;

Nobler, handsomer she thought him,

Than when first he came to woo her,

First threw down the deer before her,

As a token of his wishes,

As a promise of the future.

Then he turned and saw the strangers,

Cowering, crouching with the shadows;

Said within himself, "Who are they?

What strange guests has Minnehaha?"

But he questioned not the strangers,

Only spake to bid them welcome

To his lodge, his food, his fireside.

When the evening meal was ready,

And the deer had been divided,

Both the pallid guests, the strangers,

Springing from among the shadows,

Seized upon the choicest portions,

Seized the white fat of the roebuck,

Set apart for Laughing Water,

For the wife of Hiawatha;

Without asking, without thanking,

Eagerly devoured the morsels,

Flitted back among the shadows

In the corner of the wigwam.

Not a word spake Hiawatha,

Not a motion made Nokomis,

Not a gesture Laughing Water;

Not a change came o'er their features;

Only Minnehaha softly

Whispered, saying, "They are famished;

Let them do what best delights them;

Let them eat, for they are famished."

Many a daylight dawned and darkened,

Many a night shook off the daylight

As the pine shakes off the snow-flakes

From the midnight of its branches;

Day by day the guests unmoving

Sat there silent in the wigwam;

But by night, in storm or starlight,

Forth they went into the forest,

Bringing fire-wood to the wigwam,

Bringing pine-cones for the burning,

Always sad and always silent.

And whenever Hiawatha

Came from fishing or from hunting,

When the evening meal was ready,

And the food had been divided,

Gliding from their darksome corner,

Came the pallid guests, the strangers,

Seized upon the choicest portions

Set aside for Laughing Water,

And without rebuke or question

Flitted back among the shadows.

Never once had Hiawatha

By a word or look reproved them;

Never once had old Nokomis

Made a gesture of impatience;

Never once had Laughing Water

Shown resentment at the outrage.

All had they endured in silence,

That the rights of guest and stranger,

That the virtue of free-giving,

By a look might not be lessened,

By a word might not be broken.

Once at midnight Hiawatha,

Ever wakeful, ever watchful,

In the wigwam, dimly lighted

By the brands that still were burning,

By the glimmering, flickering fire-light,

Heard a sighing, oft repeated,

Heard a sobbing, as of sorrow.

From his couch rose Hiawatha,

From his shaggy hides of bison,

Pushed aside the deer-skin curtain,

Saw the pallid guests, the shadows,

Sitting upright on their couches,

Weeping in the silent midnight.

And he said: "O guests! why is it

That your hearts are so afflicted,

That you sob so in the midnight?

Has perchance the old Nokomis,

Has my wife, my Minnehaha,

Wronged or grieved you by unkindness,

Failed in hospitable duties?"

Then the shadows ceased from weeping,

Ceased from sobbing and lamenting,

And they said, with gentle voices:

"We are ghosts of the departed,

Souls of those who once were with you.

From the realms of Chibiabos

Hither have we come to try you,

Hither have we come to warn you.

"Cries of grief and lamentation

Reach us in the Blessed Islands;

Cries of anguish from the living,

Calling back their friends departed,

Sadden us with useless sorrow.

Therefore have we come to try you;

No one knows us, no one heeds us.

We are but a burden to you,

And we see that the departed

Have no place among the living.

"Think of this, O Hiawatha!

Speak of it to all the people,

That henceforward and for ever

They no more with lamentations

Sadden the souls of the departed

In the Islands of the Blessed.

"Do not lay such heavy burdens

In the graves of those you bury,

Not such weight of furs and wampum,

Not such weight of pots and kettles,

For the spirits faint beneath them.

Only give them food to carry,

Only give them fire to light them.

"Four days is the spirit's journey

To the land of ghosts and shadows,

Four its lonely night encampments;

Four times must their fires be lighted.

Therefore, when the dead are buried,

Let a fire, as night approaches,

Four times on the grave be kindled,

That the soul upon its journey

May not lack the cheerful fire-light,

May not grope about in darkness.

"Farewell, noble Hiawatha!

We have put you to the trial,

To the proof have put your patience,

By the insult of our presence,

By the outrage of our actions.

We have found you great and noble.

Fail not in the greater trial,

Faint not in the harder struggle."

When they ceased, a sudden darkness

Fell and filled the silent wigwam.

Hiawatha heard a rustle

As of garments trailing by him,

Heard the curtain of the doorway

Lifted by a hand he saw not,

Felt the cold breath of the night air,

For a moment saw the starlight;

But he saw the ghosts no longer,

Saw no more the wandering spirits

From the kingdom of Ponemah,

From the land of the Hereafter.

Wednesday, 16 September 2026

Wednesday's Good Reading: “As Cegonhas” by Hans Christian Andersen (translated into Portuguese by Monteiro Lobato).

 

Um casal de cegonhas havia construído o ninho no telhado duma casa de aldeia. Lá estava a cegonha-mãe ao lado de seus quatro filhotes, cujos bicos escuros só mais tarde ficariam vermelhos como os bicos das cegonhas. Um pouco mais além, na parte mais alta do telhado, a cegonha-pai montava guarda, muito séria e tesa, de pé num pé só. Parecia feita de pau.

— É uma grande honra para minha esposa ter sentinela ao lado, murmurava ele. Os que não sabem que sou o marido pensarão que fui contratado para montar guarda e isso dá muita importância à nossa família.

Nisto apareceu na rua, embaixo, um grupo de meninos vadios. Ao verem as cegonhas puseram-se a cantar uma cantiga muito velha. Essa cantiga dizia que pouco adiantava a cegonha-pai estar montando sentinela, porque o primeiro filhote tinha de acabar preso num laço; o segundo, caído num braseiro; o terceiro, morto por uma carga de chumbo e o último, assado ao espeto.

— Escutem! exclamaram os filhotes assustadíssimos. Estão dizendo que vamos ser enforcados e assados!...

— Bobagem! exclamou a mãe-cegonha. Nada disso acontecerá.

Os meninos continuaram a cantar e apontavam para as cegonhas com o dedo. Apenas um, de nome Peter, não gostou da brincadeira e disse que não deviam estar atropelando as pobres aves que não lhes tinham feito mal nenhum. Mas os meninos insistiram e a cegonha--mãe continuou a dizer aos filhotes que não fizessem caso.

— Não se assustem com as bobagens desses vadios. Não sabem o que dizem. Veja o vosso pai como não liga nenhuma importância e continua imóvel numa perna só.

— Estamos com medo! piavam os filhotes encolhendo-se no ninho.

No dia seguinte os mesmos meninos voltaram a brincar por ali e repetiram a cantiga, assustando ainda mais as cegonhinhas recém-nascidas.

— Seremos mesmo enforcadas e assadas? indagavam elas arregalando os olhos cheios de pavor.

— Nunca! respondia com firmeza a mãe-cegonha. Eu ensinarei vocês a voar, e quando estiverem práticas iremos todas para os brejos em visita às rãs que fazem creque! creque! antes de serem devoradas.

— E depois? quiseram saber os filhotes.

— Depois nos reuniremos a todas as cegonhas desta terra para a viagem do outono. Por esse tempo vocês já devem estar voando perfeitamente e o que não voar direito será espetado pelo enorme bico do general do bando. Tratem pois de aplicar-se da melhor maneira, aproveitando bem as minhas lições.

— Mas que adianta isso, se temos de acabar no espeto? Lá estão os meninos com a mesma cantiga, outra vez...

— Eles não sabem o que dizem; só o que eu digo é certo. Depois de nos reunirmos num grande bando, voaremos para um país quente para o Egito, onde as casas são de pedra, e enormes as tais pirâmides. Nesse país há um rio que todos os anos alaga as duas margens até muito longe. Não há melhor lugar no mundo para a caçada de rãs.

— Que bom! exclamaram os filhotes entusiasmados.

— É um lugar maravilhoso! E enquanto por lá estivermos, quentinhas ao sol, por aqui todas as árvores ficarão peladas, sem uma só folha nos galhos. O frio cá é terrível no inverno. As nuvens do céu viram gelo e caem como farinha branca. É o que os homens chamam neve. Tudo fica gelado.

— E os meninos também gelam?

— Não. Mas para isso têm que ficar dentro das casas, vestidos de grossas roupas de lã ou de peles. E vocês, lá longe, gozando o bom sol e vendo tudo verdinho e florido!...

E desse modo a cegonha-mãe consolou-os.

Correu o tempo. Os filhos da cegonha já estavam crescidotes e já sabiam ficar de pé no ninho, para espiar em redor. Todos os dias o pai-cegonha trazia-lhes no bico rãs e outros bichinhos. Depois fazia trejeitos cômicos para diverti-los; revirava a cabeça até encostar na cauda, estalava o bico como se estivesse tocando castanholas e também contava casos engraçados.

Afinal chegou a época de deixar o ninho, e os quatro filhotes saíram a passeio pelo telhado, muito sem jeito e cambaleantes; ao tentarem voar quase caíram no chão.

— Muito atentos agora, disse a cegonha-mãe. Vejam como eu faço. O pescoço deve conservar-se bem esticado, assim. E o pé nesta posição — primeiro o esquerdo; depois o direito. Vamos ver.

E isto dizendo ela alçou o vôo. Entusiasmados, os filhotes tentaram fazer o mesmo — mas foi uma série de tombos, um atrás do outro.

— Não quero mais aprender a voar, disse um deles voltando ao ninho. Prefiro continuar aqui em vez de voar para o tal país quente.

— Quer então morrer entanguido no inverno ou ser assado no espeto pelos meninos?

— Não! Não! gritou o filhote assustado e veio de novo para o exercício.

No terceiro dia já sabiam voar um pouquinho; um deles experimentou pairar no espaço sem bater as asas e o resultado foi um boléu. Felizmente bateu as asas a tempo e evitou de chegar ao chão, onde os meninos, numa gritaria, o estavam esperando.

— Não acha bom darmos umas bicadas nesses meninos? perguntou outro.

— Não, já disse que só façam o que eu mandar. Temos agora de voar em redor da chaminé, da direita para a esquerda e depois da esquerda para direita. Vamos! Um, dois e três!... Bravos! Muito bem! creio que amanhã já poderão acompanhar-me ao brejo das rãs. Quero que se comportem muito direitinhos, para serem admirados, e que andem com imponência, para se tornarem respeitados.

— Mas então iremos daqui sem nos vingarmos desses meninos maus?

— O frio vingará vocês. Enquanto estiverem bem quentes lá no Egito, eles aqui vão tiritar de frio.

— Isso não basta, disse o mais valente dos quatro. Queremos tomar a nossa vingança — e todos concordaram.

O menino mais assanhado em judiar das cegonhas era um de seis anos apenas, um pirralho, mas que parecia enorme para as cegonhinhas.

E as cegonhinhas resolveram que ele pagaria por todos. E tanto amolaram a mãe-cegonha com essa história de vingança, que tempos mais tarde ela lhes deu a licença pedida — mas com uma condição.

— Primeiro quero ver como vocês se comportam no ensaio geral antes da partida para o Egito. Se se comportarem mal, o chefe os atravessará com o bico e ficarei sabendo que os meninos têm razão. Por isso quero que esperem o ensaio. Depois, se tudo correr bem, darei licença de se vingarem dos meninos.

Com medo das bicadas do chefe, as cegonhinhas aplicaram-se aos exercícios com todo o afinco e acabaram por voar tão bem como os pais. Nisto chegou o outono, e os quatro irmãos foram mandados voar sobre florestas e cidades a fim de demonstrarem o seu grau de adiantamento. Foram aprovados com distinção e receberam como prêmio uma rã e uma cobra, petiscos que muito apreciavam.

— Ora graças que chegou o momento da nossa vingança! disseram eles ao chegar.

— Isso mesmo, concordou a cegonha-mãe, e tenho cá um plano excelente. Sei onde fica a floresta na qual as cegonhas vão buscar os bebês que distribuem pela cidade. Porque somos nós que fornecemos os bebês a este povo. Ora, os pais querem sempre bebês bem bonitinhos e nós podemos trazer dos mais lindos para as casas dos meninos que não caçoaram de nós e não nos ameaçaram.

— E para os que nos ameaçaram? Para aquele que queria nos assar ao espeto?

— Para a casa desse levaremos um dos bebês mortos que existem na floresta — e ele terá de chorar quando souber que perdeu um irmãozinho. Será um bom castigo.

— E para o menino bom, que nos defendeu, o Peter?

— Para esse levaremos um casal de lindos bebês, um irmãozinho e uma irmãzinha. E em homenagem a ele vocês, cegonhinhas, ficarão com esse nome — Peter.

E foi assim que apareceram na Dinamarca as cegonhas de nome Peter.