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Saturday, 15 August 2026

Saturday's Good Reading: "Evangelii Praecones" by Pope Pius XII (translated into Portuguese by unknown translator).

 

CARTA ENCÍCLICA EVANGELII PRAECONES DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII AOS VENERÁVEIS IRMÃOS PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS E DEMAIS ORDINÁRIOS LOCAIS EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA SOBRE O FOMENTO DAS MISSÕES

 

INTRODUÇÃO

1. Ao decorrer o vigésimo quinto aniversário da publicação da encíclica Rerum Ecclesiae, (1) em que nosso predecessor de imortal memória Pio XI procurou com normas sapientíssimas promover o desenvolvimento das missões católicas, de novo se apresentam ao nosso espírito, de modo vivíssimo, os arautos do evangelho, que nos imensos campos das missões se afadigam "para que a palavra de Deus se propague e seja glorificada" (2 Ts 3, 1). E, ao considerarmos quão grande progresso neste intervalo de tempo obteve esta tão santa causa, invade-nos grande alegria. Como tivemos ocasião de lembrar em 24 de junho de 1944, falando aos diretores das Pontifícias Obras Missionárias, "a atividade missionária, tanto nos países já iluminados pela luz do evangelho, como no próprio campo das Missões, atingiu tal intensidade, tal amplitude externa e tal vigor interno, como não se encontram talvez em nenhuma época da história das missões".(2)

2. Parece-nos contudo sumamente oportuno nestes tempos procelosos e ameaçadores, em que muitos povos se sentem divididos por interesses opostos, recomendar de novo a causa das missões, pois os pregoeiros do evangelho são mensageiros da bondade humana e cristã, e a todos exortam à fraternidade e compreensão mútua, capaz de superar os conflitos dos povos e as fronteiras das nações.

3. Nesse sentido dizíamos, entre outras coisas, na citada alocução,: "...O vosso caráter internacional e a vossa colaboração fraterna colocam em plena luz aquele sinal distintivo da Igreja católica, que é a negação e contradição viva da discórdia em que se agitam e se debatem as nações, queremos dizer, a universalidade da fé e do amor, que está acima de todos os campos de batalha e de todas as fronteiras, acima de todos os continentes e de todos os oceanos, universalidade que vos incita e estimula a atingir a suspirada meta de fazer coincidir com os confins do mundo os confins do reino de Deus".(3)

4. Tomando ocasião dos cinco lustros decorridos desde a publicação da encíclica Rerum Ecclesiae, é com verdadeiro prazer que tributamos merecidos louvores ao fecundo trabalho realizado, e que exortamos a todos a continuarem com renovado entusiasmo a grande obra encetada. A todos, isto é, aos nossos veneráveis irmãos no episcopado, aos missionários, aos sacerdotes e aos fiéis, tanto aos que trabalham nos territórios de missões como aos que em qualquer parte da terra com suas orações, com a educação e o auxílio que prestam aos candidatos às missões, ou, finalmente, com suas esmolas, colaboram nesta obra importantíssima.

 

1. Progressos

5. Em primeiro lugar compraz-nos recordar brevemente os progressos obtidos. No ano de 1926 as missões eram 400, atualmente são perto de 600; o número dos habitantes católicos desses territórios não chegava a 15 milhões, enquanto hoje atinge perto de 28 milhões. Os sacerdotes, estrangeiros e nativos, eram então cerca de 14.800, hoje ultrapassam 26.800. Naquela data eram estrangeiros todos os bispos missionários; decorridos 25 anos, 88 missões estão confiadas ao clero nativo e, com o estabelecimento, em muitas regiões, da hierarquia eclesiástica, e a nomeação de bispos indígenas, manifesta-se mais claramente que a Igreja de Jesus Cristo é verdadeiramente católica e não se pode considerar como estrangeira em nenhuma parte do mundo.

6. Para aduzir alguns exemplos: foi constituída, segundo as normas canônicas, a hierarquia eclesiástica na China e em várias regiões da África; celebraram-se três concílios plenários de suma importância, o primeiro na Indochina em 1934, o segundo na Austrália em 1937, o terceiro na Índia, no ano passado; os seminários menores multiplicaram-se enormemente; os alunos dos seminários maiores, apenas 1770 vinte e cinco anos atrás, são hoje 4.300; construíram-se muitos seminários regionais; foi fundado em Roma, junto ao Colégio Urbano da Propagação da Fé, o "Instituto missionário"; em Roma e em outras partes, foram inauguradas várias cátedras de missiologia; igualmente em Roma, foi fundado o Colégio de S. Pedro, no qual sacerdotes indígenas completam com maior esmero a sua formação nas ciências sagradas, nas virtudes e no apostolado; foram fundadas nas missões duas universidades; os ginásios ou colégios superiores, que antes eram cerca de 1.600, hoje passam de 5.000; as escolas primárias e secundárias quase duplicaram de número; e o mesmo se pode afirmar dos ambulatórios ou dispensários e hospitais, em que se atende a todo o gênero de doentes, até mesmo aos leprosos. Podem-se enumerar ainda os seguintes dados: a União missionária do clero nestes 25 anos tomou novo impulso; iniciou-se a Agência "Fides", com o encargo de obter, selecionar e divulgar notícias de interesse religioso; quase em toda parte aumentam e se espalham com profusão livros e revistas sobre as missões; não poucos foram os Congressos missionários realizados, entre os quais o de Roma, na segunda metade do ano santo, que mostrou esplendidamente quanto se tem feito no setor missionário; não há muito celebrou-se com grande concorrência e muita piedade o congresso eucarístico de Kumasi, na Costa do Ouro (África); em favor da Obra da Santa Infância designamos um dia especial cada ano para orações e coleta de esmolas.(4) Todos esses fatos demonstram claramente que o apostolado missionário se adapta eficaz e oportunamente às novas circunstâncias e às crescentes necessidades dos tempos.

7. Nem se há de passar em silêncio que, nesses vinte e cinco anos, foram constituídas cinco novas delegações apostólicas dependentes da Sagrada Congregação da Propagação da Fé, além dos muitos territórios de missões sujeitos aos núncios e internúncios apostólicos. Com prazer atestamos que da presença e operosidade desses prelados já se colheram abundantes frutos, principalmente no sentido de se coordenarem melhor os trabalhos dos missionários. Para isso contribuíram grandemente esses nossos legados, já visitando cada uma das missões, já tomando parte, com autoridade nossa, nas reuniões episcopais, a fim de fazerem convergir para utilidade comum a prudência e experiência de cada um dos ordinários, deliberando conjuntamente sobre os meios de apostolado mais realizáveis e eficazes. Essa fraternidade de fé e de ação teve também outro resultado: o de elevar a estima da religião cristã por parte das autoridades civis e dos infiéis.

8. O que resumidamente expusemos sobre os progressos obtidos pela causa missionária nesses 25 anos foi-nos dado contemplá-lo no decurso do ano santo, ao confluírem a Roma, para impetrar a bênção de Deus e nossa, multidões de fiéis das longínquas plagas agora evangelizadas. Todos esses progressos nos impelem, com o apóstolo, quando escrevia aos romanos, a desejar também nós... "conceder graças espirituais que vos confirmem, isto é, consolarmo-nos em vós, por causa da fé que nos é comum" (Rm 1, 11-12).

9. Parece-nos ouvir o divino Mestre repetir a todos aquela consoladora exortação: "Levantai os olhos e contemplai os campos, que começam a alvejar para a ceifa" (Jo 4, 35). E à insuficiência dos arautos da doutrina cristã para atenderem às necessidades atuais das missões, corresponde outra recomendação do divino Redentor: "A messe é deveras grande e os operários poucos. Rogai ao Senhor que envie operários à sua messe" (Mt 9, 37-38).

10. Com imenso prazer reconhecemos que vai felizmente crescendo, com grande esperança para a Igreja, o número daqueles que se sentem divinamente inspirados para propagar o evangelho em todas as regiões da terra; mas muitíssimo falta ainda, e, portanto, muito resta que pedir a Deus. Considerando os inumeráveis povos ainda fora do único redil e do único porto de salvação, dirigimos ao supremo Príncipe dos pastores a súplica do Eclesiástico: "Assim como... perante eles fostes glorificado em nós, assim perante nós vós sereis exaltado neles, para que vos conheçam como nós conhecemos e saibam que não existe Deus senão vós" (Eclo 36, 4-5).

 

2. Perseguições

11. Esses progressos salutares da causa missionária são fruto não só de imensos trabalhos dos semeadores da palavra divina, mas também de muito sangue derrama do em generoso martírio. Não faltaram, nesses 25 anos, terríveis perseguições à Igreja nalgumas nações, em que ela se encontrava em seus primórdios; nem faltam hoje regiões do extremo Oriente purpureadas no sangue de mártires. Chegam-nos notícias de que não poucos fiéis, como também religiosas, missionários, sacerdotes indígenas e até alguns bispos - precisamente porque se mantiveram e se mantêm heroicamente constantes na própria fé - foram expulsos de suas casas e privados de seus bens. Uns andam passando fome no exílio, outros estão encerrados em prisões ou em campos de concentração, outros ainda foram cruelmente trucidados.

12. Enche-se de indizível tristeza o nosso coração, ao pensarmos nas angústias, nos sofrimentos e na morte desses queridíssimos filhos. Acompanhamo-los não só com paternal amor, mas com paterna veneração, pois sabemos que o altíssimo ofício de missionário é muitas vezes exaltado à dignidade do martírio. Jesus Cristo, o primeiro mártir, predisse: "Se me perseguiram, perseguir-vos-ão também a vós" (Jo 15,20), "sereis oprimidos neste mundo, mas tende confiança, eu venci o mundo" (Jo 16,33), "se o grão de trigo lançado à terra não morrer, ficará só; mas se morrer produzirá muito fruto" (Jo 12,24-25).

13. Os arautos e pregoeiros da doutrina e moral cristãs, que longe dos lares pátrios tombam feridos de morte no desempenho do seu santíssimo ministério, são como sementes, das quais, a um sinal de Deus, hão de germinar frutos abundantíssimos. Por isso s. Paulo afirmava: "Gloriamo-nos das tribulações" (Rm 5, 3), e S. Cipriano, bispo mártir, consolava e exortava os cristãos do seu tempo com estas palavras: "O Senhor quis que nos alegrássemos e exultássemos nas perseguições, porque nas perseguições se concedem coroas de fé, se provam os soldados de Deus e se abrem aos mártires as portas do céu. Não foi para pensar só na paz que demos o nosso nome à milícia de Deus, nem para afastar e rejeitar a luta, uma vez que o Senhor foi o primeiro a exercitar-se nela, como mestre de humildade, paciência e sofrimento, cumprindo ele primeiro o que nos ensinava, e sofrendo primeiro o que nos exortava a sofrermos".(5)

14. Também os semeadores do evangelho, que hoje se afadigam em plagas longínquas, propugnam a mesma causa, que se propugnava na primitiva Igreja. Encontram-se quase nas mesmas condições em que se encontravam em Roma os que - juntamente com os príncipes dos apóstolos, Pedro e Paulo - introduziram o evangelho na cidadela do império romano. Quem quer que reflita que a Igreja naqueles primórdios estava desprovida de qualquer poderio humano e era ademais oprimida de calamidades e perseguições não pode deixar de admirar como um punhado inerme de cristãos conseguiu vencer o maior poder que porventura houve na terra. O que então aconteceu, sucederá também agora. Como o jovem Davi, confiado mais no auxílio divino do que na sua funda, prostrou o gigante Golias envolto na armadura de ferro, assim a Igreja instituída por Jesus Cristo não poderá nunca ser vencida por qualquer poder da terra, mas há de superar impávida todas as perseguições. Sabemos que esta força inquebrantável tem sua origem na indefectível promessa divina; não podemos porém deixar de manifestar nosso agradecimento a todos aqueles que muito destemidamente testemunharam a fé em Jesus Cristo e na sua Igreja, coluna e fundamento da verdade (cf. 1 Tm 3, 5), e exortamo-los a que se mantenham firmes no caminho tomado.

15. De tal fortaleza e intrepidez recebemos freqüentes notícias, que nos confortam imensamente. Se não faltou quem, sob pretexto de amor e fidelidade à própria pátria, pretendesse separar desta cidade eterna e desta Sé Apostólica os filhos da Igreja católica, bem puderam e podem eles responder que a ninguém cedem no amor à pátria, mas que exigem se lhes respeite lealmente o direito a uma liberdade justa.

 

3. O trabalho a realizar

16. É preciso ter bem presente o que acima dissemos: o que há ainda por fazer no campo das missões requer enorme esforço de trabalho e muitos operários. Lembremo-nos de que os nossos irmãos "que jazem nas trevas e nas sombras" (Sl 106, 10) formam multidão imensa de aproximadamente um bilhão de homens. Parece ainda ressoar o lamento do amantíssimo coração de Jesus: "Tenho outras ovelhas que não são deste redil, e é preciso reconduzi-las, e ouvirão a minha voz e far-se-á um só rebanho e um só pastor" (Jo 10, 16).

17. Como bem sabeis, veneráveis irmãos, não faltam pastores que procuram afastar as ovelhas deste único redil e porto de salvação, e sabeis que tal perigo em certas regiões se vai tornando cada vez maior. Pensando na imensa multidão de homens que ainda carecem da luz do evangelho, e considerando o perigo gravíssimo em que tantos são lançados pelo materialismo ateu e por certa doutrina que se diz cristã, mas que está eivada dos erros do comunismo, vemo-nos ansiosamente impelidos a promover com todas as forças e em toda parte as obras de apostolado, e tomamos como dirigida a nós a exortação do profeta: "Clama, não cesses de clamar; como tuba faze ouvir a tua voz" (Is 58, 1).

18. Recomendamos a Deus, de modo especial, os missionários que trabalham nas regiões do interior da América Latina, pois bem sabemos a que perigos e insídias estão expostos, devido aos erros disseminados pelos acatólicos.

 

4. O missionário

19. Para que a ação dos missionários se torne cada vez mais eficaz e para que não se perca em vão nem uma só gota do seu suor e do seu sangue, queremos traçar aqui brevemente alguns princípios e normas que lhes devem reger a atividade.

20. Convém advertir, de início, que quem é chamado por divina inspiração para a vida missionária é designado para uma obra grandiosa e de incomparável elevação. Consagra a própria vida para dilatar o reino de Deus até aos confins da terra. Não busca o que é seu, mas o que é de Jesus Cristo (cf. Fl 2, 21). Pode aplicar-se a si, de modo particular, as belíssimas expressões do Apóstolo: "somos embaixadores de Jesus Cristo" (2 Cor 5, 20), "vivendo em carne mortal, não pelejamos segundo a carne" (2 Cor 10, 3), "fiz-me enfermo com os enfermos, para ganhar os enfermos" (1 Cor 9, 22). Deve, pois, considerar como segunda pátria a região, a que vem trazer a luz do evangelho e amá-la conforme a caridade exige. Não procure lucros terrenos, nem os interesses da própria nação ou instituto religioso, mas unicamente o bem das almas. Deve sim amar intensamente a própria nação e a própria ordem, mas com amor ainda maior deve amar a Igreja. E lembre-se que nada do que for obstáculo ao bem da Igreja, poderá ser proveito para a sua ordem.

21. É preciso, além disso, que os candidatos às missões, enquanto se preparam na pátria, não só recebam a devida formação eclesiástica, mas adquiram também aqueles conhecimentos teóricos e práticos que lhes serão de grandíssima utilidade, quando entre estrangeiros forem pregadores do evangelho. Aprendam portanto as línguas que lhes serão necessárias, tenham conhecimentos suficientes de medicina, agricultura, etnografia, história, geografia e outras ciências congêneres.

 

5. A finalidade das missões

22. A primeira finalidade das missões é, porém, como todos sabem, que a luz do cristianismo brilhe com maior esplendor ante os novos povos e faça surgir dentre eles novos cristãos. Mas é preciso também que procurem desde logo - e o tenham sempre presente como fito - estabelecer solidamente a Igreja entre os povos evangelizados, dando-lhes uma hierarquia própria, formada de elementos nativos.

23. Na carta que enviamos, no dia 9 de agosto do ano passado, ao nosso dileto filho, o cardeal Pedro Fumasoni Biondi, prefeito da Sagrada Congregação "De Propaganda Fide", escrevíamos: "A Igreja não tem a mínima intenção de dominar os povos ou de se apoderar das coisas temporais, pois o seu único anelo é levar a todos os povos a luz sobrenatural da fé, promover a civilização e a fraterna concórdia entre as nações".(6)

 

24. E na carta apostólica Maximum illud (7), do nosso antecessor de imortal memória Bento XV, escrita no ano de 1919, como na encíclica Rerum Ecclesiae (8) do nosso imediato predecessor de feliz recordação, Pio XI, proclamava-se que as missões católicas deviam ter como fim supremo implantar a Igreja em novas terras. E em 1944, dirigindo-nos, como dissemos, aos diretores das Obras missionárias, afirmávamos: "A grande finalidade das missões é estabelecer a Igreja em novas terras, dando lhe tão profundas raízes que possa, quanto antes, viver e florescer sem o auxílio das organizações missionárias. As organizações missionárias não são fins de si mesmas: procuram com empenho o estabelecimento da Igreja em novas terras, mas uma vez que o obtêm, retiram-se para outros empreendimentos".(9) "A atividade missionária não se limita ao consolidamento de posições já conquistadas, a sua meta é transformar todo o mundo numa terra santificada. Pretendem os missionários levar através de todas as regiões, até à última e mais remota choupana e até o último e mais remoto habitante do mundo, o reino do divino Redentor ressuscitado, 'ao qual foi dado todo o poder no céu e na terra'" (cf. Mt 28, 18).(10)

 

6. O clero indígena

25. É evidente que a Igreja não se pode estabelecer convenientemente nas novas regiões, sem organização adequada e principalmente sem clero indígena a altura das necessidades locais. Apraz-nos repetir aqui os ponderados e sábios ensinamentos da encíclica Rerum Ecclesiae: "...Se cada um de vós deve procurar obter o maior número de sacerdotes indígenas, deve também procurar formá-los na santidade requerida pela vida sacerdotal e naquele espírito apostólico cheio de zelo pela salvação dos próprios irmãos, que os torne prontos a dar a vida pelos membros da sua tribo e nação".(11)

26. "Suponhamos que, por motivo de guerra ou de outros acontecimentos políticos, em algum território de missão se substitua um governo por outro e se exija ou se decrete o afastamento dos missionários de determinado país; suponhamos - o que mais dificilmente acontecerá - que as populações nativas, atingindo maior grau de civilização e uma espécie de maioridade cultural, decidam, para tornar-se independentes, excluir do seu território os representantes, as tropas e os missionários das nações colonizadoras e que isso não se possa levar a efeito sem o recurso à violência. Que ruína desastrosa ameaçaria então a Igreja em tais regiões, se não se tivesse providenciado às necessidades dos convertidos, estendendo por todo o território uma como rede de sacerdotes nativos".(12)

27. Contemplando em não poucos países do extremo oriente a verificação dessas previsões do nosso imediato predecessor, entristecemo-nos profundamente. Onde existiam missões florescentíssimas e então alvejantes para a messe (cf. Jo 4, 35) vivem-se hoje dias da maior angústia. Seja-nos permitido esperar que os povos da Coréia e da China, dotados de natural bondade e delicadeza e herdeiros do esplendor de civilizações muito antigas, se vejam livres quanto antes, não só de tempestuosos conflitos bélicos, mas também da doutrina funesta que nega os bens celestes para inculcar só os da terra. E oxalá estimem, como é justo, a caridade cristã e a virtude dos missionários estrangeiros e dos sacerdotes indígenas, que com os seus trabalhos e com o risco da própria vida pretendem apenas o verdadeiro bem do povo.

28. Damos a Deus imensas graças por haver em ambas as nações um clero nativo escolhido e já numeroso, esperança da Igreja, e por bastantes dioceses estarem já entregues a bispos do país. É glória dos missionários estrangeiros ter-se podido chegar a este resultado.

29. Mas, a esse propósito, julgamos útil notar um ponto, que nos parece não dever esquecer-se quando se entregam a bispos e sacerdotes naturais missões antes confiadas a clero de fora. O instituto religioso, cujos membros cultivaram com seus suores esse campo do Senhor, quando, por decreto do Conselho supremo da Propagação da Fé, entrega a outros obreiros a vinha já carregada de abundantes frutos, não deve por isso abandoná-lo completamente; mas fará coisa muito útil se continuar a ajudar o novo bispo, escolhido na própria nação. Como na maior parte das dioceses do mundo há religiosos que ajudam o Ordinário, assim também nas regiões de missões, ainda que esses religiosos sejam originários de outros países, não deixarão de combater o santo combate como tropas auxiliares e assim se realizará perfeitamente o que disse o divino Mestre junto do poço de Sicar: "O ceifeiro recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna, para que o semeador se alegre juntamente com quem colhe" (Jo 4, 36).

 

7. A Ação Católica nas missões

30. Desejamos, além disso, com essa encíclica não só exortar os missionários, mas também esses leigos que "de coração grande e ânimo pronto" (2 Mc 1, 3) militam nos esquadrões da Ação católica e prestam auxílio aos missionários.

31. Pode-se afirmar que este auxílio dos leigos, que chamamos hoje Ação católica, não faltou desde as origens da Igreja; e mais, que prestou notáveis serviços aos apóstolos e outros propagadores do evangelho e permitiu à religião cristã apreciáveis aumentos. Por isso o apóstolo das gentes menciona Apolo, Lídia, Áquila, Priscila e Filemon e acrescenta, dirigindo-se aos Filipenses: "Peço-te também a ti, generoso colaborador, que ajudes essas que lutaram pelo evangelho, comigo e com Clemente e com os restantes colaboradores meus, cujos nomes estão no livro da vida" (Fl 4, 3).

32. Do mesmo modo, é sabido de todos que a doutrina cristã não foi só propagada por bispos e sacerdotes, mas também por funcionários, soldados e simples particulares pelas estradas consulares. Numerosos milhares de fiéis cristãos, cujos nomes não conhecemos hoje, pouco depois de receberem a fé católica, ardendo no desejo de propagar a nova religião, esforçaram-se por abrir o caminho à verdade evangélica; assim se explica que, ao cabo de uns cem anos, já o nome e a virtude cristãs tinham chegado a todas as principais cidades do império romano.

33. S. Justino, Minúcio Félix, Aristides, o cônsul Acílio Glaber, o patrício Flávio Clemente, s. Tarcísio e outros inumeráveis santos e santas mártires, por terem robustecido e fecundado o desenvolvimento da Igreja com os seus trabalhos e o seu sangue, podem se chamar de alguma sorte vanguardistas e precursores da Ação católica. Vem aqui a propósito citar a belíssima frase do autor da epístola a Diogneto, que ainda hoje parece cheia de atualidade: "Os cristãos... habitam as próprias pátrias mas como de passagem..., toda região estrangeira é pátria para eles, e toda pátria lugar de peregrinação". (13)

34. Sucedendo-se na Idade Média as invasões bárbaras, vemos homens e senhoras nobres e até humildes operários e incansáveis mulheres do povo esforçarem-se sem descanso por ganhar profundamente os seus compatriotas para a religião de Jesus Cristo, por lhes ajustar os costumes, e por, diante do perigo, porem a salvo a religião e o Estado. Junto ao nosso imortal predecessor Leão Magno, que resistiu fortemente a Átila, invasor da Itália, estavam, segundo a tradição, dois consulares romanos. Quando as terríveis hordas dos hunos cercavam Paris, a santa virgem Genoveva, que se deliciava na oração ininterrupta e na penitência rigorosa, com admirável caridade valeu quanto pôde às almas e também aos corpos dos seus concidadãos. Teodolinda, rainha dos lombardos, levou seu povo a abraçar a religião cristã. Na Espanha, o rei Recaredo esforçou-se por reconduzir os súditos da heresia ariana à verdadeira fé. Na França, não só aparecem bispos - como Remígio de Reims, Cesário de Arles, Gregório de Zburs, Eígio de Beauvais e outros muitos que se notabilizaram pela virtude e zelo, mas também rainhas que ensinaram aos ignorantes a verdade cristã, que deram de comer, aliviaram ou reanimaram doentes, famintos e toda a espécie de necessitados: assim, por exemplo, Clotilde tanto aproximou o espírito de Clóvis da religião católica que o levou, afinal, à purificação do batismo; Radegunda e Batilda ocuparam-se dos doentes com a maior caridade e curaram até leprosos. Na Inglaterra, a rainha Berta recebeu o apóstolo daquela nação, s. Agostinho, e persuadiu o marido Edelberto a aceitar de boa vontade os preceitos evangélicos. E quando os Anglo-Saxões, nobres e ínfimos plebeus, homens e mulheres, velhos e novos, receberam a fé cristã, logo, levados pelo certo instinto do amor divino, se ligaram a esta Sé Apostólica com laços apertadíssimos de amor filial, de fidelidade e de respeito.

35. É maravilhoso, também, o espetáculo que apresenta a Alemanha, quando fecundada pelas excursões apostólicas e pelo suor generoso de S. Bonifácio e seus companheiros. Os filhos e filhas desse povo forte e generoso, num grande movimento espiritual, puseram à disposição dos monges, dos sacerdotes e dos bispos uma cooperação zelosa e ativa, para que brilhasse cada vez mais naquelas regiões vastíssimas a luz da verdade evangélica e para que os mandamentos e a virtude cristã mais e mais avançassem, produzindo frutos de salvação.

36. Em tempo nenhum, portanto, deixou a Igreja católica de realizar novos progressos e de levar os povos a maior prosperidade social, e isto, não só pelo incansável trabalho do clero, mas também pela cooperação pedida aos leigos. Assim, todos conhecem a atividade da rainha s. Isabel na Hungria, do rei s. Fernando em Castela e de s. Luís IX em França; com santidade de vida e ação perseverante, comunicaram força renovadora às várias classes da sociedade, fundando instituições benéficas, fazendo chegar a verdadeira religião a toda parte, defendendo valorosamente a Igreja e sobretudo indo a frente de todos pelo exemplo. São conhecidos também os ótimos serviços prestados pelas beneméritas confrarias de leigos na Idade Média; nelas se reuniam os artífices e operários de ambos os sexos, que, embora vivendo no século, não deixavam por isso de ter diante dos olhos um ideal de perfeição evangélica, que procuravam pessoalmente atingir e para o qual se esforçavam, em união com o clero, por orientar a todos os demais.

37. Ora, as condições, que se realizavam nos primeiros tempos da Igreja, reproduzem-se hoje na maioria das regiões missionadas; ou, pelo menos, os problemas que as afligem agora são os mesmos a que noutro tempo e lugar foi preciso encontrar solução. Por isso, é absolutamente necessário que os leigos das missões associem ao apostolado hierárquico do clero a sua atividade incansável, formada nas hostes cerradas da Ação católica. O trabalho dos catequistas é necessário, sem dúvida; mas não menos necessária é a atividade vigilante de outros que, sem pretenderem qualquer paga, mas levados só pelo amor de Deus, se põem à disposição dos missionários, ajudando-os no seu trabalho.

38. Desejamos, portanto, que em toda parte, na medida do possível, se constituam associações católicas de homens e mulheres, de estudantes, de operários, de artífices e de desportistas, e além disso outras organizações e piedosos agrupamentos, que se possam chamar tropas auxiliares dos missionários. Mas, ao fundá-las e ao dar-lhes vida, tenha-se mais conta da honestidade, da virtude e do ardor que do número dos sócios.

39. Deve-se notar também que não há melhor meio para conciliar aos missionários a confiança dos pais e mães de família do que lhes tomar cuidado solícito dos filhos. Estes, orientando o espírito pela verdade cristã e pautando os costumes pela norma da virtude, concorrerão não só para a honra da própria família, mas também para o vigor e brilho de toda a sociedade; e terão freqüentemente o bom papel de restituir o vigor antigo à vida da comunidade cristã, acaso debilitada.

40. Apesar de a Ação católica, como é sabido, dever exercitar principalmente sua atividade em promover obras de apostolado, nada impede os que foram recebidos nos seus quadros de fazerem também parte de associações cujo fim é ajustar a vida social e política aos princípios do evangelho; mais ainda: não só como cidadãos, mas também como católicos, gozam do direito de o fazer; e têm até esse dever.

 

8. A escola e a imprensa

41. E como a juventude, sobretudo a que se dá às letras e aos estudos superiores, há de fornecer os mentores do futuro, ninguém deixará de reconhecer quanto importa que haja particular cuidado das escolas primárias, secundárias e universitárias. Com ânimo paternal exortamos, portanto, os superiores das missões a que as desenvolvam com todo o empenho, quanto for possível, sem se pouparem a trabalhos nem a despesas.

42. De fato, esses centros educativos têm principalmente a utilidade de fomentar relações frutuosas entre os missionários e os pagãos de todas as classes, e de facilitar principalmente à juventude, moldável como a cera, a compreensão, estima e aceitação da doutrina católica. Essa mocidade instruída há de chegar, como todos sabem, a dirigir o Estado; e a massa do povo segui-la-á como a chefes e mestres. O apóstolo das gentes manifestou também, diante da assembléia dos sábios, a altíssima sabedoria do evangelho, quando anunciou o Deus desconhecido no Areópago de Atenas. Se, porém, como resultado deste apostolado do ensino, não vierem a ser muitos os que se convertam completamente, mais numerosos hão de ser aqueles que se sintam invadidos de suave atrativo para a beleza sublime da nossa religião e para a caridade dos seus adeptos.

43. São, além disso, as escolas e colégios instituições utilíssimas para se refutarem os erros de toda sorte, que hoje grassam cada vez mais e, às claras ou solapadamente, se insinuam de modo especial nas almas juvenis, devido à ação dos acatólicos e dos comunistas.

44. Nem é menos útil editar e divulgar escritos sobre problemas atuais. Julgamos que não vale a pena determo-nos neste ponto; entra pelos olhos de todos a importância dos jornais, revistas e livros seja para apresentarem na devida luz a verdade e a virtude e para a inculcarem às almas, seja para descobrirem os enganos propostos sob aparência de verdade, seja ainda para refutarem as falsidades que ora atacam a religião, ora deformam com grande prejuízo das almas questões sociais candentes. Por isso, louvamos muito os pastores que têm a peito divulgar o mais possível tais publicações bem orientadas. Não é pouco o já realizado neste campo, mas muito mais está ainda por fazer.

 

9. Assistência sanitária

45. Apraz-nos agora recomendar, com a maior instância, obras e iniciativas que valem a doenças e tribulações de toda espécie; referimo-nos aos hospitais, aos leprosários, aos postos de distribuição de remédios, aos asilos de velhos, às maternidades, aos orfanatos e aos refúgios para necessitados. Estas obras, que nos parecem as mais belas flores do jardim cultivado pelos semeadores da palavra evangélica, apresentam-nos, por assim dizer, nova visão do divino Redentor, que "passou fazendo o bem e sarando a todos" (At 10, 38).

46. Sem dúvida essas maravilhas de caridade preparam com a maior eficácia os espíritos pagãos e levam-nos a abraçar a religião cristã; e são também o seguimento da ordem de Jesus dada aos apóstolos: "Em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, curai os doentes que nela houver, e dizei-lhes: 'aproximou-se de vós o reino de Deus'" (Lc 10, 8-9).

47. Mas é preciso que os religiosos e religiosas chamados para este frutuoso trabalho, adquiram, antes de partir, a preparação intelectual e moral hoje requeridas. Sabemos que não faltam religiosas, possuidoras de diplomas oficiais, que estudaram doenças horríveis como a lepra e lhes encontraram remédios apropriados. Merecem bem justos louvores. A elas, como a todos os missionários que trabalham dedicadamente nos leprosários, abençoamos nós com amor paternal, admirando caridade tão heróica.

48. Quanto à medicina e à cirurgia, será muito conveniente solicitar o auxílio de leigos diplomados, que aceitem de boa vontade abandonar a própria pátria a fim de se porem à disposição dos missionários. Mas é necessário que se recomendem pela sã doutrina e pela virtude.

 

10. Assistência social

49. Passamos agora a outro ponto que não é de menor importância ou gravidade; queremos aludir à questão social, que se deve resolver segundo a justiça e a caridade. Enquanto as máximas dos comunistas, que hoje correm por toda parte, enganam facilmente as inteligências simples e incultas, parecem ressoar outra vez aos nossos ouvidos as palavras de Jesus Cristo: "Compadeço-me da multidão" (Mc 8,2). É absolutamente necessário que os princípios justos, ensinados pela Igreja nesta matéria, sejam seriamente aplicados. É absolutamente necessário preservar todos os povos desses erros perniciosos; ou, se já estão imbuídos deles, libertá-los de tais doutrinas funestas que propõem o gozo deste mundo como fim único e necessário desta vida mortal; doutrinas essas que entregam todas as coisas ao poder e arbítrio do Estado, para que as possua e administre diminuindo a dignidade da pessoa humana a ponto de a aniquilar quase totalmente. É absolutamente necessário ensinar a todos, em particular e em público, que tendemos como exilados para uma pátria imortal; e que estamos destinados para uma vida e felicidade eternas, a que havemos de ser levados pela verdade e pela virtude. Só Cristo é o defensor da justiça e o consolador terníssimo da dor humana, inevitável nesta vida; só ele nos mostra o porto da paz, da justiça e do gozo eterno, ao qual todos os que fomos remidos pelo sangue divino devemos chegar, ao fim do caminho desta vida na terra.

50. Mas, por outro lado, é dever também de todos mitigar, suavizar e aligeirar, quanto possível, as angústias, misérias e dores desta vida que afligem os nossos irmãos.

 

51. A caridade, é certo que pode remediar parcialmente muitas injustiças sociais, mas não basta. É preciso, antes de mais, que a justiça vigore, reine, e se aplique.

52. A este propósito convém citar o que dissemos no ano de 1942, pelo Natal, dirigindo-nos ao sacro colégio e aos prelados: "A Igreja, assim como condenou os vários sistemas do socialismo marxista, assim os volta a condenar ainda, como é seu dever e como o pede a eterna salvação dos homens, posta em grave perigo por esses raciocínios falazes e maquinações insidiosas. Mas a Igreja não pode ignorar ou deixar de reconhecer que os operários, ao procurarem melhorar a sua condição, encontram-se de frente muitas vezes a alguma coisa que longe de ser conforme à natureza, contrasta com a ordem de Deus e com o objetivo que ele assinalou aos bens terrenos. Por mais falsos, condenáveis e perigosos que tenham sido e sejam os caminhos seguidos nas reivindicações, quem, sobretudo se é sacerdote ou cristão, poderá fechar os ouvidos ao grito que se levanta do fundo da alma e clama justiça e espírito de fraternidade no mundo de um Deus justo? Não o notar ou nada dizer seria pecado diante de Deus e seria, além disso, contrário ao sentir do apóstolo, que, se recomenda decisão contra o erro, ensina também que devemos atender com a maior benignidade os que erram, examinar-lhes as razões, alimentar-lhes as esperanças e satisfazer os anseios... A dignidade da pessoa humana exige pois, ordinariamente, como fundamento natural para viver, o direito ao uso dos bens da terra; a tal direito corresponde a obrigação fundamental de facultar uma propriedade privada, possivelmente a todos. As normas jurídicas positivas reguladoras da propriedade privada podem mudar e conceder uso mais ou menos circunscrito dos bens; mas, se querem contribuir para a pacificação da comunidade, deverão obstar a que o operário, que é ou será pai de família, seja condenado a uma dependência ou escravidão econômica, inconciliáveis com os seus direitos de pessoa. Quer essa servidão derive da prepotência do capital privado, quer venha do poder do Estado, o efeito não muda; antes, pelo contrário, sob a pressão de um Estado que tudo domina, e regula por completo a vida pública e privada, penetrando até no campo do pensamento e da consciência, semelhante falta de liberdade pode ter conseqüências ainda mais funestas, como a experiência o manifesta e testemunha".(14)

53. A vós, veneráveis irmãos, que exerceis vossa esclarecida atividade nos territórios das missões católicas, a vós compete procurar diligentemente que esses princípios e normas sejam aplicados. Considerando as condições peculiares do lugar, e trocando mutuamente impressões nas assembléias de bispos, nos sínodos e noutras reuniões, esforçai-vos o mais possível por fundar a tempo agrupamentos, associações e instituições econômicas e sociais requeridas pela época e pela índole do vosso povo. É sem dúvida um dever pastoral, para que vosso rebanho não venha a ser impelido para fora do caminho reto, iludido por novos erros que se apresentam com o engodo de justiça e de verdade. Procurem ir à frente de todos, nesta causa construtiva, os propagadores do evangelho, que trabalham ativamente ao vosso lado, e conseguirão deste modo a certeza de que não foi dito deles que "os filhos deste século são mais prudentes que os filhos da luz" (Lc 16,8). Será porém conveniente recrutarem quanto possível leigos católicos bem preparados, honestos e hábeis, que tomem à sua conta lançar e desenvolver tais iniciativas.

 

11. Contra o exclusivismo territorial e jurisdicional

54. Em tempos antigos, nem o grandíssimo campo do apostolado missionário se dividia em circunscrições eclesiásticas definidas, nem estava confiado aos cuidados simultâneos de ordens ou congregações religiosas e do clero indígena em aumento. Todos, porém, sabem que é precisamente isto o que hoje acontece, de lei geral; e dá-se também às vezes o caso de algumas regiões estarem confiadas a religiosos de província particular dum instituto. Reconhecemos de bom grado a vantagem deste estado de coisas, pois facilita a organização das missões. Mas também pode originar seríssimos inconvenientes, a que é preciso prover quanto possível. Já os nossos predecessores trataram este assunto em cartas especiais (15) e assentaram normas prudentes. Apraz-nos hoje renová-las e confirmá-las, exortando-vos paternalmente, "pelo exemplar zelo da religião e da salvação das almas que vos anima, a que as recebais com docilidade e obediência pronta. Os territórios confiados pela Sé Apostólica ao vosso diligente cuidado, para os ganhardes para Cristo Senhor nosso, são ordinariamente de grande extensão. Pode portanto o número dos missionários, pertencentes ao vosso próprio instituto, ser muito inferior às necessidades. Em tal caso não deixeis de imitar o exemplo das dioceses já organizadas. Como nessas se vêem os bispos ajudados por religiosos de várias famílias, clérigos ou leigos, e também por religiosas diversas, do mesmo modo vós não deveis hesitar em convidar e receber para a tarefa comum missionários que não sejam do vosso instituto, que vos ajudarão a propagar a fé, a educar a juventude indígena, e em outras empresas semelhantes. É justo que as ordens e congregações religiosas se prezem das missões que têm entre pagãos e das conquistas já obtidas para o reino de Cristo; mas não se esqueçam também que os territórios das missões não lhes pertencem em virtude de qualquer direito exclusivo e perpétuo, mas que os possuem ao arbítrio da Santa Sé. Esta conserva o direito e o dever de velar para que sejam devida e plenamente cultivados. Nem, por conseguinte, cumpriria o pontífice romano o seu dever apostólico, se se limitasse apenas a distribuir territórios de maior ou menor extensão a este ou aquele instituto; mas - o que mais importa - deve sempre e com toda a diligência procurar que esses institutos enviem às regiões que receberam missionários tais em número e sobretudo em qualidade, que possam bastar para um trabalho eficaz de completa evangelização da verdade".(16)

 

12. Respeito a tudo o que há de bom na civilização e nos costumes dos diferentes povos

55. Falta-nos ainda tocar um ponto, que muito desejamos fique bem claro para todos. A Igreja, desde a origem até hoje, sempre seguiu a norma prudentíssima de não permitir que o evangelho destrua, nos vários povos que o recebem, qualquer parcela da bondade e beleza que enriquece a índole e o gênio de cada um. A Igreja, quando civiliza os povos sob inspiração da religião cristã, não procede como quem corta, lança por terra e extermina uma floresta luxuriante, mas sim, como quem enxerta árvores bravas com qualidades escolhidas, para que elas venham a dar frutos mais saborosos e sazonados.

56. A natureza humana, apesar de contaminada hereditariamente pelo pecado de Adão, conserva todavia em si alguma coisa naturalmente cristã, (17) a qual, sendo iluminada pela divina luz e alimentada pela graça, se elevará à categoria de virtude perfeita e de vida sobrenatural.

57. Por isso, a Igreja católica não desprezou nem lançou fora as doutrinas dos pagãos, mas, pelo contrário, purificou-as de todo erro e impureza, desenvolveu-as, e aperfeiçoou-as com a sabedoria cristã. Assim fez também com as artes e a cultura, que a tão alto grau tinham chegado entre alguns povos: recebeu-as acolhedora, desenvolveu-as com afã e elevou-as a um apogeu talvez nunca atingido. Os costumes particulares dos povos, não os reprimiu violentamente nem as suas instituições tradicionais, mas tudo santificou; e até, embora transformando o espírito e o conteúdo dos dias festivos, soube aplicá-los à celebração das memórias dos mártires e dos sagrados mistérios. A esse respeito, escreve com muita razão s. Basílio: "Como... os tintureiros primeiro preparam o pano e depois o impregnam da cor de púrpura ou qualquer outra, assim nós, para conservarmos fixa e para sempre inapagável a glória da virtude, devemos preparar-nos com os estudos profanos para, depois, chegarmos a possuir a ciência sagrada e revelada: uma vez habituados a suportar o sol refletido na água, atrever-nos-emos a fitar a própria luz... Se é verdade que a vida própria da árvore consiste em produzir fruto abundante a seus tempos, não deixam as folhas de lhe dar beleza e movimento; assim também o fruto primário da alma é a verdade em si mesma, mas não lhe fica mal um revestimento de sabedoria humana, como folhas a darem sombra e realce ao fruto. Por isso se diz que o celebérrimo Moisés, considerado o maior sábio de todos os homens, cultivou primeiro o espírito nas ciências dos egípcios, e só depois chegou à contemplação daquele que é. Coisa semelhante se refere de Daniel: aprendeu primeiro em Babilônia a ciência dos caldeus, antes de penetrar as doutrinas sagradas".(18)

58. E nós mesmos, na nossa primeira encíclica Summi pontificatus, escrevemos: "Inumeráveis pesquisas e indagações dos pregoeiros da palavra divina, levadas a cabo através dos tempos com sacrifício, dedicação e amor, propuseram-se fazer compreender mais completa e dignamente as civilizações dos vários povos e desenvolver nestes os dotes e valores espirituais para assim tornarem entre eles mais fecunda, assimilável e vital a pregação do evangelho de Cristo. Tudo quanto em tais usos e costumes não está indissoluvelmente ligado a erros religiosos encontrará sempre benévolo exame e será até, quanto possível, protegido e desenvolvido".(19)

59. No discurso que fizemos no ano de 1944 aos diretores das Pontifícias Obras Missionárias, dissemos entre outras coisas: "O apóstolo é mensageiro do evangelho e pregoeiro de Jesus Cristo. Não tem o encargo de transplantar a civilização especificamente européia para as terras de missões. Mas deve preparar esses povos, que se orgulham às vezes de civilizações milenárias, para acolherem e assimilarem os elementos de vida e de moral cristã, que fácil e naturalmente se adaptam a toda a verdadeira cultura profana e lhe conferem a plena capacidade e força de assegurar e garantir a dignidade e felicidade humanas. Os católicos indígenas embora sejam em primeiro lugar membros da família de Deus e cidadãos do seu reino (Ef 2,19), não deixam contudo de ser também cidadãos da própria pátria terrena".(20)

 

13. Exposições missionárias dos anos santos de 1925 e 1950

60. O nosso predecessor de feliz memória Pio XI, no ano jubilar de 1925, mandou organizar uma grandiosa exposição missionária, cujo resultado felicíssimo assim descreveu: "Parece obra suscitada por Deus, para termos novo testemunho e quase experiência da viva união da sua Igreja, que abraça na unidade a terra inteira... Realmente a exposição mostrou-se e ainda se mostra como um grande, imenso livro".(21)

61. Nós, levados do mesmo propósito, para tornarmos o mais possível conhecidos os méritos insignes das missões, sobretudo no campo da alta cultura, mandamos durante o ano santo passado juntar número abundante de documentos e expô-los, como sabeis, perto do palácio Vaticano. Assim puderam muitos contemplar abundantes provas da renovação cristã das belas artes, promovida pelos missionários, quer entre povos civilizados quer entre outros menos desenvolvidos.

62. Teve a vantagem de deixar bem claro quanto contribuiu o trabalho dos pregoeiros do evangelho para o progresso das artes liberais e dos estudos universitários; mostrou também que a Igreja não contraria o gênio próprio de cada povo, mas, pelo contrário, o leva à perfeição mais alta.

63. Agradecemos a Deus terem todos recebido com interesse e favor essa realização, manifestadora do revigoramento e expansão da obra missionária. Pois o espírito do evangelho, graças ao zelo dos seus propagadores, conseguiu penetrar o espírito de povos pagãos muito distantes e variados, a ponto de estes apresentarem já claras provas de renascimento artístico. O que mostra de novo que só a fé cristã, arraigada na alma e manifestada na vida, é capaz de elevar as inteligências até realizarem essas obras requintadas, louvor imorredouro da Igreja católica e adorno esplêndido do culto.

 

14. A União missionária do clero e as Obras Pontifícias de cooperação missionária

64. Bem vos recordais de que na encíclica Rerum Ecclesiae se recomenda instantemente a União missionária do clero, cujo fim é arregimentar membros de ambos os cleros e os seminaristas para, em ativa união, propagarem a causa das missões católicas. Nós que, segundo dissemos, seguimos com grande alegria os notáveis progressos desta União, desejamos com ardor que ela se desenvolva mais ainda e estimule sempre, tanto nos sacerdotes como no povo a eles entregue, o zelo pelas obras missionárias. Essa União é, de certo modo, a fonte que rega, como campos floridos, as obras pontifícias da Propagação da Fé, de São Pedro apóstolo para o clero indígena e da Santa Infância. Não há razão para nos demorarmos a salientar o valor, necessidade e notáveis serviços de tais obras, que nossos predecessores enriqueceram com tesouros de numerosas indulgências. Muito nos agrada que se recolham esmolas dos fiéis, sobretudo no dia das missões; mas desejamos mais ainda que todos orem a Deus onipotente, fomentem e auxiliem as vocações missionárias e desenvolvam as obras pontifícias referidas, principalmente alistando-se nelas. Não ignorais, é claro, veneráveis irmãos, que foi instituída há pouco por nós uma festa especial de crianças para auxiliar com orações e esmolas a Obra da Santa Infância. Oxalá se habituem assim os nossos filhinhos a rezar instantemente a Deus pela salvação dos infiéis; e oxalá nas suas almas, ainda inocentes, cresçam os germes da vocação missionária.

65. Merecem também louvores tantas e tão bonitas iniciativas que com a mesma finalidade e zelo tão intenso promovem os institutos religiosos para sustentar de toda forma as Pontifícias Obras Missionárias; e queremos mostrar também nossa gratidão às associações de senhoras que se dedicam a confeccionar paramentos litúrgicos e roupa de altar. Finalmente queremos assegurar a todos os nossos muito amados ministros da Igreja que o zelo do povo cristão em promover a salvação dos infiéis produz esplêndido reflorescimento de fé e que ao aumento do zelo missionário corresponderá sempre igual aumento de piedade.

 

15. Apelo ao mundo católico

66. Não queremos por fim terminar esta encíclica sem manifestarmos ao clero e aos fiéis nosso vivo interesse, e mais ainda nosso agradecimento profundo. Pois sabemos que ainda este ano aumentou notavelmente o auxílio prestado pelos nossos filhos às missões. E é bem verdade que vossa caridade não pode aplicar-se melhor do que no alargamento do reino de Cristo e em levar a salvação a tantas almas sem fé; porque o Senhor "deu ordens a cada um sobre o seu próximo" (Eclo 17,12).

67. A esse propósito, apraz-nos insistir agora com novo empenho no que escrevemos a 9 de Agosto de 1950 na carta dirigida ao nosso amado filho, cardeal presbítero da santa Igreja romana, Pedro Fumasoni Biondi, prefeito da Sagrada Congregação "De Propaganda Fide": "Perseverem todos os féis no propósito de fomentar as missões, multipliquem os meios de as ajudar, elevem sem cessar preces a Deus e ajudem os chamados para o trabalho missionário dando-lhes, quanto puderem, os auxílios necessários.

68. A Igreja é o corpo místico de Cristo, no qual, "se um membro sofre, todos os membros sofrem também" (1 Cor 12, 26). Por isso, sofrendo hoje vários desses membros dores cruéis e encontrando-se até cobertos de feridas, todos os fiéis têm o dever sagrado de se unir com eles em comunhão de forças e de espírito. Em algumas missões, a violência bélica aniquilou horrivelmente Igrejas, escolas e hospitais. Para reparar esses prejuízos e reedificar tantos edifícios, todo o orbe católico na sua dedicação ardente pelas missões dará generosamente o necessário".(22)

69. Conheceis muito bem, veneráveis irmãos, que o gênero humano quase todo tende hoje rapidamente a separar-se em dois opostos campos de batalha, por Cristo ou contra Cristo. Vê-se agora num momento decisivo, de que há de sair ou a salvação de Cristo ou tremenda ruína. A veemente atividade e zelo dos pregoeiros do evangelho procura, é certo, dilatar o reino de Cristo; mas há outros pregoeiros que, reduzindo tudo à materialidade e rejeitando toda a esperança de eternidade feliz, procuram reduzir os homens à condição indigníssima.

70. Mais um motivo para a Igreja católica, mãe extremosa de todos os homens, convocar os seus filhos sem exceção para ajudarem quanto puderem os semeadores da verdade evangélica com esmolas, orações e interesse pelas vocações missionárias. Como mãe, insiste ainda para que revistam entranhas de misericórdia (cf. Cl 3,12), participem no trabalho apostólico - se não de fato ao menos de coração - e, numa palavra, não consintam que fique inútil o desejo do benigníssimo coração de Jesus que "veio... procurar e salvar o que perecera" (Lc 19,10). Se ajudarem a iluminar com a luz suave da fé cristã ao menos um lar, saibam que contribuem para a efusão de graça que há de prosseguir sempre sem limites; se ajudarem a formar ao menos um padre, terão parte abundantíssima no fruto de imensas missas e nos méritos do trabalho e da santificação própria dele. De fato, todos os fiéis formam uma só e grandíssima família, cujos membros comunicam entre si as riquezas da Igreja militante, padecente e triunfante. Meio incomparável parece, portanto, o dogma da comunhão dos santos para inculcar ao povo cristão a utilidade e importância das missões.

 

CONCLUSÃO

71. Depois de exprimirmos esses votos paternais e de proclamarmos essas normas, esperamos que todos os católicos tomem o 25° aniversário da encíclica Rerum Ecclesiae como incitamento para fazerem mais e melhor pelas missões.

72. Entretanto, confiados nesta doce esperança, a cada um de vós, veneráveis irmãos, ao clero e a todo o povo, especialmente àqueles que promovem esta santíssima causa - ou na pátria com orações e esmolas, ou em países estrangeiros com o trabalho direto - concedemos a bênção apostólica, penhor dos dons celestes e testemunho do nosso paternal amor.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 2 de junho, na festa de santo Eugênio I, no ano de 1951, XIII do nosso pontificado.

 

PIO PP. XII

 

Notas

(1) AAS 18(1926), p. 65s.

(2) AAS 36(1944), p. 209.

(3) AAS 36(1944), p. 267.

(4) Epist. Praeses Consilii, AAS 43(951), pp. 88-89.

(5) S. Cipriano, Epist. 56, PL 4, 351A.

(6) Epist. Perlibenti equidem; AAS 42(1950), p. 727.

(7) AAS 11 (1919), p. 440s.

(8) AAS 18 (1926), p. 65s.

(9) AAS 36 (1944), p. 210.

(10) Ibidem, p. 208.

(11) AAS 18(1926), p. 76. 26.

(12) Ibidem, p. 75.

(13) Epist. ad Diognetum, V,5; ed. Funk I, 399.

(14) AAS 35(1943), p 16-17.

(16) AAS 18(1926), pp. 81-82.

(17) Cf. Tertuliano., Apologet., c. XVII; PL 1, 377A.

(18) S. Basílio, Ad Adolescentes 2; PG 31, 567A.

(19) AAS 31(1939), p. 429.

(20) AAS 36(1944), p. 210.

(21) Alocução de 10 de Janeiro de 1926.

(22) AAS 42(1950), p. 727-728.

 

 

 

 

Wednesday, 22 April 2026

Wednesday's Good Reading: “Sempiternus Rex Christus” by Pope Pius XII (translated into Portuguese).

 

Carta Encíclica “Sempiternus Rex Christus” do Sumo Pontífice Papa Pio XII aos Veneráveis Irmãos, Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e demais ordinários locais em paz e comunhão com a Sé Apostólica sobre o XV Centenário do Concílio Ecumênico de Calcedônia

 

INTRODUÇÃO

1. Cristo, Rei sempiterno, antes de prometer a Pedro, filho de João, o governo da Igreja, perguntou aos discípulos que opinião tinham de sua pessoa os homens e os próprios apóstolos. A seguir, em palavras de singular louvor, exaltou a fé com que Pedro, por inspiração do Pai celeste, proclamara: "Tu és Cristo, Filho de Deus vivo" (Mt 16, 16) – fé que haveria de vencer todas as perseguições e todas as tempestades do inferno. Essa fé, que prepara as coroas dos apóstolos, as palmas dos mártires e os lírios das virgens, e que é virtude de Deus para salvação de todos os que crêem (cf. Rm 1, 16), foi vigorosamente defendida e esplendidamente exposta, principalmente em três concílios ecumênicos: o de Nicéia, o de Éfeso e o de Calcedônia. Da celebração deste último cumprem-se este ano 15 séculos. Convém, pois, que em Roma e em todo o orbe católico se comemore solenemente este 15° centenário, como – ao elevarmos a Deus, inspirador de salutares conselhos, as devidas ações de graças – ordenamos que se faça.

2. E como nosso predecessor, de feliz recordação, Pio XI quis que se comemorasse solenemente em Roma, no ano de 1925, o concílio de Nicéia e no ano de 1931 rememorou na encíclica Lux veritatis a celebração do concílio de Éfeso, também nós pela presente encíclica desejamos recordar, com igual empenho, o concílio de Calcedônia. Os dois concílios de Éfeso e Calcedônia, como tratam ambos da união hipostática do Verbo encarnado, têm entre si íntima e profunda ligação, e desde a antigüidade foram tidos sempre em suma veneração tanto no Oriente, que os recorda na própria liturgia, como no Ocidente, segundo o testemunho de s. Gregório Magno. Este santo exalta-os a ambos e coloca-os no mesmo plano que os de Nicéia e Constantinopla, celebrados no século anterior, proferindo esta memorável sentença: "Neles como em pedra quadrangular se assenta o edifício da fé, e quem não se radicar na sua solidez, seja qual for a vida e feitos que tiver, poderá talvez aparentar a firmeza da pedra, mas estará fora do edifício". (1)

3. Considerando atentamente o grande concílio de Calcedônia, em si mesmo e nas suas circunstâncias, descobrem-se dois pontos principais que queremos fazer ressaltar quanto possível: o primado do romano pontífice, que brilhou manifestamente na agitada controvérsia cristológica, e o grandíssimo alcance da definição dogmática de Calcedônia. Aqueles que pela iniqüidade dos tempos, principalmente nas regiões do Oriente, estão separados do seio e da unidade da Igreja, não hesitem por mais tempo em reconhecer reverentes a supremacia do romano pontífice – seguirão nisso o exemplo e os ensinamentos dos seus grandes antepassados. Procurem os que ainda seguem os erros dos nestorianos ou dos eutiquianos perscrutar com vistas mais desanuviadas o mistério de Jesus Cristo e recebam na sua integridade a definição do concílio de Calcedônia. Essa mesma definição, estudem-na com mais verdade e penetração maior os que, levados por exagerada preocupação de modernidade, ousam, ao investigar o mistério da Redenção, atentar em certo modo contra a estabilidade de balizas legítima e definitivamente assentes. Finalmente, todos aqueles que se gloriam do nome de católicos tomem daqui novo e forte incitamento para, de palavra e de coração, professarem, defendendo-a de qualquer mácula, a verdadeira fé – pérola preciosíssima da qual fala o evangelho. E acrescentem ainda – o que mais importa – o testemunho da própria vida, da qual, por misericórdia de Deus, afastem tudo o que seja pecaminoso, indigno ou reprovável, e na qual façam brilhar o fulgor de todas as virtudes. Serão assim verdadeiramente consortes da divindade daquele que se dignou fazer-se partícipe da nossa humanidade.

 

I. PRIMEIRAS VICISSITUDES DA HERESIA DE ÊUTIQUES

4. Para proceder com ordem, tomemos do princípio a exposição dos acontecimentos que se comemoram. O iniciador da controvérsia agitada no concílio de Calcedônia foi Êutiques, sacerdote e arquimandrita de um dos mais insignes mosteiros de Constantinopla. Querendo impugnar vigorosamente a heresia de Nestório, que afirmava haver duas pessoas em Cristo, caiu no erro oposto.

5. "Muito imprudente e assaz pouco instruído", (2) temperamento sobremaneira obstinado, afirmava Êutiques que se deviam distinguir dois momentos: antes da encarnação eram duas as naturezas de Cristo: a humana e a divina; mas depois da "união" existe uma só, sendo o homem absorvido pelo Verbo. De Maria virgem nasceu o corpo do Senhor, o qual não é da mesma substância e matéria que o nosso; apesar de ser humano, não é consubstancial a nós nem àquela que o deu à luz segundo a carne; (3) por conseguinte, não foi numa verdadeira natureza humana que Jesus Cristo nasceu, padeceu, foi crucificado e ressurgiu do sepulcro.

6. Não advertiu Êutiques que antes da união de modo algum existiu a natureza humana de Cristo, pois esta começou a existir no instante da sua concepção; depois da união, é absurdo sustentar que das duas naturezas se fez apenas uma, pois de modo nenhum duas naturezas verdadeiras e concretas se podem reduzir a uma só, tanto mais que a natureza divina é infinita e imutável.

7. Quem examinar, segundo as normas da sã razão, tais opiniões verá logo que todo o mistério da economia divina se dissolve assim em sombras vãs e inconsistentes.

8. Aos homens doutos de então, tal doutrina pareceu manifestamente inovadora, absurda, de todo em todo contrária aos oráculos dos profetas, aos textos do evangelho, ao símbolo dos apóstolos e ao dogma de fé definido em Nicéia, doutrina, enfim, buscada nos subterrâneos de Valentino e Apolinário.

9. Acusado de heresia por Eusébio, bispo de Doriléia, Êutiques, que já andava com pertinácia disseminando os seus erros por vários mosteiros, foi condenado no sínodo particular reunido em Constantinopla, sob a presidência de são Flaviano, Bispo dessa cidade. Ele, porém, proclamando injusta a condenação de quem só fazia reprimir a renascente heresia de Nestório, apelou para a sentença de alguns bispos de reconhecida autoridade. Tais cartas de apelação chegaram também ao bispo da Sé Apostólica, são Leão Magno, esse santo cujas refulgentes e sólidas virtudes, cujo vigilante empenho em promover a religião e a concórdia, cuja fortaleza em defender a verdade e a dignidade da cátedra romana e cuja destreza no governo igual à sua eloqüência harmoniosíssima vêm sendo pelo decurso dos séculos objeto de perene admiração. Ninguém mais bem indicado e mais capaz do que ele para debelar o erro de Êutiques, pois nas suas alocuções e nas suas cartas não cessava de celebrar com pia magnificência e com piedade magnífica, o arcano e inefável mistério de uma pessoa e duas naturezas em Cristo. "A Igreja católica vive e prospera pela sua fé nesta verdade: que em Jesus Cristo não se deve crer a humanidade sem verdadeira divindade, nem a divindade sem verdadeira humanidade". (4)

 

O "latrocínio" de Éfeso

10. Mas o arquimandrita Êutiques, pouco esperançoso de obter a proteção do romano pontífice e entrando pelo caminho das artimanhas e enganos, por meio de Crisáfio, íntimo seu e amicíssimo de Teodósio II, conseguiu obter do imperador que sua causa fosse de novo examinada e se reunisse outro concílio em Éfeso, sob a presidência de Dióscoro, bispo de Alexandria. Este, que era amicíssimo de Êutiques e acérrimo inimigo de Flaviano, bispo de Constantinopla, repetia a miúdo – iludido pela aparente semelhança das doutrinas – que assim como Cirilo, seu predecessor, havia defendido a doutrina de uma só pessoa em Cristo, assim lhe cabia agora defender com todas as forças uma só natureza em Cristo, depois da "união". S. Leão Magno, com intuitos de paz, não recusou enviar a Éfeso os seus legados, que levaram, entre outras, duas cartas, uma ao sínodo, outra a Flaviano, nas quais os erros de Êutiques eram refutados com a clareza de uma doutrina exata e copiosa

11. Neste Sínodo Efesino – que s. Leão com justiça chamou "latrocínio" – tudo foi transtornado pela violência, sob as ordens de Dióscoro e Êutiques. Foi negada a presidência aos legados pontifícios, proibida a leitura das cartas do sumo pontífice, extorquidos com fraudes e ameaças os sufrágios dos bispos. Flaviano, entre outros, foi acusado de heresia, deposto da sua sede e jogado numa prisão, onde terminou os seus dias. A temeridade do insano Dióscoro chegou mais tarde ao ponto de – com inqualificável ousadia – lançar o dardo da excomunhão contra a suprema autoridade apostólica. Logo que s. Leão foi informado pelo diácono Hilário dos atropelos cometidos no criminoso conciliábulo, reprovou tudo o que ali se havia feito e decretado, e impôs a sua retratação. A dor imensa que o consternava só ia aumentando à medida que ia recebendo os apelos dos muitos bispos injustamente depostos.

 

Recurso de Flaviano e de outros bispos à Sé Apostólica

12. Merece ser referido o que ao pastor supremo da Igreja escreveram então Flaviano e Teodoreto de Ciro. São de Flaviano estas palavras: "Como tudo se voltasse contra mim com premeditação, depois que (Dióscoro) proferiu contra mim aquela injusta sentença, de acordo com os seus desejos e apesar de eu ter apelado para a Sé Apostólica de Pedro, príncipe dos apóstolos, e para todo o sínodo, sujeito à vossa santidade, logo me rodeou multidão de soldados e impedindo-me que me refugiasse junto do altar como tentava, procuraram arrastar-me para fora da Igreja". (5) De Teodoreto são estas outras: "Se Paulo, pregoeiro, da verdade... recorreu ao grande Pedro... muito mais nós, humildes e pequeninos... recorremos à vossa Sé Apostólica, afim de recebermos de vós um remédio para as feridas da Igreja. A vós compete em todas as questões ter a suprema autoridade... Eu espero a sentença da vossa Sé Apostólica... Antes de mais nada peço que me digais se me devo conformar ou não com esta deposição injusta: espero a vossa decisão". (6)

 

Intervenção do papa s. Leão Magno

13. Desejoso de pôr fim a tantas indignidades, instou são Leão com Teodósio e Pulquéria, por meio de freqüentes cartas, para que remediassem tão triste situação, convocando em território da Itália novo concílio que reparasse as injustiças cometidas em Éfeso. Quando, rodeado de uma coroa de bispos, recebeu na Basílica Vaticana ao imperador Valentiniano III acompanhado da rainha mãe Galla Placídia e da esposa Eudóxia, esconjurou-os com lamentos e lágrimas a que fizessem quanto lhes fosse possível para obter pronto socorro às calamidades da Igreja. Escreveu um imperador ao outro, escreveram as rainhas. Tudo em vão. Teodósio, tolhido pela astúcia e pelo engano, nada moveu para reparar o mal feito. Morrendo, porém, ele improvisamente, passou a reinar sua irmã Pulquéria, que desposou Marciano e o associou ao império. Ambos se tornaram ilustres pela piedade e sabedoria no governo. Anatólio, ilegitimamente posto por Dióscoro em lugar de Flaviano, subscreveu a carta de s. Leão a Flaviano sobre a encarnação; os restos mortais de Flaviano foram trasladados processionalmente a Constantinopla; restituídos às suas sedes os bispos depostos. Começou a predominar o aborrecimento da heresia eutiquiana, a tal ponto que já não parecia necessário convocar um concílio, tanto mais que, devido às invasões dos bárbaros, era insegura a situação do Império romano.

14. Apesar de tudo, celebrou-se o concílio, por desejo do imperador e com anuência do sumo pontífice.

 

O concílio de Calcedônia: o primado da Sé Apostólica

15. Calcedônia era uma cidade da Bitínia, junto ao Bósforo na Trácia, em face de Constantinopla, situada na margem oposta. Aqui, na grandiosa basílica de s. Eufêmia, virgem e mártir, no dia oito de outubro, partindo de Nicéia, onde para este fim se tinham congregado, reuniram-se os padres, todos das partes do oriente, exceto dois africanos, prófugos da própria pátria.

16. Colocado no centro o códice dos evangelhos, diante das grades do santo altar postaram-se dezenove representantes do imperador e do senado. O ofício da legação pontifícia era exercido pelos piedosíssimos varões, Pascasino, bispo de Lilibeo na Sicília, Lucêncio, bispo de Áscoli, Bonifácio e Basílio, presbíteros, aos quais se uniu Juliano, bispo de Cós, para ajudá-los com o seu diligente trabalho. Os legados do romano pontífice tomaram o primeiro lugar entre os bispos. São os primeiros a serem chamados, tomam primeiro a palavra, e são também os primeiros a assinarem as atas. Em força da autoridade que lhes é delegada, confirmam ou excluem os sufrágios dos outros, como aparece claramente na condenação de Dióscoro, que eles confirmaram com as seguintes palavras: "O santíssimo, beatíssimo arcebispo da grande e antiga Roma, Leão, por nosso intermédio e do presente santo sínodo, juntamente com o beatíssimo e digno de todo louvor bem-aventurado Pedro apóstolo, que é pedra e base da santa Igreja católica e o fundamento da verdadeira fé, espoliou-o (Dióscoro) da dignidade episcopal e afastou-o de todo ministério sacerdotal". (7)

17. De resto, consta claramente da epístola sinodal enviada a Leão, que os legados pontifícios não só exerceram a autoridade presidencial, mas que este direito e honra lhes foi reconhecido por todos os Padres sem exceção. Com efeito escreveram eles: "Tu presidias como a cabeça aos membros, mostrando tua benevolência naqueles que ocupavam o teu posto". (8)

18. Não é nossa intenção percorrer aqui todos os pontos do concílio, mas apenas relevar brevemente aqueles que servem melhor para pôr em claro a inteira verdade e fomentar a religião. Assim, uma vez que se trata da questão da dignidade da Sé Apostólica, não podemos passar em silêncio o cânon 28 do concílio, no qual à sé de Constantinopla, como cidade imperial, se atribuía o segundo lugar de honra, logo após a sede romana. Embora não haja nada nele contra o divino primado de jurisdição, que era coisa clara para todos, entretanto esse cânon, exarado na ausência e contra a vontade dos legados do romano pontífice, portanto clandestino e sub-reptício, é destituído de todo valor jurídico e foi reprovado e condenado por são Leão em várias cartas. Marciano e Pulquéria concordaram com essa sentença anulatória, e até o próprio Anatólio o fez, escusando sua infeliz ousadia com os seguintes termos de uma carta a s. Leão: "Saiba vossa beatitude que eu não tenho nenhuma culpa no que foi decretado ultimamente no sínodo ecumênico de Calcedônia, em favor da sé de Constantinopla... mas foi o reverendíssimo clero da Igreja de Constantinopla que se empenhou nisso...; embora toda a força e confirmação desse ato seja reservada a vossa beatitude". (9)

 

II. "PEDRO FALOU PELA BOCA DE LEÃO"

19. Mas venhamos já ao âmago de toda a questão, isto é, a solene definição de fé em que foi repudiado e condenado o pernicioso erro de Eutiques. Na sessão quarta do mesmo sagrado concílio, pediram os representantes imperiais que fosse redigido novo símbolo de fé, mas Pascasino, legado pontifício, interpretando o parecer comum, respondeu que tal não era necessário, bastando os símbolos de fé e cânones já recebidos pela Igreja, tendo preeminência entre estes, na questão presente, a carta de Leão a Flaviano: "Em terceiro lugar (isto é, depois dos Símbolos Niceno e Constantinopolitano com as respectivas declarações feitas por s. Cirilo no concílio de Éfeso) os escritos do beatíssimo e apostólico Leão, Papa da universal Igreja, em condenação das heresias de Nestório e Êutiques, mostraram qual seja o conteúdo da verdadeira fé. E da mesma maneira o santo sínodo abraça esta fé e a segue". (10)

20. É útil recordar aqui que esta importantíssima carta de s. Leão a Flaviano sobre a encarnação do Verbo foi lida na terceira sessão do concílio: e apenas se calou a voz do leitor, todos clamaram numa só alma e num brado só: "Esta é a fé dos padres, a fé dos apóstolos. Todos assim cremos, os ortodoxos assim crêem. Quem assim não crê seja anátema. Pedro falou pela boca de Leão". (11)

21. Depois disso todos, unanimemente, confessaram que o documento do pontífice romano concordava plena e perfeitamente com os Símbolos Niceno e Constantinopolitano. Entretanto, na quinta sessão do concílio, dados os insistentes pedidos dos representantes de Marciano e do senado, foi exarada nova profissão de fé por um conselho escolhido de bispos de diversas regiões, que se tinham reunido no oratório da Basílica de s. Eufêmia. Consta de um prólogo, do Símbolo Niceno e do Constantinopolitano, que foi então pela primeira vez promulgado, e da solene condenação da doutrina de Êutiques. Esta regra de fé foi unanimemente aprovada pelos padres conciliares.

22. Julgamos proveitoso, veneráveis irmãos, demorar-nos um pouco na explicação do documento do romano pontífice, preclaríssimo assertor da fé católica. Primeiramente, contra a seguinte afirmação de Êutiques: "Confesso que antes da união nosso Senhor possuía duas naturezas; mas depois da união confesso uma só natureza", (12) não sem indignação o santíssimo antístite opõe o facho esplendoroso da verdade: "Admiro-me de que esta sua tão absurda e perversa profissão não fosse reprovada por nenhuma condenação dos juízes...; pois é tão ímpio dizer que antes da encarnação o unigênito Filho de Deus tinha duas naturezas, quanto afirmar que depois que o Verbo se fez carne tem uma só natureza". (13) Nem com menor força refuta a Nestório que resvala no erro contrário: "Por causa desta unidade de pessoa, que se deve entender na dualidade de natureza, se lê que o Filho do homem desceu do céu, quando o Filho de Deus assumiu a carne da Virgem da qual nasceu. E também se diz que o Filho de Deus foi crucificado e sepultado embora tenha sofrido não na divindade pela qual o Unigênito é consempiterno e consubstancial ao Pai, mas na enfermidade da natureza humana. E é assim que todos confessamos no Símbolo que o unigênito Filho de Deus foi crucificado e sepultado". (14)

23. Além da distinção das duas naturezas em Cristo, segue-se também claramente daqui a distinção das propriedades e operações desta dupla natureza: "Salva portanto a propriedade de cada uma das duas naturezas que se uniram numa só pessoa, a baixeza foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela eternidade". (15) E ainda: "Assim, sem diminuição, cada natureza possui a sua propriedade". (16)

24. Entretanto, a dupla cadeia das propriedades e operações atribui-se a uma única pessoa do Verbo, porque "um só... e o mesmo é... verdadeiramente Filho de Deus e verdadeiramente Filho do Homem". (17) E por isso: "Cada uma das duas formas opera em comunhão com a outra o que lhe é próprio, isto é, o Verbo opera o que é próprio do Verbo, e a carne executa o que é próprio da carne". (18) Aparece aqui a doutrina conhecida sob a denominação de "comunicação dos idiomas", que com todo o direito s. Cirilo defendeu contra Nestório, apoiando-se neste sólido princípio de que as duas naturezas de Cristo subsistem na única pessoa do Verbo, gerado pelo Pai, quanto à divindade, antes de todos os séculos e nascido de Maria, no tempo, quanto à humanidade.

 

A definição de Calcedônia

25. Esta excelsa doutrina, haurida do Evangelho, sem contradizer o que fora decretado no concílio de Éfeso, condena Êutiques sem poupar a Nestório, e com ela concorda plenamente a definição dogmática do concílio de Calcedônia, que igualmente ensina clara e firmemente duas distintas naturezas em Cristo na unidade de pessoa com as seguintes palavras: "O santo, grande e universal concílio... condena (aqueles) que fantasiam duas naturezas do Senhor antes da união e imaginam uma única depois da união. Nós, portanto, seguindo os santos Padres, ensinamos sem discrepância a confessar a um só e mesmo Filho e Senhor nosso Jesus Cristo, o mesmo perfeito na divindade e perfeito na humanidade, Deus verdadeiro e homem verdadeiro, composto de alma racional e corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade, e consubstancial a nós segundo a humanidade, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado; gerado do Pai segundo a divindade antes dos séculos, e, por nós e pela nossa salvação, gerado de Maria virgem, Mãe de Deus, segundo a humanidade, nos últimos tempos; o único e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito; que se deve reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mutação, sem divisão, sem separação; que a diferença das naturezas de nenhuma maneira foi destruída pela união, mas ao contrário foi salva a propriedade de cada uma das duas naturezas que concorrem numa só pessoa e subsistência; e assim, não em duas pessoas partido ou dividido mas o único e mesmo Filho e Unigênito Deus Verbo, Senhor Jesus Cristo". (19)

 

Clareza e precisão de termos

26. Se por acaso se pergunta por que as expressões do concílio de Calcedônia se distinguem pela nitidez e eficácia em combater o erro, julgamos que o motivo principal reside no uso de termos apropriadíssimos, com a exclusão de toda ambigüidade. De fato, na definição de Calcedônia, atribui-se a mesma significação às vozes de pessoa e hipóstase (prósopon e hypóstasis). Ao contrário, ao termo de natureza (physis) dá-se um sentido diverso, e nunca se usa com a significação dos dois primeiros.

27. Portanto falsamente opinavam outrora os nestorianos e eutiquianos, e o repetem hoje alguns historiadores, que o concílio de Calcedônia tenha corrigido o que fora definido no de Éfeso. Ao contrário, ambos mutuamente se completam. E é mesmo nos posteriores segundo e terceiro concílios ecumênicos de Constantinopla que a síntese da fundamentalíssima doutrina cristológica aparece mais vigorosa e clara.

28. É de lamentar que alguns antigos adversários do concílio de Calcedônia, chamados também monofisitas, partindo da errada inteligência de algumas expressões dos antigos, tenham rejeitado uma fé tão pura, sincera e íntegra. Embora se opusessem a Êutiques que falava absurdamente de uma mistura das naturezas em Cristo, aferraram-se entretanto com pertinácia à conhecida locução: "Uma natureza encarnada do Deus Verbo", que s. Cirilo Alexandrino usou como se proviesse de s. Atanásio, entendendo-a porém no reto sentido, pois que transportava a significação de natureza para pessoa. Os Padres de Calcedônia eliminaram o que havia de incerto e vacilante naqueles termos: de fato, equiparando a terminologia trinitária com a que se usa para exprimir a encarnação do Verbo, identificaram natureza e essência (ousía), como identificaram pessoa e hipóstase, e julgaram que os dois primeiros termos se devem distinguir absolutamente dos dois segundos, enquanto os referidos dissidentes equiparam natureza à pessoa, mas não à essência. Deve-se pois dizer, com modo de falar comum e sem equívoco, que em Deus há uma natureza e três pessoas, em Cristo uma pessoa e duas naturezas.

29. Pelo motivo acima aduzido é principalmente na terminologia que ainda atualmente alguns dissidentes do Egito, Etiópia, Síria, Armênia e outras partes, parecem afastar-se da maneira exata de exprimir a doutrina do mistério da encarnação, como se pode presumir dos seus livros litúrgicos e teológicos.

30. De resto, já no século XII, uma grande autoridade do mundo armeno assim expunha candidamente o seu sentir nesta matéria: "Dizemos haver em Cristo uma natureza, não como Êutiques estabelecendo confusão de naturezas, nem como Apolinário que põe diminuição, mas como Cirilo de Alexandria, que no livro dos "Escólios contra Nestório" diz: "Uma é a natureza do Verbo Encarnado, conforme ensinaram os Padres... nós também o dizemos seguindo a tradição dos santos, mas de modo nenhum introduzindo, como ensinam os heterodoxos, ou confusão ou transformação ou alteração alguma na união de Cristo. Afirmamos uma natureza, no sentido de hipóstase, como em Cristo também vós dizeis; o que é exato, e nós o concedemos, e que vale o mesmo que a nossa asserção: `Uma natureza...' Nem rejeitamos a expressão 'duas naturezas', desde que não se entenda como divisão como quis Nestório, antes para acentuar contra Êutiques e Apolinário a não-confusão". (20)

31. Se o júbilo e a alegria tocam seu auge ao realizar-se aquilo que canta o Salmo: "Oh! como é bom e agradável habitarem os irmãos juntamente" (Sl 132, 1), se a glória de Deus aparece com fulgor irmanada à máxima utilidade de todos, quando a plenitude da verdade e da caridade une entre si as ovelhas do rebanho de Cristo, considerem todos aqueles que acima enumerávamos com o coração cheio de afeto e de pesar, se é permitido ou se convém, principalmente devido a inicial equívoco de palavras, manterem-se ainda por mais tempo afastados da Igreja, única e santa, que foi fundada sobre safiras (cf. Is 54, 11), isto é, sobre os apóstolos e profetas, e têm por pedra angular a Jesus Cristo! (cf. Ef 2, 20)

 

Alguns desvios modernos

32. Vai também diretamente contra a profissão de fé do concílio de Calcedônia certa doutrina largamente difundida fora do âmbito da Igreja católica e à qual deu ocasião aparente uma passagem da epístola de s. Paulo aos Filipenses (Fl 2, 7) arbitrária e erradamente interpretada. Referimo-nos à chamada doutrina "kenótica", segundo a qual se chega a despojar a Cristo da divindade do Verbo; invenção nefanda, que, tão reprovável como o docetismo, seu oposto, reduz a nome vão e inconsistente todo o mistério da Encarnação e da Redenção. "O verdadeiro Deus nasceu, assim o proclama solenemente s. Leão Magno, em íntegra e perfeita natureza de verdadeiro homem; perfeito quanto ao que é seu, e perfeito quanto ao que é nosso". (21)

33. Embora nada impeça que a humanidade de Cristo seja mais profundamente estudada também sob o aspecto psicológico, não falta quem nessas investigações tão difíceis e sutis abandone as normas antigas mais do que é justo, e construa novas teorias usando indevidamente, para as sustentar, da autoridade do concílio de Calcedônia.

34. Tais autores descrevem a natureza humana de Cristo de tal forma que parece conceber-se como um sujeito de per si, como se não subsistisse na pessoa do Verbo. Ora, o concílio de Calcedônia, plenamente de acordo com o de Éfeso, afirma com meridiana clareza que ambas as naturezas do nosso Redentor estão unidas "em uma só pessoa e subsistência" e proíbe pôr em Cristo dois indivíduos, de modo que se coloque junto ao Verbo um como "homem assumido", dotado de inteira autonomia própria.

35. S. Leão não só inculca a mesma doutrina, mas indica também a fonte de onde ela deriva: "Tudo o que foi escrito por nós, diz ele, se prova ser tirado da doutrina dos apóstolos e do evangelho". (22)

 

Doutrina evangélica e apostólica

36. E em verdade, a Igreja desde os primeiros tempos, seja nos documentos escritos, seja nos sermões e nas preces litúrgicas, professou clara e categoricamente que o unigênito Filho de Deus, consubstancial ao Pai, nosso Senhor Jesus Cristo, Verbo encarnado, nasceu nesta terra, padeceu, foi pregado na cruz, e depois de ressuscitar do sepulcro, subiu aos céus. Além disso a Sagrada Escritura atribui ao único Jesus Cristo, Filho de Deus, predicados humanos, e ao mesmo Cristo, Filho do Homem, predicados divinos.

37. O evangelista s. João declara: "O Verbo se fez carne" (Jo 1, 14); s. Paulo escreve: "Como fosse em forma de Deus.., humilhou-se a si mesmo feito obediente até a morte" (Fl 2, 6-8); ou: "Quando chegou a plenitude dos tempos enviou Deus o seu Filho, feito da mulher" (Gl 4, 4); e o mesmo divino Redentor pronuncia sem hesitação: "Eu e o Pai somos uma coisa só" (Jo 10, 30); e de novo: "Saí do Pai e vim ao mundo" (Jo 16, 28). A origem superna do nosso Redentor brilha também nesta passagem do evangelho: "Desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" (Jo 6, 38); e nesta outra: "O que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus" (Ef 4, 10). Essa linguagem, comenta-a assim luminosamente s. Tomás de Aquino: "O que desceu é o mesmo que subiu. Aqui se designa a unidade de pessoa de Deus e do homem. Desceu com efeito... o Filho de Deus assumindo a natureza humana, subiu o Filho do homem segundo a natureza humana à sublimidade da vida imortal. E assim é o mesmo o Filho de Deus que desceu e o Filho do homem que subiu". (23)

38. Essa mesma doutrina fora já preclaramente exposta pelo nosso predecessor Leão Magno nestes termos: "Porque... o que principalmente nobilita os homens que haviam de ser justificados é o fato de o Unigênito de Deus se ter dignado fazer-se também Filho do homem, de forma que o mesmo Deus, homooúsios do Pai, isto é, da mesma natureza que o Pai, fosse igualmente verdadeiro homem e consubstâncial, segundo a carne, com sua mãe. Alegramo-nos de uma e outra coisa, pois não somos salvos senão por ambas juntamente: em nada dividindo o visível do invisível, o corpóreo do incorpóreo, o passível do impassível, o palpável do impalpável, a forma de servo da forma de Deus. Porque apesar de uma dessas coisas permanecer desde a eternidade, a outra começou no tempo. Uniram-se ambas e já não podem separar-se nem ter fim". (24)

39. Portanto, só quando se crê com fé incontaminada e santa que em Cristo há uma única pessoa, isto é, a do Verbo, na qual se unem as duas naturezas, perfeitamente distintas entre si, a divina e a humana, com propriedades e operações diversas, é que a magnificência e piedade da obra da nossa redenção aparecem em tal forma que nunca será demais o que delas se disser.

40. Oh! sublime misericórdia e justiça de Deus, que veio em socorro dos pecadores e os transformou em filhos! Oh! como se abaixaram os céus para que, desfazendo-se a escuridão do inverno, aparecessem as flores sobre a nossa terra (cf. Ct 2, 11s.) e fôssemos transformados em homens novos, nova criação, nova feitura, povo santo de filhos de Deus! O Verbo de Deus verdadeiramente padeceu na sua carne, derramou na cruz o próprio sangue e ofereceu ao eterno Padre, pelos nossos pecados, uma satisfação mais que abundante. Brilha, portanto, esperança segura de salvação para aqueles que a ele aderem com fé sincera e caridade ardente e, com os auxílios da sua graça, produzem frutos de justiça.

 

III. APELO AO REGRESSO

41. A recordação de tão insignes e gloriosos fastos da Igreja faz que o nosso pensamento se volte espontaneamente e cheio de afeto paterno para os orientais. O sacrossanto concílio ecumênico de Calcedônia é um dos seus maiores títulos de glória, destinado a permanecer, sem dúvida, através de todos os séculos. Nele, sob a presidência da Sé Apostólica, foi vigilantemente defendida de um ímpio e ousado ataque, e maravilhosamente exposta por uma aguerrida e numerosa corte de bispos orientais, a doutrina da unidade de Cristo, em cuja única pessoa se juntam distintamente, sem se confundirem, as duas naturezas, divina e humana. Mas, por infelicidade, muitos no Oriente, através dos séculos, separaram-se da unidade do corpo místico de Cristo, cuja fúlgida imagem é precisamente a união hipostática. Não é acaso justo, salutar, e conforme a vontade de Deus, que todos finalmente voltem ao único redil de Jesus Cristo?

42. Quanto a nós, queremos que fique bem patente que os nossos propósitos são propósitos de paz e não de perturbação (cf. Jr 29, 11). De resto, à vista está termos demonstrado também com fatos esta nossa disposição de ânimo. E se, por necessidade, disso nos gloriamos, gloriamo-nos no Senhor, que é quem concede toda a boa vontade. Seguindo as pisadas dos nossos antecessores, trabalhamos assiduamente para que o retorno à Igreja católica se tornasse mais fácil aos orientais. Defendemos os seus legítimos ritos, promovemos estudos sobre questões orientais, promulgamos leis a eles favoráveis, acompanhamos com grande solicitude os trabalhos da Sagrada Congregação para a Igreja oriental, concedemos ao patriarca dos armenos a dignidade da púrpura romana.

43. E quando recentemente o furor da guerra trazia consigo a carestia, a fome e as doenças, nós, sem fazer distinções entre esses ou aqueles que nos chamam Pai, procuramos suster o aluvião de calamidades, procuramos auxiliar as viúvas, os meninos, os velhos e os enfermos. Quem nos dera ter podido ajudá-los na medida dos nossos desejos! Todos aqueles que pelas circunstâncias de épocas difíceis se separaram desta Sé Apostólica, para a qual presidir é servir, desta sé, erigida por Deus como rocha inconcussa da verdade, não queiram já tardar mais em prestar-lhe a devida submissão e reverência, e sigam os exemplos de Flaviano – esse novo João Crisóstomo em sofrer valorosamente pela justiça –; os exemplos dos Padres do concílio de Calcedônia – membros digníssimos do corpo místico de Cristo -, de Marciano – Príncipe forte, clemente e sábio –, de Pulquéria – lírio alvíssimo de régia e intemerata beleza. Dessa volta dos irmãos separados à unidade da Igreja prevemos que há de jorrar uma fonte copiosa de bens para o orbe cristão.

44. Bem sabemos que um cúmulo de preconceitos inveterados opõe tenaz estorvo a que a prece de Jesus feita ao eterno Pai, na última ceia pelos discípulos do Evangelho: "Que todos sejam uma só coisa" (Jo 17, 21), obtenha a almejada realização. Mas sabemos também que é tão grande a força da oração – quando os que oram com fé inabalável e pureza de consciência se unem em fileiras compactas – que pode mesmo arrastar montanhas e lançá-las ao mar (cf. Mc 11, 23). Queremos, pais, e muito desejamos que todos aqueles que têm a peito a volta ao abraço da unidade cristã – e ninguém que seja de Cristo tenha em pouca conta assunto de tanta importância elevem preces e súplicas a Deus, autor da ordem, da unidade e da beleza, a fim de que os louváveis desejos de todos os bons sejam quanto antes realidade. Aplanam o caminho para alcançar esta meta as investigações históricas que hoje, mais que nas épocas anteriores, são levadas a cabo com maior tranqüilidade e menos paixão.

 

União contra os inimigos de Deus e de Cristo

45. Há outro motivo ainda a exigir imperiosamente que os esquadrões de nome cristão se arregimentem quanto antes sob uma só bandeira para combaterem assim coesos contra os rijos ataques do inimigo infernal. A quem não aterroriza o ódio e a ferocidade, com a qual os inimigos de Deus, em muitas regiões da terra, procuram destruir e ameaçam exterminar tudo o que é divino e cristão? Ante às avançadas adversas, confederadas, não podem permanecer por mais tempo separados e dispersos quantos, assinalados com o sagrado caráter do batismo, têm por dever de ofício a obrigação de pelejar as batalhas de Cristo.

 

Comunhão de martírio e de sangue

46. Os grilhões, as agonias, as torturas, os gemidos e o sangue daqueles que, conhecidos ou ignorados – e são multidão imensa –, recentemente e ainda agora padeceram e padecem pela constância na virtude e pela procissão da fé, a todos impelem, com voz cada dia mais retumbante, a que tornem ao santo abraço da união com a Igreja.

47. A esperança de que hão de voltar os irmãos e filhos há tanto tempo separados desta Sé Apostólica fez-se mais prometedora pela áspera cruz dos martírios sanguinolentos de tantos outros irmãos e filhos. Ninguém estorve ou despreze a salutar ação de Deus! Com paterna e premente insistência convidamos e chamamos ao regozijo e aos benefícios desse retorno também os nestorianos e monofisitas. Estejam persuadidos de que será para nós a mais refulgente jóia da coroa do nosso apostolado o poder, ao recebê-los de novo, cumulá-los de amor e de honra, a eles que nos são tanto mais caros, quanto mais intenso é o desejo da sua volta, em nós suscitado pelo já tão longo tempo da sua separação.

 

CONCLUSÃO

48. Desejamos, por fim, veneráveis irmãos, que ao celebrar-se, por vossa diligente operosidade, a comemoração do concílio de Calcedônia, se sintam todos impelidos a aderir, com firmíssima fé, a Cristo, rei e redentor nosso. Ninguém, aliciado pelas falácias de humana filosofia ou enganado pelos equívocos da linguagem humana, abale com as suas dúvidas ou altere com desacertadas inovações o dogma definido em Calcedônia – que em Cristo há duas naturezas, a divina e a humana, verdadeiras e perfeitas, unidas juntamente, não confundidas, e subsistentes na única pessoa do Verbo. Ligados com mais estreitos vínculos ao Autor da nossa salvação, que é "Caminho de vida santa, Verdade da doutrina divina, e Vida de felicidade eterna", (25) amem todos nele a própria natureza resgatada, a própria liberdade redimida, e cheios de gozo, depondo a estultícia do mundo senil, entrem na posse da sabedoria daquela instância espiritual, que não conhece envelhecimento.

49. Esses nossos ardentíssimos votos e desejos, acolha-os Deus uno e trino, cuja natureza é bondade e cuja vontade é poder, pela intercessão da virgem Maria, Mãe de Deus, dos santos apóstolos Pedro e Paulo e de s. Eufêmia, virgem calcedonense e gloriosa mártir. E vós, veneráveis irmãos, uni as vossas preces às nossas e fazei que chegue ao conhecimento do maior número possível quanto vos escrevemos. Agradecendo-vos de antemão, enviamos com ternura, a vós e a todos os sacerdotes e fiéis entregues ao vosso insigne zelo pastoral, a bênção apostólica, para que ajudados por ela tomeis com maior vigor o jugo, nem pesado nem duro, de Cristo rei, e vos torneis sempre mais semelhantes, pela humildade, àquele de cuja glória desejais participar.

 

 Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 8 de setembro, festa da Natividade de Maria santíssima, no ano de 1951, XIII do nosso pontificado.

 

PIO PP. XII

 

Notas

(1) Registrum Epistularum, I, 25 (al. 24): PL 77, 478; ed. Ewald, I, 36.

(2) S. Leão M., Ep. 28 ad Flavianum, l: PL 54, 755s.

(3) Cf. Flaviano, Ep. 26 ad Leonem M.: PL 54, 745.

(4) S. Leão M., Ep. 28, 5: PL 54, 777.

(5) Schwartz, Acta Conciliorum Oecumenicorum, II, vol. II, parte I, p. 78.

(6) Teodoreto, Ep. 52 ad Leonem M.,1.5.6: PL 54, 847 e 851; cf. PG 83,1311s. e 1315s.

(7) Mansi, Conciliorum amplissima collectio, VI, 1047 (Act. III); Schwartz, II, vol. I, pars altera, p. 29 (225] (Act. II).

(8) Concílio de Calcedônia, Ep. 98 ad Leonem M., 1: PL 54, 951; Mansi, VI, 147.

(9) Anatólio, Ep.132 ad Leonem M., 4: PL 54,1084; Mansi, VI, 278s.

(10) Mansi, VII,10.

(11) Schwartz, II, vol. I, para altera, p. 81 [277] (Act. III); Mansi, VI, 971 (Act. II).

(12) S. Leão M., Ep. 28, 6: PL 54, 777.

(13) Ibid.

(14) S. Leão M., Ep. 28, 5: PL 54, 771; cf. s. Agostinho, Contra sermonem Arianorum, c. 8: PL 42, 688.

(15) S. Leão M., Ep. 28, 3: PL 54, 763. Cf. s. Leão M., Serm. 21, 2: PL 54,192.

(16) S. Leão M., Ep. 28, 3: PL 54, 765; cf. Serm. 23, 2: PL 54, 201.

(17) S. Leão M., Ep. 28, 4: PL 54, 767.

(18) Ibid.

(19) Mansi, VIII,114 e 115.

(20) Assim, Nerses IV (†1173) in Libello confessionis fidei, ad Alexium supremum exercitas byzantini Ducem (I. Cappelletti, s. Narsetis Claiensis, Armenorum Catholici, opera, I, Venetiis,1833, pp.182-183.

(21) S. Leão M., Ep. 28, 3: PL 54, 763. Cf. Serm. 23, 2: PL 54, 201.

(22) S. Leão M., Ep.152: PL 54,1123.

(23) S. Tomás, Comm. in Ep. ad Ephesios, c. IV, lect. III, circa finem.

(24) S. Leão M., Serm. 30, 6: PL 54, 233s.

(25) S. Leão M., Serm. 72, 1: PL 54, 390.