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Saturday, 18 January 2025

Saturday's Good Reading: “Professores Improvisados” by Graciliano Ramos (in Portuguese)

 

Conheci um sujeito que dispunha de vasto palavreado e ensinava gramática. Ensinava por um processo engenhoso. Reunida a classe, punha os óculos, abria um livro, percorria a página de alto a baixo com o índice, gargarejava umas coisas que ninguém compreendia e terminava:

— Isso não tem importância. Vamos para diante. Tragam-me o adjetivo amanhã.

No outro dia cena igual: os mesmos óculos, o mesmo livro aberto, o mesmo gesto com o fura-bolos amarelo de cigarro, o mesmo gargarejo, a mesma conclusão:

— Adjetivo é isso que vocês sabem. Não interessa. Para a frente! Decorem o pronome.

A propósito de análise dissertava com vigor sobre a dinastia dos Sugs: falavam-lhe em concordância e ele explicava metafísica. Ao cabo de alguns anos, excetuando gramática, os alunos sabiam tudo. Houve entre eles, com o correr do tempo, agricultores, jornalistas, padres, advogados, funileiros e poetas. Sempre ignoraram a disciplina que o homem professava.

Esta história pode ser exagero ou mentira. Mas ninguém a desmancha, sustento-a — e ela permanece. Há muitas verdades assim, inconcussas por falta de quem as desmantele.

O meu conto será aceito sem dificuldade, porque, se não é rigorosamente verdadeiro, é pelo menos verossímil. Realmente esse professor, que, para livrar-se dum obstáculo, mistura alhos com bugalhos, mete os pés pelas mãos, deixa os rapazes em jejum, não é daqui nem dali: é de quase todas as cidades do interior. Músico de sete instrumentos, criatura fatigada, depois de exercer dez ofícios sem se fixar em nenhum, esbarra com um dilema temeroso — queimar os miolos ou abrir uma escola.

Se estira a canela, o prejuízo é pequeno: se se agarra à segunda hipótese, vem a lume, passados meses, um jornalzinho cheio de sonetos.

Não pretende consertar nada. O que Deus Nosso Senhor fez, ou alguém por ele, deve estar certo. Limito-me a expor um fato. E para que me acreditem, confesso, com vergonha, que sou suspeito.

Por motivo de ordem econômica, resolvi um dia, a exemplo de toda gente, ministrar aos outros alguns conhecimentos proveitosos a mim. Não me arrisquei a preparar oleiros ou sapateiros pois ninguém tomaria a sério sapato ou panela que eu fizesse. Procurei matéria exótica, de verificação difícil. Imaginando, sem grande esforço, que na Itália existia uma língua, pedi catálogos ao Garnier e dispus-me resolutamente a estropiar o italiano com a ajuda de Deus. Anunciei: “Italiano rápido e barato a cinco mil-réis por cabeça, mensalmente. Aproveitem. Lições em todos os dias úteis e inúteis. Tempo é dinheiro, como diz o gringo.”

— Isto deve ser fácil, pensei. É só arrumar no fim das palavras one ou sine. De estrangeiro cá na terra ninguém entende. E se aparecer por aí um carcamano, adoeço e perco a fala.

Pois, senhores, não me dei mal. Matricularam-se cerca de trinta idiotas: comecei a trabalhar com energia e confiança. Ainda estaria trabalhando, se dois alunos, finda a primeira quinzena, não entrassem em concorrência comigo, deslealmente, fundando escolas que italianizaram toda a localidade.

Creio que os professores sertanejos são, com diferenças pouco sensíveis, indivíduos como eu. Ensinam antes de aprenderem. Talvez fosse mais razoável aprender para ensinar. Mas poderei eu censurá-los? Não, decerto. Todos precisamos viver. E desejamos, naturalmente, aparentar o que não somos. Por que é que estou a redigir estas niquices? Por que m’as pediram? Ora essa! Não seria melhor declarar francamente e honestamente que não sei escrever?

Saturday, 30 November 2024

Saturday's Good Reading: “O Jogo do Bicho, Fator Econômico” by Graciliano Ramos (in Portuguese).

 

De todas as instituições brasileiras o jogo do bicho é com certeza a mais interessante, a que melhor descobre a alma popular. É verdade que possuímos outras capazes de provocar entusiasmos vivos e até a paixão das massas: o carnaval, o futebol, as lutas políticas, por exemplo; mas são coisas que, embora aqui tenham feição particular, existem em toda a parte. Nenhuma delas produz uma excitação permanente, todas se manifestam com intermitências mais ou menos longas.

O jogo do bicho é constante e puramente nacional. Aqui surgiu, criou raízes, e em nenhum outro país se daria tão bem. Deriva da nossa desorganização econômica e da confiança que depositamos em forças misteriosas. Todos nós, consciente ou inconscientemente, esperamos milagres, acreditamos na Divina Providência, em poderes sobrenaturais, que às vezes ficam no alto, inatingíveis e obscuros, outras vezes se põem em contato com os homens, familiarizam-se, revelam-se de maneira bastante ordinária.

As relações entre o homem e a divindade, que a princípio se manifestam sob a forma de troca, depois como transações de compra e venda, aqui se modificaram. Em toda a parte o crente oferece a Deus ou aos santos um objeto para receber um favor, ou oferece-lhes dinheiro, mas entre nós este respeitável costume se tornou uma espécie de jogo. Daí para se tornar jogo verdadeiro a distância não era grande. A nossa gente supersticiosa, que admite a realização dos sonhos e, especialmente no interior, faz promessas a Santo Antônio a propósito de casamento e a Santa Clara a propósito de chuva, encontrou meio de transformar a graça pedida em dinheiro. Podemos acompanhar a evolução do negócio do seguinte modo: oferecemos um objeto para receber um bem qualquer; oferecemos dinheiro para receber o mesmo bem; oferecemos dinheiro para receber dinheiro.

Não queremos felicidade, paz, qualquer estado de alma necessário aos místicos; desejamos coisas concretas. O mendigo que pede para o transeunte saúde e vida longa muitas vezes indica os meios que julga indispensáveis para se obter isso.

Impossibilitados de adquirir uma felicidade completa, buscamos pedaços de felicidade. E, em vista da situação precária em que vivemos, esses fragmentos são de ordinário representados por quantias insignificantes. Sabemos que a posse delas nada resolve definitivamente, que a nossa vida não se endireitará com tão pouco e, consumidas essas ínfimas parcelas de riquezas, a necessidade voltará e teremos de apelar para um novo golpe de sorte. Mas não podemos pensar no futuro quando o presente é incerteza e confusão, respiraremos com alívio se as nossas dificuldades irremediáveis forem procrastinadas por um mês, uma semana, um dia. Esperaremos que tudo se arranje depois.

Por enquanto precisamos com urgência uma determinada importância para o aluguel da casa, importância correspondente ao dinheiro que possuímos multiplicado por vinte. O brasileiro achou o modo de realizar a multiplicação, pelo menos de passar algumas horas na ilusão de que ela se realize e lhe dê recursos para satisfazer às exigências imediatas.

É verdade que a ilusão ordinariamente falha, mas pode renovar-se no dia seguinte, caso o homem não se ache absolutamente desprovido de pecúnia.

Ele poderia arriscar-se a qualquer outro jogo. Isto, porém, não lhe traria grande satisfação. Comprando bilhetes de loteria, a espera seria muito prolongada; na roleta ou no bacará seria curta demais. Ele não quer ficar muito tempo sonhando com uma sorte grande que lhe transforme a vida, nem encostar-se ao pano verde para receber emoções fortes e rápidas. Contenta-se com sortes miúdas, que lhe podem chegar diariamente, a hora certa, não se decidem no giro duma bola ou num virar de carta.

Além disso a loteria, a roleta, o bacará ficam fora das possibilidades da maior parte da população, ao passo que o jogo do bicho está ao alcance de toda a gente e possui o que é preciso para conquistar a simpatia das massas.

Em primeiro lugar promete muito e não oferece nenhuma garantia, o que está em conformidade com os hábitos dum país onde se organizam companhias sem capital e os profetas são bem recebidos, ainda que sejam os mais extraordinários salvadores. Apesar de tudo os jogadores felizes são pagos com rigorosa pontualidade, e isto é admirável, porque entre nós nunca nenhum programa se realiza, as obrigações são regularmente postas de lado. Os papelinhos riscados a lápis por um sujeito desconhecido transformam-se em valores.

Em segundo lugar é proibido, razão suficiente para viver e prosperar. Há negócios que não têm outro motivo de êxito. O nosso instinto de rebeldia sustenta-os, faz que protestemos contra algum funcionário demasiado consciencioso que pretenda enxergá-los.

Aliás com relação ao jogo do bicho talvez seja conveniente a autoridade supor que ele não existe e deixá-lo em paz. Muitos cavalheiros ficariam em apuros se, marchando para a repartição com o intuito severo de combater essa praga nacional, pensassem que suas respeitáveis senhoras elaboram listas complicadas, os rapazes no caminho da escola arriscam níqueis na dezena, o ordenado da criada foi estabelecido com a redução da importância presumível que ela retira nas compras e dá ao rapaz do talão, o fornecedor não está satisfeito com os pagamentos e espera minorar as suas dívidas com a problemática fração de riqueza que todas as manhãs lhe oferecem no balcão.

Deixemos em paz o bicheiro. Essa fração de riqueza representa a quantia que deixou de ser paga no salário do trabalhador, a conta que o bacharel se esqueceu de saldar na venda. Para que privar o operário e o vendeiro da última possibilidade que lhes resta?

O jogo do bicho significa uma tentativa muito louvável para corrigir o desarranjo em que vivemos. Uma tentativa oferecida a pessoas supersticiosas que acreditam em sonhos e ainda não podem acreditar em outra coisa, mas afinal talvez seja inconveniente suprimi-la, pelo menos por enquanto.

Saturday, 28 September 2024

Saturday Good Reading: “Um Desastre” by Graciliano Ramos (in Portuguese)

 

Alagoas é um estado pobre. Em pouco mais de vinte e oito mil quilômetros quadrados arruma-se quase um milhão de habitantes. Para bem dizer, não se arruma: na praia há charco, mosquito, sezão; na catinga há seixo, cardo, fome. Entre as duas zonas aperta-se a mata, com algodão e cana-de-açúcar, mas aí não se consegue terra facilmente, o salário é baixo — e para lá das cancelas o despotismo do proprietário vale o mosquito e o cardo juntos.

Em toda a parte o amarelão — desânimo, gordura fofa: homens cor de cera, indecisos entre a vida e a morte; raparigas velhas, uns cacos de mulheres na adolescência; meninos ramelosos, de pernas finas como cambitos, barrigas enormes, grávidas de lombrigas. E muita porcaria: falta de água no sertão, excesso no litoral, o solo empapado, lama.

Nessa penúria, os que têm restos de energia emigram; outros olham os pontos cardeais, esperando um milagre. Em cima, o fazendeiro, o negociante e o burocrata.

Escorados nos balcões das vilas, sujeitos ociosos conversam; os beiradeiros das lagoas nem força têm para conversar. Pernas arrastadas, beiços pálidos, meia dúzia de palavras bambas, como neste diálogo que Pedro Lima inventou:

— Seu compadre, se esta miséria continuar, nós acabamos pedindo esmola.

— A quem?

A população cresce demais. Se a dos outros estados fosse tão densa, o país seria uma nova China. Mais de novecentas mil sombras. Insignificante produção para tanta gente. Na roça uma família inteira se esconde nas camarinhas, nua, enquanto a mãe vai à cacimba, lavar roupa. Um indivíduo mendiga para casar.

— Como é que você sustenta mulher e filhos, criatura?

— Deus dá o jeito.

Ali por volta de 1930 só um município arrecadava cem contos. Hoje as rendas parecem ter subido um pouco. Mas terão “realmente” subido?

Não devemos falar em tais coisas a estranhos. Em vez de penalizá-los, humilhando-nos, exibimos a sala de visitas, arranjada com decência. Apesar de tudo, o alagoano tem momentos de vaidade e abomina considerações desagradáveis. Possuímos glória: Tavares Bastos, Sinimbu, heróis no Paraguai, colonizados do Amazonas. E proclamamos a República. Para alguma coisa a emigração haveria de servir.

Infelizmente precisamos renunciar por enquanto a essas lembranças consoladoras e expor os nossos males. Vieram males grandes, além dos ordinários. Chuva incessante, inundação, dilúvio. O Senhor resolveu afogar os nossos pecados. Os rios engrossaram, submergiram campos, mataram plantas, bichos e cristãos; riachinhos incharam, converteram-se em torrentes, devoraram morros numa erosão faminta e raivosa. Aluíram pontes, ruíram casas, sumiram-se povoações. Impossibilitou-se o trânsito nos caminhos alagados; descansaram as locomotivas; nos lugares onde rodavam trens e bondes vogam canoas. Fecharam-se os estabelecimentos comerciais: a indústria emperrou; trabalhadores esqueceram as suas profissões e tentaram, nervosos, defender ruínas que se dissolvem. De espaço a espaço um desmoronamento — e os restos das cidades emergem como se fossem construídos em palafitas. A agricultura foi varrida: canaviais e arrozais desceram na correnteza ou sepultaram-se no lodo.

Se as notícias calamitosas se referissem a uma cheia do Yang-Tsé-Kiang, acharíamos enorme a catástrofe distante, alargada pelasagências telegráficas. Estamos, porém, diante de uma tragédia caseira, narrada economicamente por Nelson Flores. E, julgando-nos favorecidos pela Providência, buscamos atenuar as nossas aflições.

Contudo esses horrores próximos, que dia a dia o conhecimento de pormenores engrandece, não podem ser desfeitos com sorrisos apenas. Há uma desgraça. Evidentemente o governo local não tem meio de combatê-la. É indispensável o socorro da União. E é indispensável o auxílio do particular, bondade que não faltaria se uma erupção do Aconcágua houvesse destruído algumas aldeias.

Certo não se trata de consertar as máquinas das usinas. Elas se desenferrujarão naturalmente — e o açúcar terá bom preço. A campanha iniciada aqui tende a minorar o sofrimento do homem que nunca entrou num banco e só conheceu durezas, o vaqueiro do sertão mudado em brejo, o pescador da lagoa tornada mar. Vestir os nus, curar os doentes, erguer o casebre da viúva, amparar o órfão, enfim semear naquela região infeliz uns pedaços de obras de misericórdia. Quando as águas baixarem, a maleita se desenvolverá junto aos mangues crescidos, bandos exaustos andarão trêmulos. Pensamos nessa gente mais ou menos inútil. Mas que poderia não ser inútil. E poderá talvez não ser inútil.

 

Rio de Janeiro, 25 agosto de 1944.

Saturday, 15 June 2024

Saturday's Good Reading: “Comandantes de Burros” by Graciliano Ramos (in Portuguese)

 

Quando Lampião esteve no município de Palmeira dos Índios, onde se demorou alguns dias mandando bilhetes para a cidade e sem poder entrar nela, trazia mais de cem homens que não se escondiam na capoeira nem transitavam em veredas. Corriam pela estrada real, bem-montados, espalhafatosos, pimpões, chapéus de couro enfeitados de argolas e moedas, cartucheiras enormes, alpercatas que eram uma complicação de correias, ilhós e fivelas, rifles em bandoleira, lixados, azeitados, alumiando.

O major José Lucena, chefe do destacamento que perseguia bandidos, notando a pequena eficiência da sua tropa de peões, entendeu-se com os proprietários sertanejos, que lhe ofereceram cavalos e burros para o restabelecimento da ordem. Houve algumas escaramuças e Lampião deixou Alagoas, tomou rumo para o Rio Grande do Norte, entrou em Mossoró, onde Jararaca morreu e a cabroeira se espalhou.

Os burros se tornaram inúteis.

O major Lucena separou-os em dois lotes, mandou um deles para um engenho de Viçosa, e o outro para uma povoação de Palmeira dos Índios.

Neste tempo o sr. Álvaro Paes, que projetou e iniciou trabalhos excelentes de organização municipal, viajava todas as semanas pelo interior do estado. Foi um viajante incansável e chegou a conhecer perfeitamente as árvores e os homens do sertão.

Um dia parou num povoado, com o intuito de ensinar aos matutos a cultura da pinha, da mamona e de outros vegetais que se desenvolviam bastante na imprensa da época. Estava tratando de convencer o maioral da localidade quando se aproximou dele um soldado com duas fitas, um botão fora da casa, chapéu embicado, faca de ponta à cinta. Continência e apresentação:

— Pronto, seu governador, cabo fulano, comandante dos burros do major Lucena.

Era o encarregado de tomar conta dos animais que tinham servido para afugentar Lampião.

Esta história podia findar aqui, mas não serão talvez excessivas algumas palavras sobre a classe a que pertencia esse extraordinário comandante. Horrível. Sujeitos insolentes, provocadores, preguiçosos.

A parte mais forte da nossa população rural está com Lampião — os indivíduos que dormem montados a cavalo, os que suportam as secas alimentados com raiz de imbu e caroços de mucunã, os que não trabalham porque não têm onde trabalhar, vivem nas brenhas, como bichos, ignorados pela gente do litoral.

Os que não têm coração mole encontram-se, quando o verão queima a catinga, numa situação medonha. Três saídas: morrer de fome, assentar praça na polícia, emigrar para o Sul. Antes da morte, da emigração ou da farda, essas criaturas são maltratadas pelas diligências, que não querem saber quem é bom nem quem é ruim: espancam tudo.

O caboclo apanha bordoada sempre: apanha do pai, da mãe, dos tios, dos irmãos mais velhos, apanha do proprietário que lhe toma a casa e abre a cerca da roça para o gado estragar as plantações, apanha do cangaceiro que lhe raspa o osso da canela a punhal e lhe deita espeques nas pálpebras, para ver a mulher, a filha, a irmã serem possuídas. E se um inimigo vai à rua e o acusa, o delegado manda prendê-lo e ele aguenta uma surra de facão no corpo da guarda, outra de cipó de boi no xadrez, aplicada pelo preso mais antigo, que recebe quinhentos-réis do torno e é o juiz da cadeia.

Suporta esses últimos tormentos resignado, quase com indiferença, porque enfim prisão se fez para homem e apanhar do governo não é desfeita. Às vezes morre das sovas. Outras vezes atira-se para São Paulo, para o Espírito Santo, para algum lugar onde haja café. Ou espera que a lagarta coma o algodão e as cacimbas se esgotem.

Nesse ponto tendo ódio a Deus e aos homens que o tratam mal, tem vontade de vingar-se. Pede um cartão ao doutor juiz de direito, vende o cavalo, arranja o malote e marcha para a capital, donde volta alguns meses depois, transformado, calçando perneiras, vestindo uniforme cáqui, falando difícil, terrivelmente besta, desconhecendo os amigos e perguntando o nome das coisas mais vulgares.

Abre as vogais escandalosamente, diz: Éxercito, sérviço.

Anda a peneirar-se, todo pachola, com o quepe à banda, a grenha parecendo por baixo da pala.

Bebe, não trabalha, dorme demais!

À noite mete-se nos botequins dos bairros safados ou derruba as portas das meretrizes. É mais ou menos casado com uma sujeita que lhe prepara a comida, lava a roupa e possui um baú de folha, um sagui e um papagaio.

Vai aos batuques de ponta de rua, sem ser convidado, e é bem recebido. Muita consideração. Mas quer dançar com todas as damas, e se alguma lhe mostrar má cara, faz um barulho feio: apaga-se a luz e a festa acaba em pancadaria.

 

É vaidoso, cheio de suscetibilidades. Importância imensa. Em horas de aborrecimentos sai à calçada do quartel, nu da cintura pra cima, e grita:

 

— Esta terra não tem homem:

Como nenhum homem responde, torna a gritar:

— Apareça um. Ninguém aparece.

Vai para as encruzilhadas tomar as facas dos matutos. Os matutos que têm facas levam murros porque são desordeiros, os que não têm facas levam murros porque são mofinos.

Levam murros e sentem, como é natural, o desejo de ser soldados, o desejo de cochilar horas e horas, de papo pra cima, sem obrigações, sem exercícios, sem a botina quarenta e quatro a apertar-lhes os calos, o desejo de beber vinho branco na feira e pisar os pés dos pobrezinhos que só têm armas fracas: o buranhém e a quicé de picar fumo, o desejo de comer massa, o desejo de tomar as mulheres dos outros, o desejo de comprar fiado nas bodegas sem intenção de pagar.

Um cartão do doutor juiz de direito, do promotor público, do coronel chefe político tem muito valor!

Entrouxam a roupa e embarcam.

Quando voltarem dormirão tranquilos, baterão nas prostitutas, beberão cachaça nas toldas, em companhias do inspetor e do subdelegado.

E serão, com a ajuda de Deus, alguma coisa grande.

Comandante de burros por exemplo.

 

Maceió, 27 de maio de 1933.

Saturday, 4 May 2024

Good Reading: "Relatório ao Governo do Estado de Alagoas" by Graciliano Ramos (in Portuguese)

 

Palmeira, 3 de janeiro de 1929.

 

MARÇAL JOSÉ OLIVEIRA

Secretário

 

Visto. — Palmeira, 8 de janeiro, 1929.

 

GRACILIANO RAMOS

 

Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios. — Relatório ao Governador de Alagoas. — Sr. Governador. — Esta exposição é talvez desnecessária. O balanço que remeto a V. Exa. mostra bem de que modo foi gasto em 1929 o dinheiro da Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios. E nas contas regularmente publicadas há pormenores abundantes, minudências que excitaram o espanto benévolo da imprensa.

Isto é, pois, uma reprodução de fatos que já narrei, com algarismo e prova de guarda-livros, em numerosos balancetes e nas relações que os acompanharam.

 

RECEITA — 96:924$985

No orçamento do ano passado houve supressão de várias taxas que existiam em 1928. A receita, entretanto, calculada em 68:850$000, atingiu 96:924$985.

E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores.

Não me resolveria, é claro, a pôr em prática no segundo ano de administração a eqüidade que torna o imposto suportável. Adotei-a logo no começo. A receita em 1928 cresceu bastante. E se não chegou à soma agora alcançada é que me foram indispensáveis alguns meses para corrigir irregularidades muito sérias, prejudiciais à arrecadação.

 

DESPESA — 105:465$613

Utilizei parte das sobras existentes no primeiro balanço.

 

ADMINISTRAÇÃO — 22:667$748

Figuram 7:034$558 despendidos com a cobrança das rendas, 3:518$000 com a fiscalização e 2:400$000 pagos a um funcionário aposentado. Tenho seis cobradores, dois fiscais e um secretário.

Todos são mal remunerados.

 

GRATIFICAÇÕES — 1:560$000

Estão reduzidas.

 

CEMITÉRIO — 243$000

Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam.

 

ILUMINAÇÃO — 7:800$000

A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.

 

HIGIENE — 8:454$190

O estado sanitário é bom. O posto de higiene, instalado em 1928, presta serviços consideráveis à população. Cães, porcos e outros bichos incômodos não tornaram a aparecer nas ruas. A cidade está limpa.

 

INSTRUÇÃO — 2:886$180

Instituíram-se escolas em três aldeias: Serra da Mandioca, Anum e Canafístula. O Conselho mandou subvencionar uma sociedade aqui fundada por operários, sociedade que se dedica à educação de adultos.

Presumo que esses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras.

Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos, passatempos acessíveis a quase todos os roceiros.

 

UMA DÍVIDA ANTIGA — 5:210$000

Entregaram-me, quando entrei em exercício, 105$858 para saldar várias contas, entre elas uma de 5:210$000, relativa a mais de um semestre que deixaram de pagar à empresa fornecedora de luz.

 

VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS — 56:644$495

Os gastos com viação e obras públicas foram excessivos. Lamento, entretanto, não me haver sido possível gastar mais. Infelizmente a nossa pobreza é grande. E ainda que elevemos a receita ao dobro da importância que ela ordinariamente alcançava, e economizemos com avareza, muito nos falta realizar. Está visto que me não preocupei com todas as obras exigidas. Escolhi as mais urgentes.

Fiz reparos nas propriedades do Município, remendei as ruas e cuidei especialmente de viação.

Possuímos uma teia de aranha de veredas muito pitorescas, que se torcem em curvas caprichosas, sobem montes e descem vales de maneira incrível. O caminho que vai a Quebrangulo, por exemplo, original produto de engenharia tupi, tem lugares que só podem ser transitados por automóvel Ford e por lagartixa. Sempre me pareceu lamentável desperdício consertar semelhante porcaria.

 

ESTRADA PALMEIRA A SANT’ANA

Abandonei as trilhas dos caetés e procurei saber o preço duma estrada que fosse ter a Sant’Ana do Ipanema. Os peritos responderam que ela custaria aí uns seiscentos mil-réis ou sessenta contos. Decidi optar pela despesa avultada.

Os seiscentos mil-réis ficariam perdidos entre os barrancos que enfeitam um caminho atribuído ao defunto Delmiro Gouveia e que o Estado pagou com liberalidade: os sessenta contos, caso eu os pudesse arrancar ao povo, não serviriam talvez ao contribuinte, que, apertado pelos cobradores, diz sempre não ter encomendado obras públicas, mas a alguém haveriam de servir. Comecei os trabalhos em janeiro. Estão prontos vinte e cinco quilômetros. Gastei 26:871$930.

 

TERRAPLENO DA LAGOA

Este absurdo, este sonho de louco, na opinião de três ou quatro sujeitos que sabem tudo, foi concluído há meses.

Aquilo, que era uma furna lôbrega, tem agora, terminado o aterro, um declive suave. Fiz uma galeria para o escoamento das águas. O pântano que ali havia, cheio de lixo, excelente para a cultura de mosquitos, desapareceu. Deitei sobre as muralhas duas balaustradas de cimento armado. Não há perigo de se despenhar um automóvel lá de cima.

O plano que os técnicos indígenas consideravam impraticável era muito mais modesto.

Os gastos em 1929 montaram a 24:391$925.

 

SALDO — 2:504$319

Adicionando-se à receita o saldo existente no balanço passado e subtraindo-se a despesa, temos 2:504$319.

2:365$969 estão em caixa e 138$350 depositados no Banco Popular e Agrícola de Palmeira.

 

PRODUÇÃO

Dos administradores que me precederam uns dedicaram-se a obras urbanas; outros, inimigos de inovações, não se dedicaram a nada.

Nenhum, creio eu, chegou a trabalhar nos subúrbios.

Encontrei em decadência regiões outrora prósperas; terras aráveis entregues a animais, que nelas viviam quase em estado selvagem. A população minguada, ou emigrava para o Sul do país ou se fixava nos municípios vizinhos, nos povoados que nasciam perto das fronteiras e que eram para nós umas sanguessugas. Vegetavam em lastimável abandono alguns agregados humanos.

E o palmeirense afirmava, convicto, que isto era a princesa do sertão. Uma princesa, vá lá, mas princesa muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavacada.

Favoreci a agricultura livrando-a dos bichos criados à toa; ataquei as patifarias dos pequeninos senhores feudais, exploradores da canalha; suprimi, nas questões rurais, a presença de certos intermediários, que estragavam tudo; facilitei o transporte; estimulei as relações entre o produtor e o consumidor.

Estabeleci feiras em cinco aldeias: 1:156$750 foram-se em reparos nas ruas de Palmeira de Fora.

Canafístula era um chiqueiro. Encontrei lá o ano passado mais de cem porcos misturados com gente. Nunca vi tanto porco.

Desapareceram. E a povoação está quase limpa. Tem mercado semanal, estrada de rodagem e uma escola.

 

MIUDEZAS

Não pretendo levar ao público a ideia de que os meus empreendimentos tenham vulto. Sei perfeitamente que são miuçalhas. Mas afinal existem. E, comparados a outros ainda menores, demonstraram que aqui pelo interior podem tentar-se coisas um pouco diferentes dessas invisíveis sem grande esforço de imaginação ou microscópio.

Quando iniciei a rodovia de Sant’Ana, a opinião de alguns munícipes era de que ela não prestava porque estava boa demais. Como se eles não a merecessem. E argumentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia ser executado pelo Município.

Agora mudaram de conversa. Os impostos cresceram, dizem.

Ou as obras públicas de Palmeira dos Índios são pagas pelo

Estado. Chegarei a convencer-me de que não fui eu que as realizei.

 

BONS COMPANHEIROS

Já estou convencido. Não fui eu, primeiramente porque o dinheiro despendido era do povo, em segundo lugar porque tornaram fácil a minha tarefa uns pobres homens que se esfalfam para não perder salários miseráveis.

Quase tudo foi feito por eles. Eu apenas teria tido o mérito de escolhê-los e vigiá-los, se nisto houvesse mérito.

 

MULTAS

Arrecadei mais de dois contos de réis de multas. Isto prova que as coisas não vão bem.

E não se esmerilharam contravenções. Pequeninas irregularidades passam despercebidas. As infrações que produziram soma considerável para um orçamento exíguo referem-se a prejuízos individuais e foram denunciadas pelas pessoas ofendidas, de ordinário gente miúda, habituada a sofrer a opressão dos que vão trepando.

Esforcei-me por não cometer injustiças. Isto não obstante, atiraram as multas contra mim como arma política. Com inabilidade infantil, de resto. Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcar-me.

Sei bem que antigamente os agentes municipais eram zarolhos. Quando um infeliz se cansava de mendigar o que lhe pertencia, tomava uma resolução heroica: encomendava-se a Deus e ia à capital. E os prefeitos achavam razoável que os contraventores fossem punidos pelo sr. secretário do Interior, por intermédio da polícia.

 

REFORMADORES

O esforço empregado para dar ao Município o necessário é vivamente combatido por alguns pregoeiros de métodos administrativos originais. Em conformidade com eles, deveríamos proceder sempre com a máxima condescendência, não onerar os camaradas, ser rigorosos apenas com os pobres-diabos sem proteção, diminuir a receita, reduzir a despesa aos vencimentos dos funcionários, que ninguém vive sem comer, deixar esse luxo de obras públicas à Federação, ao Estado ou, em falta destes, à Divina Providência.

Belo programa. Não se faria nada, para não descontentar os amigos: os amigos que pagam, os que administram, os que hão de administrar. Seria ótimo. E existiria por preço baixo uma Prefeitura bode expiatório, magnífico assunto para commérage de lugar pequeno. 

 

POBRE POVO SOFREDOR

É uma interessante classe de contribuintes, módica em número, mas bastante forte. Pertencem a ela negociantes, proprietários, industriais, agiotas que esfolam o próximo com juros de judeu.

Bem-comido, bem-bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão.

Como ninguém ignora que se não obtém de graça as coisas exigidas, cada um dos membros desta respeitável classe acha que os impostos devem ser pagos pelos outros.

 

PROJETOS

Tenho vários, de execução duvidosa. Poderei concorrer para o aumento da produção e, consequentemente, da arrecadação. Mas umas semanas de chuva ou de estiagem arruínam as searas, desmantelam tudo — e os projetos morrem.

Iniciarei, se houver recursos, trabalhos urbanos.

 Há pouco tempo, com a iluminação que temos, pérfida, dissimulavam-se nas ruas sérias ameaças à integridade das canelas imprudentes que por ali transitassem em noites de escuro.

Já uma rapariga aqui morreu afogada no enxurro. Uma senhora e uma criança, arrastadas por um dos rios que se formavam no centro da cidade, andaram rolando de cachoeira em cachoeira e danificaram na viagem braços, pernas, costelas e outros órgãos apreciáveis.

Julgo que, por enquanto, semelhantes perigos estão conjurados, mas dois meses de preguiça durante o inverno bastarão para que eles se renovem.

Empedrarei, se puder, algumas ruas.

Tenho também a ideia de iniciar a construção de açudes na zona sertaneja.

Mas para que semear promessas que não sei se darão frutos? Relatarei com pormenores os planos a que me referia quando eles estiverem executados, se isto acontecer.

Ficarei, porém, satisfeito se levar ao fim as obras que encetei. É uma pretensão moderada, realizável. Se não realizar, o prejuízo não será grande.

O Município, que esperou dois anos, espera mais um. Mete na Prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de mim cobras e lagartos.

 

Paz e prosperidade.

 

Palmeira dos Índios, 11 de janeiro de 1930.