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Wednesday, 7 January 2026

Wednesday's Good Reading: “O Pinheirinho” by Hans Christian Andersen (translated into Portuguese by Monteiro Lobato).

 

No de uma floresta havia nascido um pinheirinho.

A natureza o plantara num lugar arejado onde podia tomar bastante sol, e o rodeara de outros pinheiros. De todos, porém, era ele o menor. E isto o entristecia, tornando-o ansioso por crescer e igualar-se aos seus companheiros. Pouca importância dava à luz do sol, às brisas leves que sopravam e às crianças que passavam por ali em busca de framboesas e outras frutas silvestres. Era comum virem as crianças com cestinhas cheias de framboesas sentar-se junto ao pequeno pinheiro, exclamando alegres: "Que linda arvorezinha!" Mas ele se conservava indiferente e insensível a qualquer elogio.

Passando um ano viu-se crescido de mais um nó, e o mesmo se deu no ano seguinte, pois os pinheirinhos crescem aos nós, de ano em ano. Calcula-se a idade deles pelo número de nós que mostram no tronco.

— Por que não sou do mesmo tamanho dos meus companheiros? suspirava o pinheirinho. Como não há de ser bom poder contemplar o mundo lá de cima! Pássaros viriam construir ninhos em meus galhos e quando o vento soprasse eu me curvaria com a mesma dignidade dos meus irmãos.

Nada o agradava. Nem as carícias do sol, nem os passarinhos, nem as nuvens que sobre ele passavam pela manhã e à tardinha. Durante o inverno, quando o alvo manto da neve atapetava o solo, acontecia muitas vezes surgir alguma lebre espavorida que na carreira saltava por cima dele. Como isto o acabrunhava! Mas decorridos mais dois invernos já a lebre se via obrigada a passar sob os seus galhos.

— Oh, como desejo crescer, crescer, tornar-me alto, grande como os outros! almejo tanto neste mundo como ser grande!

Com a entrada do outono apareciam na floresta homens de machado em punho, em busca das árvores mais desenvolvidas. Como isto acontecesse regularmente todo os anos, o pinheirinho, já agora bem crescido, tremeu

ao pensar que talvez viesse a ter o mesmo destino dos outros irmãos seus, que tombavam fragorosamente a golpes de machado. Os lenhadores lhes aparavam os galhos, deixando os troncos tão nus e compridos que mal se poderia reconhecer neles os esbeltos pinheiros de horas antes. Eram em seguida postos sobre rodas e puxados para fora da floresta.

Para onde iriam? Que destino lhes era reservado?

Na primavera, depois que as andorinhas e as cegonhas retornavam dos países quentes, o pinheirinho lhes perguntava ansioso se sabiam o que fora feito dos pinheiros destruídos e se porventura haviam encontrado algum pelo caminho. Nada respondiam as andorinhas; mas as cegonhas, após alguma reflexão, moviam a cabeça afirmativamente, dizendo:

— Quando deixamos o Egito vimos no mar navios novos, todos ostentando soberbos mastros. Esses mastros devem ser os pinheiros levados daqui, pois tinham o cheiro resinoso. Parabéns por ter irmãos de tanta imponência.

— Ah, como desejo ser grande para atravessar o mar! Como é esse mar? Com que se parece?

— Levaríamos muito tempo para explicar, respondiam as cegonhas alçando voo.

— Goze a mocidade, murmuravam os raios de sol que vinham brincar nas agulhas dos seus galhos. Goze a mocidade enquanto é tempo.

E o vento perpassava beijando o pinheirinho, e o orvalho punha nele as suas lágrimas prateadas; mas a árvore continuava insensível, sem os compreender.

Ao aproximar-se o Natal vários pinheirinhos ainda pequenos foram cortados; eram arbustos menores que aquele ambicioso que só pensava em conhecer novas terras. A esses os lenhadores levavam para fora da floresta sem lhes podar os galhos.

— Para onde irão? perguntava a si mesmo o pinheirinho. Menores do que eu! E por que não lhes cortaram os galhos? Que irão fazer com eles?

— Nós sabemos, nós sabemos, porque espiamos pelas janelas das casas da cidade, chilreavam os pardais. Sabemos para onde vão. Ah, se você pudesse ver como os homens os enfeitam dos mais lindos objetos dourados e prateados, com flocos de algodão e velinhas acesas, certo que morreria de inveja.

— Que mais? Continue, pediu o pinheirinho, ansioso por novidades.

— Foi só o que vimos, mas valeu a pena.

— Quem me dera ter o mesmo destino! exclamava a árvore. Deve ser melhor do que cruzar os mares num navio. Estou aflito para que o Natal chegue. Só assim, grande como já estou, também serei levado. Como não deve ser bom estar numa sala toda iluminada, recoberto de coisas bonitas! E depois... depois sem dúvida alguma esperam-me agradáveis surpresas, pois do contrário não seria tão ricamente adornado. Quem me dera saber o que me acontecerá depois! Estou tão cansado de esperar? Por que demora tanto o dia da minha partida?

— Goze a mocidade! sussurravam as brisas. Goze os dias felizes e calmos que está vivendo ao ar livre, diziam os raios de sol.

Mas o pinheirinho, à medida que crescia, mais e mais se impacientava para sair logo da floresta. Durante todo o verão e mesmo durante o inverno manteve intacta sua verde roupagem, e os que o viam elogiavam-no admirados: "Que linda árvore!" Chegado o Natal o nosso pinheiro viu, enfim, realizar-se o seu sonho. Foi o primeiro a receber os impiedosos golpes do machado. E tombou com um gemido, sentindo como um desmaio. Esqueceu das honrarias que o aguardavam e teve saudade de deixar para sempre o lugar onde nascera e crescera. Sabia perfeitamente que nunca mais voltaria a rever seus companheiros, nem a grama, nem as flores que desde o começo da vida o cercavam. E talvez nem mesmo os pássaros...

A viagem esteve longe de ser agradável. Cobrou alento, porém, ao ver-se retirado do caminhão juntamente com outros pinheiros do mesmo porte. Perto ouviu alguém dizer:

— Este é o mais bonito. Ficaremos com ele.

Dois criados, a uma ordem do amo, levaram-no para um belo salão. Nas paredes notou quadros grandes e pequenos e ladeando a chaminé viu lindos vasos de porcelana; também viu cadeiras de balanço, poltronas, sofás de seda, mesas com livros de figuras, brinquedos e caríssimos presentes espalhados pelo espaçoso cômodo. O pinheirinho, colocado num barril pintado de verde e cheio de areia, foi posto bem no meio da sala. Era de ver-se como estava trêmulo.

Que iria acontecer? Tanto os criados como várias moças da casa puseram-se a enfeitá-lo cuidadosamente, pendurando-lhe pelos galhos saquinhos de confeitos, maçãs douradas, pacotinhos de nozes, dezenas de velinhas brancas, azuis e vermelhas. Sob a folhagem verde colocaram bonecas, que mais pareciam criaturas vivas, de tão bem feitas. O pinheirinho jamais imaginara que pudesse tornar-se tão lindo, sobretudo depois que bem no topo uma das moças lhe ajeitou uma linda estrela dourada.

— À noite, quando iluminado, vai ficar ainda mais belo, diziam todos.

— Quem me dera já fosse noite! suspirava a árvore. Por que não acendem as velinhas? E depois? Que acontecerá depois? Ah, se os meus companheiros da floresta pudessem ver-me, com certeza haviam de morder-se de inveja. E os pardais? Virão espiar-me pela janela? E que será de mim? Criarei raízes e passarei aqui o inverno e o verão?

Tudo isto perguntava-se ele a si mesmo, e tal era a sua impaciência que principiou a sentir dor de casca; para um vegetal, dor de casca é o mesmo que dor de cabeça para nós.

Por fim as velinhas foram acesas. O pinheiro sentiu um tremor em todos os seus galhos — era medo de queimar-se. E foi justamente o que aconteceu. Felizmente uma das moças acudiu a tempo, e o acidente não passou duma queimadura sem importância. O pinheiro então resolveu manter-se imóvel, não só para que não se repetisse aquilo como também para não derrubar nenhum dos lindos objetos que o enfeitaram. Nisto abre-se a porta principal e um bando de crianças entra na sala em tumulto. Logo atrás vinham os mais velhos. Por alguns instantes os pequenos estacaram deslumbrados, para logo em seguida prorromperem em exclamações e pulos de alegria. E todos em círculo puseram-se a dançar em torno da árvore, de cujos galhos os presentes eram retirados um por um.

— Que pretenderão fazer? pensava a árvore. Que irá acontecer depois disto?

À medida que se derretiam, as velas iam sendo apagadas, e quando a última se extinguiu as crianças tiveram licença para assaltar o pinheiro. Com que fúria atiraram-se à árvore de Natal, arrancando as bolas prateadas que enfeitavam! Pouco faltou para que não o derrubassem.

Sempre alegres, as crianças brincavam a correr pela sala. Ninguém mais parecia prestar atenção ao pinheiro. Apenas uma velha criada o procurou, para remexer por entre os galhos na esperança de encontrar algum figo seco ou maçã escapos à gula da meninada.

— Uma história! Queremos uma história! pediram as crianças, puxando para junto do pinheiro um homenzinho gorducho.

— Está bem, concordou ele sentando-se debaixo da árvore. Aqui na sombra é melhor e o pinheiro também poderá ouvir a história. Mas só contarei uma. Qual é a que querem? Ivede-Avede, ou o Polichinelo que caiu da escada e acabou obtendo a mão da princesa?

— Ivede-Avede! gritaram umas.

— Polichinelo! gritaram outras.

E formou-se logo ensurdecedora algazarra. Só o pinheiro se mantinha em silêncio, embora perguntando a si mesmo se também não teria direito de dar opinião, já que fora parte importante na festa daquela noite.

Serenados os ânimos o homenzinho narrou a história do Polichinelo que caiu da escada mas acabou obtendo a mão da princesa. Terminada a narrativa voltaram as crianças a fazer algazarra. Queriam agora ouvir a história do Ivede-Avede. O pinheiro quedou-se pensativo. Nunca os pássaros da floresta lhe haviam narrado histórias assim.

— Polichinelo caiu da escada e acabou casando com uma princesa, repetia o pinheiro, certo de que um homem tão bem vestido não iria contar uma história que não fosse verdadeira. Vejam só o que é o mundo! Será que também eu irei cair de uma escada e casar-me com uma princesa?

Igualmente muito o alegrava a ideia de que no dia seguinte voltaria a cobrir-se de brinquedos, velinhas, maçãs douradas e tantas outras coisas bonitas. "Amanhã saberei manter-me firme para melhor apreciar a minha grandeza", pensava ele. "Amanhã tornarei a ouvir a história do Polichinelo e talvez a de Ivede-Avede."

E a noite toda passou a sonhar as alegrias que o futuro lhe reservava.

Na manhã seguinte as primeiras pessoas a entrarem no salão foram os dois criados. Imediatamente o pinheiro julgou que o vinham enfeitar, mas ficou muito desapontado ao ver-se conduzido para o porão da casa, onde nem a luz do dia penetrava.

— Que significará isto? conjeturava ele. Para que me terão posto aqui? Irão abandonar-me neste cômodo escuro?

E recostado à parede continuou a pensar. Longo tempo teve para as suas reflexões, pois passavam-se noites sem que surgisse viva alma. Quando alguém lá aparecia era apenas pra tirar ou pôr a um canto alguma canastra. Viu-se desse modo em completo abandono, como se a existência tivesse sido inteiramente olvidada.

— Deve ser inverno, dizia o pinheiro. O solo está endurecido e recoberto de neve; com certeza é por isso que não me plantam. Vão deixar-me bem abrigado aqui até que chegue a primavera. Pensando bem, os homens têm bom coração. Eu só desejava que este lugar não fosse tão escuro e solitário. Nem uma lebre para dar um pouquinho de vida a este silêncio. Como era bom lá na floresta, quando a neve cobria o solo e a lebre passava junto de mim, ou mesmo quando pulava por cima de mim, embora eu me aborrecesse tanto com a brincadeira. Como é horrível esta solidão!

— "Cuí, cuí, cuí", guincharam dois camundongos, saindo do buraco e procurando abrigo por entre os seus galhos. Que frio! Não fosse isso estaríamos bem aqui, não acha, velho pinheiro?

— Não sou velho, protestou a árvore. Há outros muito mais velhos do que eu.

— De onde vem e como se chama? indagaram os camundongos, curiosos. Conte-nos alguma coisa do mundo. Já esteve na dispensa onde há queijos bem guardados, presuntos pendurados do teto e de onde a gente pode sair duas vezes mais gordo do que quando entra?

— Desconheço tais lugares, respondeu o pinheiro. Mas conheço a floresta, onde brilha o sol e gorjeiam os pássaros.

E contou aos ratinhos a história da sua vida. Os camundongos, que jamais tinham ouvido falar de coisa parecida, observaram admirados:

— Quanta coisa você já viu! E como já foi feliz!

— Sim, já fui feliz, repetiu o pinheiro rememorando fatos passados.

Em seguida contou da festa do Natal e de como fora coberto de velinhas e brinquedos cada qual mais lindo que o outro.

— Não pode haver maior felicidade, velha árvore!

— Não sou velho, protestou o pinheiro. Cheguei da floresta este ano e o meu crescimento foi interrompido.

— Quanta coisa bonita você sabe contar! disseram ainda os ratinhos.

Na noite seguinte voltaram eles com quatro camundonguinhos novos para ouvirem as histórias do pinheiro; e quanto mais este as contava mais saudades ia sentindo dos tempos passados, que não voltam mais. Apesar disso, depois que escutara a história do Polichinelo que conseguira casar-se com uma princesa, não abandonava a esperança de também vir a obter algum dia a mão duma princesa. E recordou-se saudoso da elegante bétula que nascera a seu lado. Para um pinheiro uma bétula vale por uma bela princesa. A fim de entreter os camundongos narrou a história do Polichinelo tal qual a ouvira. Os ratinhos pulavam de contentamento. No dia seguinte apareceram outros camundongos e no domingo voltaram acompanhados de duas ratazanas. Estas, porém, declararam não haver gostado da história, o que deveras vexou os camundongos.

— Só sabe essa história? indagaram as ratazanas.

— Só esta, respondeu a árvore. Ouvia-a, na noite mais feliz da minha vida.

— Mas nem por isso é interessante. Conhece alguma história de queijos e presuntos? Conte-nos alguma coisa sobre despensas.

— Nada sei sobre isso.

— É pena, disseram as ratazanas e retiraram-se para as suas tocas, no que foram acompanhadas pelos camundongos pouco tempo depois.

— Era tão bom quando esses ratinhos amigos encarapitavam-se nos meus galhos para ouvir histórias! suspirou o pinheiro. Também isso passou. E quando me tirarem daqui irei sentir saudades dos momentos felizes que vivi com eles.

Um belo dia entraram no porão várias pessoas. As malas foram removidas do canto e o pinheiro, depois de retirado de onde estava, viu-se jogado ao chão; em seguida um criado o arrastou até ao terraço da casa.

— Agora sim, vou recomeçar a viver! murmurou ele satisfeito ao sentir o ar puro e os quentes raios do sol.

Do terraço avistava-se o jardim recoberto de flores. As rosas recurvavam-se sobre as latadas que as sustinham, perfumando o ambiente; e por toda parte, em todos os canteiros, uma flor principiava a desabrochar. Pardais voavam alegres, em chilreios, chamando as companheiras.

— Agora sim, irei viver! exclamou satisfeito o pinheiro, distendendo os seus ramos secos mas que ainda retinham ao alto a estrela dourada, muito brilhante à luz do sol.

Duas crianças que haviam dançado em torno dele no dia de Natal, apareceram. Ao avistarem a estrela uma delas correu para arrancá-la.

— Olhe aqui o que ainda está neste pinheiro murcho! disse calcando com os pés os galhos da pobre árvore.

Olhando para o jardim florido e vendo a miserável condição a que chegara o pinheiro desejou ter ficado no canto escuro do porão. Evocou os dias felizes passados na floresta, a alegre noite de Natal e os pequeninos camundongos que tanto gostavam de ouvir a história do Polichinelo.

— Tudo acabado! lamentou ele. Quando eu era feliz não sabia dar valor à minha felicidade. Só agora compreendo a vida — e justamente agora tudo está acabado para mim...

Pouco depois um rapaz de machado em punho picou a árvore em pedaços, que amontoou a um canto para serem queimados. E quando as labaredas começaram a devorá-lo o pinheiro gemeu doridamente, como só sabem gemer os pinheiros que se vêem queimados vivos. Cada estalo que a madeira dava era um gemido de dor. Ao ouvirem esses estalos as crianças deixaram os brinquedos e vieram acocorar-se ao pé do fogo. Mesmo envolto em chamas o pinheiro ainda recordava-se de um ou outro dia feliz de verão passado na floresta, ou de alguma noite de inverno, quando as estrelas cintilavam com mais fulgor. E também não deixou de recordar a noite do Natal e a história do Polichinelo, a única que jamais ouviu e a única que aprendera contar. Por fim, todo desfez-se em cinzas e acabou-se a história do pinheiro ambicioso, que, como os homens, só soube dar valor à felicidade depois que a perdeu.

Saturday, 27 September 2025

Saturday's Good Reading: “O Rouxinol” by Hans Christian Andersen (translated into Portuguese by Monteiro Lobato).

 

A China, Vocês sabem, o imperador é chinês e todos que vivem em redor dele são chineses.

Há muito e muitos anos o palácio do imperador da China era o mais belo de todos os palácios do mundo; basta dizer que fora construído inteiro de porcelana finíssima — tão fina e frágil que ninguém tinha ânimo de nele tocar nem com a ponta do dedo. Nos jardins viam-se as flores mais esquisitas, com minúsculas campainhas de prata amarradas nas pétalas; o vento fazia retinir esses sininhos chamando a atenção dos passantes. Tudo mais nos jardins do imperador era desse gosto e a tal distância se prolongavam que nem os jardineiros sabiam onde era o fim. Mas se alguém conseguisse chegar ao fim dos jardins veria que davam para uma floresta de enormes árvores e muitos lagos fundos. A floresta ia descendo até uma praia e mergulhava num mar, de modo que em certo ponto os navios navegavam por cima das ramagens. Naquela floresta morava um rouxinol de maravilhoso canto. Que músicas sabia esse passarinho! Os pescadores que passavam por perto, de caminho aos lagos, esqueciam-se dos peixes para ouvi-lo.

Viajantes vinham de todas as partes do mundo para admirar o palácio e os jardins do imperador da China, mas quando ouviam o canto do rouxinol murmuravam extasiados: "Isto vale mais que tudo!" E ao regressarem para suas terras contavam as maravilhas vistas e escreviam livros e livros sobre o palácio e os jardins, sem nunca se esquecerem do rouxinol que valia mais que tudo. Os que eram poetas faziam lindas poesias sobre a maravilhosa avezinha cantora da floresta dos lagos.

Esses livros começaram a correr mundo e um deles foi parar nas mãos do imperador, que ficou a lê-lo em seu trono de ouro, volta e meia balançando a cabeça para indicar que estava satisfeito com o que diziam a respeito dos seus jardins e palácios. Mas esse livro também acabava com a mesma observação de todos os viajantes sobre o rouxinol, considerando-o superior a tudo.

— Que é isto? indagou o soberano. Não sei de nada! Será possível que exista semelhante passarinho em minhas terras, em meu próprio jardim, e eu o ignore?

E chamou o mordomo, que era um personagem de tal importância que se alguém falava com ele a única resposta recebida era "Pf!" som que não quer dizer coisa nenhuma.

— Deve haver um passarinho muito notável, chamado rouxinol, disse-lhe o imperador. Os viajantes declaram que é a maior maravilha que viram no meu reino. Por que nunca me disseram nada a respeito?

— Jamais ouvi falar dele, Majestade, respondeu o mordomo, e creio que nunca foi apresentado à corte.

Pois ordeno que venha cantar diante de mim esta mesma noite, disse o soberano. O mundo inteiro sabe que esse rouxinol existe e eu o desconheço...

— Jamais ouvi falar dele, repetiu o mordomo, mas farei que seja procurado e introduzido perante Vossa Majestade.

Muito fácil de dizer, mas onde encontrar o rouxinol? O mordomo consultou toda a gente do palácio e de ninguém obteve a menor informação a respeito. Foi ter com o imperador e disse que o tal rouxinol com certeza era peta de quem escreveu o livro.

— Vossa Majestade não deve crer em tudo quanto está nos livros; muita coisa é fantasia poética da arte negra (eles chamam arte negra à arte de escrever, por causa da tinta).

— Mas o livro em que li isso, replicou o soberano, foi-me enviado pelo muito alto e poderoso imperador do Japão — e de nenhum modo pode conter falsidade. Quero ouvir o rouxinol! Quero ouvi-lo esta noite. E se não vier, toda a corte será passada a fio de espada, logo depois da ceia.

— Tsing-pe! murmurou humildemente o mordomo, e voltou a correr o palácio inteirinho, onde falou com todo o mundo, porque era necessário descobrir-se, fosse lá como fosse, o tal rouxinol maravilhoso; do contrário perderiam todos a vida naquela mesma noite.

Depois de muita correria encontraram na cozinha do palácio uma pequena ajudante de cozinheira que disse:

— Um rouxinol? Oh, conheço esse rouxinol que canta maravilhosamente. Eu costumo levar os restos de comida para minha mãe doente; ela mora perto da praia, e quando volto, e me sinto cansada, sento-me debaixo duma árvore da floresta e ouço o rouxinol cantar. E tão lindo ele canta, que eu choro sem querer, porque é o mesmo que se minha mãe estivesse me beijando.

— Menina, disse o mordomo, arranjarei para você um emprego nesta cozinha e ainda darei licença para que assista ao jantar do imperador, se nos mostrar o caminho que vai ter à floresta desse rouxinol.

Momentos depois chegavam à floresta em questão. Metade da corte, pelo menos, seguira a menina. Súbito, uma vaca mugiu.

— Oh, exclamou um dos cortesãos, lá está ele! E que força de pulmões tem, para um corpinho tão pequeno! Mas... parece-me que já ouvi este canto nalgum lugar...

— Bolas! exclamou a menina. Isso é uma vaca que está berrando. Estamos ainda longe.

Mais adiante uma rã coaxou num brejo.

— Magnífico! exclamou outro cortesão. É ele! Canta que parece sino de igreja!...

— Qual o que, disse a menina. Isso é uma rã do brejo!

Mas afinal chegaram ao ponto onde o rouxinol costumava aparecer e imediatamente ouviram seu gorjeio.

— Lá está o rouxinol! gritou a menina. Devagar agora, se não foge. Ali, naquela árvore. Olhem, olhem! E aquele passarinho escuro!...

— Será possível! duvidou o mordomo. Nunca imaginei coisa assim. Tão singelo e sem cor. Com certeza perdeu as cores de assombro de ver tanta gente notável aqui reunida.

— Rouxinolzinho, gritou a menina, o nosso poderoso imperador deseja que você vá cantar diante dele esta noite.

— Com o maior prazer, respondeu o passarinho, e para dar amostra do seu canto gorjeou a sua linda música extasiando a todos.

— Parece som de cristal, disse o mordomo, e olhem como palpita a gargantinha dele! É espantoso que nunca ouvíssemos falar dessa ave! Vai fazer um enorme sucesso na corte.

— Quer que cante mais um pouco para o imperador ouvir? inquiriu o rouxinol, certo que algum daqueles figurões era o soberano.

— Meu querido rouxinolzinho, respondeu o mordomo, o imperador não está aqui, e eu o convido para comparecer hoje de noite no palácio imperial, onde Sua Majestade o espera ansioso.

— É muito melhor o meu canto ouvido na floresta do que num palácio, mas irei, já que o imperador o quer.

Os preparativos no palácio para receber o rouxinol foram magníficos. As paredes de porcelana brilhavam, batidas da luz de mil lâmpadas de ouro; as mais raras flores, todas com os seus sininhos de prata, enfeitavam os corredores, fazendo tanto barulho que ali ninguém podia conversar.

No centro do salão onde estava o imperador em seu trono havia um poleiro de ouro para o rouxinol, Toda a corte se colocara lado a lado, à espera, e a menina da cozinha ficou a espiar pelo vão da porta, visto que ainda não obtivera o cargo prometido pelo mordomo. Todos tinham os olhos na avezinha, para o qual o imperador fez sinal de começar.

E o rouxinol cantou e cantou tão maravilhosamente bem que lágrimas começaram a deslizar pelas faces do imperador. O seu encanto foi tamanho que ele resolveu pôr em redor do pescoço da avezinha um colar de diamantes mas o rouxinol recusou, achando que já se achava sobejamente recompensado.

— Vi lágrimas nos olhos de Vossa Majestade, disse ele, e isso vale para mim pela mais alta recompensa. As lágrimas do imperador possuem a virtude de ser o maior dos prêmios.

E continuou a cantar.

— Isto é a mais bela música que ainda ouvi! disseram as damas presentes e puseram água na boca a fim de ficarem com a fala líquida ou fluida, como era a vozinha do rouxinol. Até a criadagem do palácio ficou maravilhada — o que é de estranhar, porque justamente os criados são os mais exigentes. O sucesso do rouxinol havia sido completo.

O Imperador convidou-o para ficar residindo ali, numa gaiola de ouro, da qual podia sair duas vezes de dia e uma de noite — sempre acompanhado de dois fâmulos a segurarem uma fita de seda amarrada a um dos seus pezinhos. Aquele modo de viver, entretanto, não lhe agradava e só servia para avivar as saudades da vida livre da floresta.

Em toda a cidade o assunto era aquele — o rouxinol. Numerosas crianças foram batizadas com o seu nome, mas nenhuma mostrou possuir a sua gargantinha de cristal.

Um dia o imperador recebeu uma caixa de presente.

— Há de ser algum novo livro a respeito do famoso pássaro, pensou consigo. Mas não era livro nenhum e sim um rouxinol artificial, feito de diamantes, safiras e rubis. Quando lhe davam corda, cantava uma das músicas do rouxinol de verdade, e também estremecia a caudinha, toda rutilante de pedrarias. Em redor do seu pescoço vinha uma fitinha com estes dizeres: "O rouxinol do Imperador do Japão é pobre comparado com o rouxinol do Imperador da China."

— Maravilhoso! exclamaram todos os presentes, e o portador da ave artificial foi imediatamente nomeado para um cargo novo Imperial Trazedor do Rouxinol Imperial.

— Eles agora precisam cantar em dueto, este e o outro, lembraram os cortesãos. Vai ser um assombro.

A ideia foi aceita com entusiasmo e o duelo teve logo início. Mas a tentativa não deu resultado porque o rouxinol de verdade cantava como queria e o outro só de acordo com a corda.

—Não é culpa do rouxinol novo, observou o maestro do palácio, porque este está certo, visto como marca os compassos segundo os princípios da minha escola — e foi então ordenado que o rouxinol artificial cantasse sozinho. O seu sucesso foi muito maior que o obtido pelo rouxinol real — e além disso era ele muito mais agradável à vista, por causa das pedrarias foi a opinião de todos.

Trinta e três vezes cantou a mesma música sem cansar-se, e cantaria ainda outras se o Imperador não declarasse que era tempo de ser ouvido o rouxinol real. Mas... onde estava ele? Ninguém o tinha visto escapar-se da gaiola e sumir-se pela janela.

—Como foi isso? indagou o Imperador magoado — e todos os cortesãos recriminaram a avezinha como profundamente ingrata.

— Mas o melhor ficou, disseram logo em seguida, e o rouxinol artificial foi posto a cantar novamente, e cantou pela trigésima quarta vez a mesma música. O maestro do palácio disse dele ainda maiores louvores, continuando a afirmar que era na realidade muito melhor que o outro, além de ser incomparavelmente mais lindo.

— Vossa Majestade compreende o valor desta jóia, explicou o maestro ao Imperador. Com o outro não podíamos saber nunca que música viria, mas com este temos a certeza do que vai cantar. Podemos analisá-lo, abri-lo, ver o que tem dentro e admirar a maravilha do engenho humano.

— Realmente! afirmaram todos os presentes. O maestro tem toda a razão — e combinaram exibi-lo ao povo no próximo domingo, depois de obtida do Imperador a necessária licença.

Fez-se com grande sucesso a exibição; o povo ouviu-o cantar com o mesmo prazer com que toma chá, porque eram todos chineses e para o chinês nada como o chá. Todos, menos um. Um pescador que já havia ouvido o rouxinol na floresta, só esse não gostou.

— Canta bem, não há dúvida, dissera esse homem, mas só canta uma certa música, e além disso noto que falta qualquer coisa nessa música — o que, não sei.

Mas para a grande massa do povo vencera o rouxinol artificial, e em vista disso o verdadeiro foi banido da China por um decreto do soberano.

O novo vencedor viu-se colocado sobre um coxim de seda, ao lado do leito do imperador, no meio de um monte de jóias e pedrarias. Foi-lhe dado o título de Imperial Cantor da Câmara Imperial, com direito ao lado esquerdo do soberano, que é o lado mais importante por ser o lado do coração. O maestro do palácio escreveu uma obra em vinte e cinco volumes sobre a jóia cantora, obra tão cheia daquelas letras chinesas desenhadas com tinta nanquim, que ninguém leu — e se alguém lesse não entenderia. Mas todos a admiraram para não correrem o risco de ser tidos como estúpidos.

Um ano passou-se. Tanto o Imperador, como toda a sua corte e ainda o povo chinês, aprenderam de cor, sem escapar um sonzinho, a célebre música do rouxinol. E todos a cantavam. Até nas ruas a meninada ia para as escolas cantando a cantiga do rouxinol imperial.

Certa manhã, em que o rouxinol estava pela milésima vez cantando a sua música para o imperador, qualquer coisa dentro dele estalou — craque! e o silêncio se fez.

O imperador pulou da cama onde se achava e chamou pelo médico do palácio. Mas o médico, apesar de grande sábio, nada pode fazer.

Foi chamado um relojoeiro, que abriu o rouxinol e procurou consertá-lo. As molas estavam gastas e se se pusessem outras a música se alteraria. Foram apesar disso mudadas as molas, e para que não se gastassem como as primeiras, o imperador declarou que ele só cantaria uma vez por ano. O maestro do palácio fez um longo discurso para provar que a música mudara um pouco, mas era ainda melhor que a primitiva — o todos tiveram de achar que sim.

Cinco anos mais tarde uma desgraça caiu sobre o império: o imperador adoecera de doença grave. Vendo que o soberano estava nas últimas, os ministros providenciaram para a imediata escolha do seu sucessor. O povo aglomerado em frente ao palácio ansiava por saber do mordomo como ia passando o velho soberano; mas o mordomo aparecia e emitia apenas aquele seu célebre "Pf!" que não significava coisa nenhuma.

O imperador jazia muito pálido e desfigurado em seu leito, e sozinho, porque todos os cortesãos só queriam saber de rodear o futuro soberano. Os criados tinham corrido a servir o novo sol e as camareiras também — e como os corredores próximos haviam sido tapetados para que nenhum rumor fosse feito, o silêncio em torno do velho Imperador era mortal.

O pobre soberano mal podia respirar; sentia um grande peso no coração e, abrindo os olhos, viu que o vulto da Morte estava sentado sobre o seu peito, com a sua coroa na cabeça, o seu cetro numa das mãos descarnadas e a sua espada na outra. Estranhos seres espiavam detrás dos reposteiros de veludo. Eram as más ações do soberano que vinham espiá-lo, agora que a Morte se sentara em cima do seu peito.

— Lembra-se de mim? murmurava uma, fazendo caretas.

— E de mim? murmurava outra, e tantas foram as perguntas desse gênero que o imperador começou a suar frio.

— Oh! exclamou ele, horrorizado. Música! Que soem os tambores! Não quero ouvir o que estas sombras me dizem!

Mas as sombras das suas más ações continuaram a fazer-se lembradas e a Morte concordava com a cabeça com tudo quanto elas diziam.

— Música! Música! vociferava o soberano. Meu rouxinol de ouro, canta, canta! Dei-te todas as honras e te pus ao pescoço o meu colar de diamantes. Cante, eu ordeno, canta!

— Mas o rouxinol artificial conservou-se mudo — estava sem corda — e sem corda não podia cantar ainda com ordem do imperador. E a Morte continuava a encarar firmemente o moribundo com as suas órbitas ocas, no silêncio tumular que envolvia tudo.

Súbito, uma melodia estranha soou à janela. Vinha lá de fora, da garganta dum rouxinol vivo que pousara num galho. Era o rouxinol da floresta, que ouvira o apelo do moribundo e se apressara em vir confortar sua pobre alma dolorida. E à medida que ia cantando, os fantasmas do quarto se iam esvaindo e o sangue voltava a circular com mais vida nas veias do Imperador. Até a própria Morte se pôs a ouvi-lo, maravilhada, murmurando a espaços:

— Continue, rouxinolzinho! Continue...

— Só continuarei se você me der essa coroa.

A morte tirou da sua cabeça a coroa do Imperador e deu-a ao rouxinol — e o rouxinol cantou mais uma canção. A Morte pediu mais música — e o rouxinol para cada nova canção exigia uma das coisas que ela já havia tirado do Imperador — o cetro, a espada, o estandarte.

E o rouxinol cantou, cantou como os rouxinóis costumam cantar nos jardins sombrios, ao cair da noite, quando o orvalho começa a misturar-se aos perfumes das flores sonolentas. Por fim a Morte esvaiu-se do quarto, como um nevoeiro que se extingue ao sol.

— Obrigado! Obrigado, meu maravilhoso amigo! Conheço-te muito bem. Foste por mim mesmo banido dos meus domínios e no entanto vieste afugentar do meu quarto os horrendos monstros que me torturavam. Como poderei recompensar-te do bem que me fizeste?

— Recompensado estou, respondeu o rouxinol. Já vi lágrimas em vossos olhos, da primeira vez que cantei — e não me esquecerei disso nunca. Dormi, Imperador, dormi que o sono vos restaurará as forças. Eu continuarei a cantar para embalo do vosso sono.

E cantou, cantou, cantou até ver o soberano profundamente adormecido.

O sol já batia de novo em sua janela quando o Imperador caiu do sono, refeito da doença e curado. Nenhum dos seus serviçais aparecera no quarto, porque todos já o supunham falecido. Só o rouxinol lhe fazia companhia, lá do galho a cantar.

—Ficarás agora sempre comigo, disse o Imperador e cantarás sempre que eu pedir. O outro, o teu rival de diamantes e rubis, será despedaçado.

— Por que isso? disse a avezinha. Ele cantou enquanto pode. Conservai-o como antes. Eu não posso construir meu ninho aqui, nem viver no palácio, mas virei sempre que puder, e pousarei neste galhinho, perto desta janela, e cantarei para Vossa Majestade apenas. Cantarei em prol dos que sofrem, dos que injustamente são afastados da vossa presença pelos maus cortesãos. Isso porque sou um cantorzinho que voa por toda a parte, e pousa no teto dos camponeses humildes e dos pescadores paupérrimos, e de toda a gente que vive longe da corte e nem sequer é por ela suspeitada. Eu amo mais o vosso coração do que a vossa coroa. Virei cantar apenas para vós — mas haveis de prometer-me uma coisa.

— Prometo tudo quanto pedires! disse o Imperador erguendo o punho da espada como testemunha.

— Quero que ninguém saiba que Vossa Majestade possui uma avezinha que lhe conta tudo.

Disse e voou para longe.

Os criados vieram afinal espiar o cadáver do velho Imperador... Mas o seu assombro não teve limites quando o cadáver se ergueu na cama e lhes disse, muito amavelmente:

— Bons olhos os vejam, amigos!

Saturday, 28 September 2019

Good Readings: "The Ugly Duckling" by Hans C. Andersen (translated into English by Mrs. Henry H. B. Paull)


It was lovely summer weather in the country, and the golden corn, the green oats, and the haystacks piled up in the meadows looked beautiful. The stork walking about on his long red legs chattered in the Egyptian language, which he had learnt from his mother. The corn-fields and meadows were surrounded by large forests, in the midst of which were deep pools. It was, indeed, delightful to walk about in the country. In a sunny spot stood a pleasant old farm-house close by a deep river, and from the house down to the water side grew great burdock leaves, so high, that under the tallest of them a little child could stand upright. The spot was as wild as the centre of a thick wood. In this snug retreat sat a duck on her nest, watching for her young brood to hatch; she was beginning to get tired of her task, for the little ones were a long time coming out of their shells, and she seldom had any visitors. The other ducks liked much better to swim about in the river than to climb the slippery banks, and sit under a burdock leaf, to have a gossip with her. At length one shell cracked, and then another, and from each egg came a living creature that lifted its head and cried, “Peep, peep.” “Quack, quack,” said the mother, and then they all quacked as well as they could, and looked about them on every side at the large green leaves. Their mother allowed them to look as much as they liked, because green is good for the eyes. “How large the world is,” said the young ducks, when they found how much more room they now had than while they were inside the egg-shell. “Do you imagine this is the whole world?” asked the mother; “Wait till you have seen the garden; it stretches far beyond that to the parson’s field, but I have never ventured to such a distance. Are you all out?” she continued, rising; “No, I declare, the largest egg lies there still. I wonder how long this is to last, I am quite tired of it;” and she seated herself again on the nest.
          “Well, how are you getting on?” asked an old duck, who paid her a visit.
         “One egg is not hatched yet,” said the duck, “it will not break. But just look at all the others, are they not the prettiest little ducklings you ever saw? They are the image of their father, who is so unkind, he never comes to see.”
          “Let me see the egg that will not break,” said the duck; “I have no doubt it is a turkey’s egg. I was persuaded to hatch some once, and after all my care and trouble with the young ones, they were afraid of the water. I quacked and clucked, but all to no purpose. I could not get them to venture in. Let me look at the egg. Yes, that is a turkey’s egg; take my advice, leave it where it is and teach the other children to swim.”
“I think I will sit on it a little while longer,” said the duck; “as I have sat so long already, a few days will be nothing.”
                “Please yourself,” said the old duck, and she went away.
                At last the large egg broke, and a young one crept forth crying, “Peep, peep.” It was very large and ugly. The duck stared at it and exclaimed, “It is very large and not at all like the others. I wonder if it really is a turkey. We shall soon find it out, however when we go to the water. It must go in, if I have to push it myself.”
                On the next day the weather was delightful, and the sun shone brightly on the green burdock leaves, so the mother duck took her young brood down to the water, and jumped in with a splash. “Quack, quack,” cried she, and one after another the little ducklings jumped in. The water closed over their heads, but they came up again in an instant, and swam about quite prettily with their legs paddling under them as easily as possible, and the ugly duckling was also in the water swimming with them.
                “Oh,” said the mother, “that is not a turkey; how well he uses his legs, and how upright he holds himself! He is my own child, and he is not so very ugly after all if you look at him properly. Quack, quack! come with me now, I will take you into grand society, and introduce you to the farmyard, but you must keep close to me or you may be trodden upon; and, above all, beware of the cat.”
                When they reached the farmyard, there was a great disturbance, two families were fighting for an eel’s head, which, after all, was carried off by the cat. “See, children, that is the way of the world,” said the mother duck, whetting her beak, for she would have liked the eel’s head herself. “Come, now, use your legs, and let me see how well you can behave. You must bow your heads prettily to that old duck yonder; she is the highest born of them all, and has Spanish blood, therefore, she is well off. Don’t you see she has a red flag tied to her leg, which is something very grand, and a great honor for a duck; it shows that every one is anxious not to lose her, as she can be recognized both by man and beast. Come, now, don’t turn your toes, a well-bred duckling spreads his feet wide apart, just like his father and mother, in this way; now bend your neck, and say ‘quack.’”
                The ducklings did as they were bid, but the other duck stared, and said, “Look, here comes another brood, as if there were not enough of us already! and what a queer looking object one of them is; we don’t want him here,” and then one flew out and bit him in the neck.
                “Let him alone,” said the mother; “he is not doing any harm.”
                “Yes, but he is so big and ugly,” said the spiteful duck “and therefore he must be turned out.”
                “The others are very pretty children,” said the old duck, with the rag on her leg, “all but that one; I wish his mother could improve him a little.”
                “That is impossible, your grace,” replied the mother; “he is not pretty; but he has a very good disposition, and swims as well or even better than the others. I think he will grow up pretty, and perhaps be smaller; he has remained too long in the egg, and therefore his figure is not properly formed;” and then she stroked his neck and smoothed the feathers, saying, “It is a drake, and therefore not of so much consequence. I think he will grow up strong, and able to take care of himself.”
                “The other ducklings are graceful enough,” said the old duck. “Now make yourself at home, and if you can find an eel’s head, you can bring it to me.”
                And so they made themselves comfortable; but the poor duckling, who had crept out of his shell last of all, and looked so ugly, was bitten and pushed and made fun of, not only by the ducks, but by all the poultry. “He is too big,” they all said, and the turkey cock, who had been born into the world with spurs, and fancied himself really an emperor, puffed himself out like a vessel in full sail, and flew at the duckling, and became quite red in the head with passion, so that the poor little thing did not know where to go, and was quite miserable because he was so ugly and laughed at by the whole farmyard. So it went on from day to day till it got worse and worse. The poor duckling was driven about by every one; even his brothers and sisters were unkind to him, and would say, “Ah, you ugly creature, I wish the cat would get you,” and his mother said she wished he had never been born. The ducks pecked him, the chickens beat him, and the girl who fed the poultry kicked him with her feet. So at last he ran away, frightening the little birds in the hedge as he flew over the palings.
                “They are afraid of me because I am ugly,” he said. So he closed his eyes, and flew still farther, until he came out on a large moor, inhabited by wild ducks. Here he remained the whole night, feeling very tired and sorrowful.
                In the morning, when the wild ducks rose in the air, they stared at their new comrade. “What sort of a duck are you?” they all said, coming round him.
                He bowed to them, and was as polite as he could be, but he did not reply to their question. “You are exceedingly ugly,” said the wild ducks, “but that will not matter if you do not want to marry one of our family.”
                Poor thing! he had no thoughts of marriage; all he wanted was permission to lie among the rushes, and drink some of the water on the moor. After he had been on the moor two days, there came two wild geese, or rather goslings, for they had not been out of the egg long, and were very saucy. “Listen, friend,” said one of them to the duckling, “you are so ugly, that we like you very well. Will you go with us, and become a bird of passage? Not far from here is another moor, in which there are some pretty wild geese, all unmarried. It is a chance for you to get a wife; you may be lucky, ugly as you are.”
                “Pop, pop,” sounded in the air, and the two wild geese fell dead among the rushes, and the water was tinged with blood. “Pop, pop,” echoed far and wide in the distance, and whole flocks of wild geese rose up from the rushes. The sound continued from every direction, for the sportsmen surrounded the moor, and some were even seated on branches of trees, overlooking the rushes. The blue smoke from the guns rose like clouds over the dark trees, and as it floated away across the water, a number of sporting dogs bounded in among the rushes, which bent beneath them wherever they went. How they terrified the poor duckling! He turned away his head to hide it under his wing, and at the same moment a large terrible dog passed quite near him. His jaws were open, his tongue hung from his mouth, and his eyes glared fearfully. He thrust his nose close to the duckling, showing his sharp teeth, and then, “splash, splash,” he went into the water without touching him, “Oh,” sighed the duckling, “how thankful I am for being so ugly; even a dog will not bite me.” And so he lay quite still, while the shot rattled through the rushes, and gun after gun was fired over him. It was late in the day before all became quiet, but even then the poor young thing did not dare to move. He waited quietly for several hours, and then, after looking carefully around him, hastened away from the moor as fast as he could. He ran over field and meadow till a storm arose, and he could hardly struggle against it. Towards evening, he reached a poor little cottage that seemed ready to fall, and only remained standing because it could not decide on which side to fall first. The storm continued so violent, that the duckling could go no farther; he sat down by the cottage, and then he noticed that the door was not quite closed in consequence of one of the hinges having given way. There was therefore a narrow opening near the bottom large enough for him to slip through, which he did very quietly, and got a shelter for the night. A woman, a tom cat, and a hen lived in this cottage. The tom cat, whom the mistress called, “My little son,” was a great favorite; he could raise his back, and purr, and could even throw out sparks from his fur if it were stroked the wrong way. The hen had very short legs, so she was called “Chickie short legs.” She laid good eggs, and her mistress loved her as if she had been her own child. In the morning, the strange visitor was discovered, and the tom cat began to purr, and the hen to cluck.
                “What is that noise about?” said the old woman, looking round the room, but her sight was not very good; therefore, when she saw the duckling she thought it must be a fat duck, that had strayed from home. “Oh what a prize!” she exclaimed, “I hope it is not a drake, for then I shall have some duck’s eggs. I must wait and see.” So the duckling was allowed to remain on trial for three weeks, but there were no eggs. Now the tom cat was the master of the house, and the hen was mistress, and they always said, “We and the world,” for they believed themselves to be half the world, and the better half too. The duckling thought that others might hold a different opinion on the subject, but the hen would not listen to such doubts. “Can you lay eggs?” she asked. “No.” “Then have the goodness to hold your tongue.” “Can you raise your back, or purr, or throw out sparks?” said the tom cat. “No.” “Then you have no right to express an opinion when sensible people are speaking.” So the duckling sat in a corner, feeling very low spirited, till the sunshine and the fresh air came into the room through the open door, and then he began to feel such a great longing for a swim on the water, that he could not help telling the hen.
                “What an absurd idea,” said the hen. “You have nothing else to do, therefore you have foolish fancies. If you could purr or lay eggs, they would pass away.”
                “But it is so delightful to swim about on the water,” said the duckling, “and so refreshing to feel it close over your head, while you dive down to the bottom.”
                “Delightful, indeed!” said the hen, “why you must be crazy! Ask the cat, he is the cleverest animal I know, ask him how he would like to swim about on the water, or to dive under it, for I will not speak of my own opinion; ask our mistress, the old woman—there is no one in the world more clever than she is. Do you think she would like to swim, or to let the water close over her head?”
                “You don’t understand me,” said the duckling.
                “We don’t understand you? Who can understand you, I wonder? Do you consider yourself more clever than the cat, or the old woman? I will say nothing of myself. Don’t imagine such nonsense, child, and thank your good fortune that you have been received here. Are you not in a warm room, and in society from which you may learn something. But you are a chatterer, and your company is not very agreeable. Believe me, I speak only for your own good. I may tell you unpleasant truths, but that is a proof of my friendship. I advise you, therefore, to lay eggs, and learn to purr as quickly as possible.”
                “I believe I must go out into the world again,” said the duckling.
                “Yes, do,” said the hen. So the duckling left the cottage, and soon found water on which it could swim and dive, but was avoided by all other animals, because of its ugly appearance. Autumn came, and the leaves in the forest turned to orange and gold. then, as winter approached, the wind caught them as they fell and whirled them in the cold air. The clouds, heavy with hail and snow-flakes, hung low in the sky, and the raven stood on the ferns crying, “Croak, croak.” It made one shiver with cold to look at him. All this was very sad for the poor little duckling. One evening, just as the sun set amid radiant clouds, there came a large flock of beautiful birds out of the bushes. The duckling had never seen any like them before. They were swans, and they curved their graceful necks, while their soft plumage shown with dazzling whiteness. They uttered a singular cry, as they spread their glorious wings and flew away from those cold regions to warmer countries across the sea. As they mounted higher and higher in the air, the ugly little duckling felt quite a strange sensation as he watched them. He whirled himself in the water like a wheel, stretched out his neck towards them, and uttered a cry so strange that it frightened himself. Could he ever forget those beautiful, happy birds; and when at last they were out of his sight, he dived under the water, and rose again almost beside himself with excitement. He knew not the names of these birds, nor where they had flown, but he felt towards them as he had never felt for any other bird in the world. He was not envious of these beautiful creatures, but wished to be as lovely as they. Poor ugly creature, how gladly he would have lived even with the ducks had they only given him encouragement. The winter grew colder and colder; he was obliged to swim about on the water to keep it from freezing, but every night the space on which he swam became smaller and smaller. At length it froze so hard that the ice in the water crackled as he moved, and the duckling had to paddle with his legs as well as he could, to keep the space from closing up. He became exhausted at last, and lay still and helpless, frozen fast in the ice.
                Early in the morning, a peasant, who was passing by, saw what had happened. He broke the ice in pieces with his wooden shoe, and carried the duckling home to his wife. The warmth revived the poor little creature; but when the children wanted to play with him, the duckling thought they would do him some harm; so he started up in terror, fluttered into the milk-pan, and splashed the milk about the room. Then the woman clapped her hands, which frightened him still more. He flew first into the butter-cask, then into the meal-tub, and out again. What a condition he was in! The woman screamed, and struck at him with the tongs; the children laughed and screamed, and tumbled over each other, in their efforts to catch him; but luckily he escaped. The door stood open; the poor creature could just manage to slip out among the bushes, and lie down quite exhausted in the newly fallen snow.
                It would be very sad, were I to relate all the misery and privations which the poor little duckling endured during the hard winter; but when it had passed, he found himself lying one morning in a moor, amongst the rushes. He felt the warm sun shining, and heard the lark singing, and saw that all around was beautiful spring. Then the young bird felt that his wings were strong, as he flapped them against his sides, and rose high into the air. They bore him onwards, until he found himself in a large garden, before he well knew how it had happened. The apple-trees were in full blossom, and the fragrant elders bent their long green branches down to the stream which wound round a smooth lawn. Everything looked beautiful, in the freshness of early spring. From a thicket close by came three beautiful white swans, rustling their feathers, and swimming lightly over the smooth water. The duckling remembered the lovely birds, and felt more strangely unhappy than ever.
                “I will fly to those royal birds,” he exclaimed, “and they will kill me, because I am so ugly, and dare to approach them; but it does not matter: better be killed by them than pecked by the ducks, beaten by the hens, pushed about by the maiden who feeds the poultry, or starved with hunger in the winter.”
                Then he flew to the water, and swam towards the beautiful swans. The moment they espied the stranger, they rushed to meet him with outstretched wings.
                “Kill me,” said the poor bird; and he bent his head down to the surface of the water, and awaited death.
                But what did he see in the clear stream below? His own image; no longer a dark, gray bird, ugly and disagreeable to look at, but a graceful and beautiful swan. To be born in a duck’s nest, in a farmyard, is of no consequence to a bird, if it is hatched from a swan’s egg. He now felt glad at having suffered sorrow and trouble, because it enabled him to enjoy so much better all the pleasure and happiness around him; for the great swans swam round the new-comer, and stroked his neck with their beaks, as a welcome.
                Into the garden presently came some little children, and threw bread and cake into the water.
                “See,” cried the youngest, “there is a new one;” and the rest were delighted, and ran to their father and mother, dancing and clapping their hands, and shouting joyously, “There is another swan come; a new one has arrived.”
                Then they threw more bread and cake into the water, and said, “The new one is the most beautiful of all; he is so young and pretty.” And the old swans bowed their heads before him.
                Then he felt quite ashamed, and hid his head under his wing; for he did not know what to do, he was so happy, and yet not at all proud. He had been persecuted and despised for his ugliness, and now he heard them say he was the most beautiful of all the birds. Even the elder-tree bent down its bows into the water before him, and the sun shone warm and bright. Then he rustled his feathers, curved his slender neck, and cried joyfully, from the depths of his heart, “I never dreamed of such happiness as this, while I was an ugly duckling.”