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Friday, 2 October 2026

Friday's Sung Word: "Professora" by Benedito Lacerda and Jorge Faraj (in Portuguese)

Eu a vejo todo o dia
Quando o sol mal principia
À cidade a iluminar
Eu venho da boemia
E ela vai, quanta ironia
Pra escola trabalhar.

Louco de amor no seu rastro
Vagalume atrás do astro
Atrás dela eu tomo o trem
E no trem das professoras
Em que outras, tão sedutoras,
Eu não vejo mais ninguém.

Essa operária divina
Que lá no subúrbio ensina
As criancinhas a ler
Naturalmente condena
Na sua vida serena
O meu modo de viver.

Condena porque não sabe
Que toda a culpa lhe cabe
De eu viver ao deus-dará.
Menino querendo ser
Para com ela aprender
Novamente a bê-a-bá.

You can listen "Professora" sung by Sílvio Caldas with Benedito Lacerda (flute) and his group. 

Friday, 18 September 2026

Friday's Sung Word: "Espelho do Destino" by Benedito Lacerda and Aldo Cabral (in Portuguese).

Você que sabe ser presunçosa
Ó mulher pretensiosa
Que de mim já se esqueceu
Não vê que com esse orgulho todo
Quem tirou você do lôdo
Quem lhe deu a mão, fui eu.

Mas na estrada desta vida
Para toda alma perdida
O sofrer é uma lição
E é sofrendo que se aprende
Quem tarde se arrepende
Não merece mais perdão.

Porém, a você dou um conselho
Olhe bem para esse espelho
Que o destino sempre traz:
Uma folha desprendida
Do galho onde foi nascida
Não se ergue nunca mais.

You can listen "Espelho do Destino" sung by Orlando Silva (1939) here. 

You can listen "Espelho do Destino" sung by Orlando Silva (1961) here. 

Wednesday, 16 September 2026

Wednesday's Good Reading: “As Cegonhas” by Hans Christian Andersen (translated into Portuguese by Monteiro Lobato).

 

Um casal de cegonhas havia construído o ninho no telhado duma casa de aldeia. Lá estava a cegonha-mãe ao lado de seus quatro filhotes, cujos bicos escuros só mais tarde ficariam vermelhos como os bicos das cegonhas. Um pouco mais além, na parte mais alta do telhado, a cegonha-pai montava guarda, muito séria e tesa, de pé num pé só. Parecia feita de pau.

— É uma grande honra para minha esposa ter sentinela ao lado, murmurava ele. Os que não sabem que sou o marido pensarão que fui contratado para montar guarda e isso dá muita importância à nossa família.

Nisto apareceu na rua, embaixo, um grupo de meninos vadios. Ao verem as cegonhas puseram-se a cantar uma cantiga muito velha. Essa cantiga dizia que pouco adiantava a cegonha-pai estar montando sentinela, porque o primeiro filhote tinha de acabar preso num laço; o segundo, caído num braseiro; o terceiro, morto por uma carga de chumbo e o último, assado ao espeto.

— Escutem! exclamaram os filhotes assustadíssimos. Estão dizendo que vamos ser enforcados e assados!...

— Bobagem! exclamou a mãe-cegonha. Nada disso acontecerá.

Os meninos continuaram a cantar e apontavam para as cegonhas com o dedo. Apenas um, de nome Peter, não gostou da brincadeira e disse que não deviam estar atropelando as pobres aves que não lhes tinham feito mal nenhum. Mas os meninos insistiram e a cegonha--mãe continuou a dizer aos filhotes que não fizessem caso.

— Não se assustem com as bobagens desses vadios. Não sabem o que dizem. Veja o vosso pai como não liga nenhuma importância e continua imóvel numa perna só.

— Estamos com medo! piavam os filhotes encolhendo-se no ninho.

No dia seguinte os mesmos meninos voltaram a brincar por ali e repetiram a cantiga, assustando ainda mais as cegonhinhas recém-nascidas.

— Seremos mesmo enforcadas e assadas? indagavam elas arregalando os olhos cheios de pavor.

— Nunca! respondia com firmeza a mãe-cegonha. Eu ensinarei vocês a voar, e quando estiverem práticas iremos todas para os brejos em visita às rãs que fazem creque! creque! antes de serem devoradas.

— E depois? quiseram saber os filhotes.

— Depois nos reuniremos a todas as cegonhas desta terra para a viagem do outono. Por esse tempo vocês já devem estar voando perfeitamente e o que não voar direito será espetado pelo enorme bico do general do bando. Tratem pois de aplicar-se da melhor maneira, aproveitando bem as minhas lições.

— Mas que adianta isso, se temos de acabar no espeto? Lá estão os meninos com a mesma cantiga, outra vez...

— Eles não sabem o que dizem; só o que eu digo é certo. Depois de nos reunirmos num grande bando, voaremos para um país quente para o Egito, onde as casas são de pedra, e enormes as tais pirâmides. Nesse país há um rio que todos os anos alaga as duas margens até muito longe. Não há melhor lugar no mundo para a caçada de rãs.

— Que bom! exclamaram os filhotes entusiasmados.

— É um lugar maravilhoso! E enquanto por lá estivermos, quentinhas ao sol, por aqui todas as árvores ficarão peladas, sem uma só folha nos galhos. O frio cá é terrível no inverno. As nuvens do céu viram gelo e caem como farinha branca. É o que os homens chamam neve. Tudo fica gelado.

— E os meninos também gelam?

— Não. Mas para isso têm que ficar dentro das casas, vestidos de grossas roupas de lã ou de peles. E vocês, lá longe, gozando o bom sol e vendo tudo verdinho e florido!...

E desse modo a cegonha-mãe consolou-os.

Correu o tempo. Os filhos da cegonha já estavam crescidotes e já sabiam ficar de pé no ninho, para espiar em redor. Todos os dias o pai-cegonha trazia-lhes no bico rãs e outros bichinhos. Depois fazia trejeitos cômicos para diverti-los; revirava a cabeça até encostar na cauda, estalava o bico como se estivesse tocando castanholas e também contava casos engraçados.

Afinal chegou a época de deixar o ninho, e os quatro filhotes saíram a passeio pelo telhado, muito sem jeito e cambaleantes; ao tentarem voar quase caíram no chão.

— Muito atentos agora, disse a cegonha-mãe. Vejam como eu faço. O pescoço deve conservar-se bem esticado, assim. E o pé nesta posição — primeiro o esquerdo; depois o direito. Vamos ver.

E isto dizendo ela alçou o vôo. Entusiasmados, os filhotes tentaram fazer o mesmo — mas foi uma série de tombos, um atrás do outro.

— Não quero mais aprender a voar, disse um deles voltando ao ninho. Prefiro continuar aqui em vez de voar para o tal país quente.

— Quer então morrer entanguido no inverno ou ser assado no espeto pelos meninos?

— Não! Não! gritou o filhote assustado e veio de novo para o exercício.

No terceiro dia já sabiam voar um pouquinho; um deles experimentou pairar no espaço sem bater as asas e o resultado foi um boléu. Felizmente bateu as asas a tempo e evitou de chegar ao chão, onde os meninos, numa gritaria, o estavam esperando.

— Não acha bom darmos umas bicadas nesses meninos? perguntou outro.

— Não, já disse que só façam o que eu mandar. Temos agora de voar em redor da chaminé, da direita para a esquerda e depois da esquerda para direita. Vamos! Um, dois e três!... Bravos! Muito bem! creio que amanhã já poderão acompanhar-me ao brejo das rãs. Quero que se comportem muito direitinhos, para serem admirados, e que andem com imponência, para se tornarem respeitados.

— Mas então iremos daqui sem nos vingarmos desses meninos maus?

— O frio vingará vocês. Enquanto estiverem bem quentes lá no Egito, eles aqui vão tiritar de frio.

— Isso não basta, disse o mais valente dos quatro. Queremos tomar a nossa vingança — e todos concordaram.

O menino mais assanhado em judiar das cegonhas era um de seis anos apenas, um pirralho, mas que parecia enorme para as cegonhinhas.

E as cegonhinhas resolveram que ele pagaria por todos. E tanto amolaram a mãe-cegonha com essa história de vingança, que tempos mais tarde ela lhes deu a licença pedida — mas com uma condição.

— Primeiro quero ver como vocês se comportam no ensaio geral antes da partida para o Egito. Se se comportarem mal, o chefe os atravessará com o bico e ficarei sabendo que os meninos têm razão. Por isso quero que esperem o ensaio. Depois, se tudo correr bem, darei licença de se vingarem dos meninos.

Com medo das bicadas do chefe, as cegonhinhas aplicaram-se aos exercícios com todo o afinco e acabaram por voar tão bem como os pais. Nisto chegou o outono, e os quatro irmãos foram mandados voar sobre florestas e cidades a fim de demonstrarem o seu grau de adiantamento. Foram aprovados com distinção e receberam como prêmio uma rã e uma cobra, petiscos que muito apreciavam.

— Ora graças que chegou o momento da nossa vingança! disseram eles ao chegar.

— Isso mesmo, concordou a cegonha-mãe, e tenho cá um plano excelente. Sei onde fica a floresta na qual as cegonhas vão buscar os bebês que distribuem pela cidade. Porque somos nós que fornecemos os bebês a este povo. Ora, os pais querem sempre bebês bem bonitinhos e nós podemos trazer dos mais lindos para as casas dos meninos que não caçoaram de nós e não nos ameaçaram.

— E para os que nos ameaçaram? Para aquele que queria nos assar ao espeto?

— Para a casa desse levaremos um dos bebês mortos que existem na floresta — e ele terá de chorar quando souber que perdeu um irmãozinho. Será um bom castigo.

— E para o menino bom, que nos defendeu, o Peter?

— Para esse levaremos um casal de lindos bebês, um irmãozinho e uma irmãzinha. E em homenagem a ele vocês, cegonhinhas, ficarão com esse nome — Peter.

E foi assim que apareceram na Dinamarca as cegonhas de nome Peter.

Saturday, 5 September 2026

Saturday's Good Reading: “Sobre as Bodas de um Sexagenário” by Olavo Bilac (in Portuguese).

 

Amas. Um novo sol apontou no horizonte,

E ofuscou-te a pupila e iluminou-te a fronte...

 

Lívido, o olhar sem luz, roto o manto, caída

Sobre o peito, a tremer, a barba encanecida,

Descias, cambaleando, a encosta pedregosa

Da velhice. Que mão te ofereceu, piedosa,

Um piedoso bordão para amparar teus passos?

Quem te estendeu a vida, estendendo-te os braços?

Ias desamparado, em sangue os pés, sozinho...

E era horrendo o arredor, torvo o espaço, o caminho

Sinistro, acidentado... Uivava perto o vento

E rodavam bulcões no torvo firmamento.

Entrado de terror, a cada passo o rosto

Voltavas, perscrutando o caminho transposto,

 

E volvias o olhar: e o olhar alucinado

Via de um lado a treva, a treva de outro lado,

E assombrosas visões, vultos extraordinários,

Desdobrando a correr os trêmulos sudários.

E ouvias o rumor de uma enxada, cavando

Longe a terra... E paraste exânime.

 

Foi quando

Te pareceu ouvir, pelo caminho escuro,

Soar de instante a instante um passo mal seguro

Como o teu. E atentando, entre alegria e espanto,

Viste que vinha alguém compartindo o teu pranto,

Trilhando a mesma estrada horrível que trilhavas,

E ensanguentando os pés onde os ensanguentavas.

E sorriste. No céu fulgurava uma estrela...

 

E sentiste falar subitamente, ao vê-la,

Teu velho coração dentro do peito, como

Desperto muita vez, no derradeiro assomo

Da bravura, — sem voz, decrépito, impotente,

Trôpego, sem vigor, sem vista, — de repente

Riça a juba, e, abalando a solidão noturna,

Urra um velho leão numa apartada furna.

Friday, 4 September 2026

Friday's Sung Word: "Lero Lero" by Benedito Lacerda and Eratóstenes Frazão (in Portuguese).

No Tirol, só se canta assim:
Lero-Leruuu ! Lero-Leruuu ! Lero-Leruuu !
O nosso "Lero-lero" é diferente,
O clima aqui é muito quente,
E a gente, pra desabafar,
Canta, canta, até o sol raiar:

Eu quero, quero, quero,
Quero, quero o teu amor,
Deixa de lero-lero,
Lero-lero, lero-lero, por favor !...
O riso da morena,
Nos prende, como anzol,
O sangue, da morena,
"Abafa o velho sol"

 

You can listen "Lero Lero" sung by Orlando Silva with Fon Fon and His Orchestra here.

Saturday, 29 August 2026

Saturday's Good Reading: "Guarda e Passa” by Guimarães Passos (in Portuguese).

 

... Non me destar, deh! parla basso

Michelangelo

 

Figuremos: tu vais (é curta a viagem),

Tu vais e, de repente, na tortuosa

Estrada vês, sob árvore frondosa,

Alguém dormindo à beira da passagem.

 

Alguém, cuja fadiga angustiosa

Cedeu ao sono, em meio da romagem,

E exausto dorme ... Tinhas tu coragem

De acordá-lo? responde-me, formosa.

 

Quem dorme esquece ... pode ser medonho

O pesadelo que entre o horror nos fecha;

Mas sofre menos o que sofre em sonho.

 

Oh! tu, que turvas o palor da neve,

Tu, que as estrelas escureces, deixa

Meu coração dormir... Pisa de leve.

Friday, 28 August 2026

Friday's Sung Word: "Pombo Correio" by Benedito Lacerda and Darci de Oliveira (in Portuguese).

Soltei meu primeiro pombo correio
Com uma carta para a mulher
Que me abandonou
Soltei o segundo, o terceiro,
O meu pombal terminou
Ela não veio e nem o pombo voltou...

Depois que aquela mulher
Me abandonou
Não sei porque
Minha vida desandou
O canário morreu
A roseira murchou
O papagaio emudeceu
E o cano d'agua furou
E até o sol por pirraça
Invadiu a vidraça
E o retrato dela desbotou...

 

You can listen "Pombo Correio" sung by Gilberto Alves with Benedito Lacerda and his band (1960) here. 

Wednesday, 26 August 2026

Wednesday's Good Reading: “Um Homem Notável” by Graciliano Ramos (in Portuguese)

 

Residia no interior e tinha duas qualidades que lhe adoçaram a vida, e eximiram de inquietações: era branco e analfabeto.

Se não fosse branco, nivelar-se-ia à canalha da roça, mais ou menos cabocla, mais ou menos preta, sentir-se-ia pequeno, disposto à obediência. Se não fosse analfabeto, consumir-se-ia em exercícios inúteis à lavoura do algodão e da mamona, leria romances e telegramas da Europa, alargaria pelo mundo, à toa, pensamentos improdutivos.

Mas como dispunha de olhos azuis, pele clara e cabelos de gringo, viu com desprezo as figuras chatas, encarapinhadas, foscas e oblíquas dos arredores, convenceu-se de que possuía requisitos para dominá-las e arrogou-se direitos muito superiores aos delas. E como não esbanjava tempo nas cogitações distantes que os livros sugerem, observou solícito as coisas próximas e necessárias, as que se podiam juntar e levar ao mercado.

Em consequência prosperou. Passados alguns anos na plantação, largou a fazenda e estabeleceu loja na cidade, onde os negócios lhe correram bem. Cresceu, enferrujou a cara, endureceu a voz, roncou alto aos indivíduos comuns que se avizinhavam do balcão. Não precisando curvar-se a uma banca, estragar a vista em cima de papéis, chegou à velhice sem usar óculos, o espinhaço direto como um fuso.

Evidentemente fugiu de obrigações no selo, o que o isentou da chicana. E impossibilitado de vender a crédito, por não confiar na arte dos guarda-livros, seduziu os fregueses que se esquivavam dos outros negociantes, torciam caminho para evitar o capital e os juros tocaiados em carteiras perversas, em bojudos volumes de escrituração.

Construiu uma casa vistosa, com frontaria de azulejos, encheu-a de móveis complicados e gozou a existência comendo e bebendo em excesso.

Satisfeitas as necessidades fundamentais, adquiriu outras de ordem mais elevada — e vestiu-se nas melhores alfaiatarias da capital, limpou as unhas, expôs no dedo um brilhante caro e graúdo, segurou o relógio com enorme cadeia de ouro, que saía do bolso esquerdo do colete e ia mergulhar no bolso direito, exibindo na casimira negra uma curva amarela de grande efeito.

Esse apuro lhe trouxe modificações interiores: misturou a roupa, o anel e a cadeia às qualidades que lhe tinham rendido a fortuna — e sentiu-se limpo, areado, faiscante.

As exigências de comunicação levaram-no a escolher alguns amigos, convidá-los para longos jantares, abrir-lhes a alma, narrar-lhes o preço dos objetos valiosos que lhe adornavam a residência e a pessoa.

Certos hábitos sociais e econômicos obrigaram-no a ligar-se a uma secretária diplomada pela escola normal. Casou-se com ela e, conseqüentemente, arranjou aptidão para subscrever-se, desenhando as letras em cinco minutos com labor, rasgando a folha, quebrando a pena. Ficou por aí, e nunca percebeu o valor dos símbolos que lhe representavam o nome. Na verdade submeteu-se ao casamento por causa deles. Precisava relacionar-se com o banco, não queria deixar o numerário mofar no cofre, estéril. À falta de miseráveis rabiscos num cheque, prejuízo de tantos por cento.

Havia também a perseguição das cartas. Quando mal se precatava, em conversa com visitantes ou fregueses, erguendo à luz o dedo e o brilhante, fazendo tilintar a corrente de ouro, recebia um envelope e murchava. Abria-o, chateado, procurava em todos os bolsos os óculos inexistentes, fingia examinar a antipática literatura, aproximando-a, afastando-a, desviando-se dos indiscretos, porque receava que ela estivesse de cabeça para baixo. Afugentava o portador:

— Está bem. Depois respondo.

Mas não dava a resposta nunca, para não revelar a estranhos a sua insuficiência, e ficava a matutar no que pretendiam dizer-lhe de longe, numa forma de expressão antinatural e estúpida. Sem se ter familiarizado com ela, manejava centenas de contos em bens de raiz, mercadorias e papel-moeda, o que não sucedia ao juiz, ao promotor e aos escrivães, tipos inferiores.

Casou — e todas as dificuldades se sumiram. Para bem dizer, tornou-se proprietário dos conhecimentos da mulher. Considerou-os coisas dele, como o brilhante, a cadeia, o relógio, os móveis, os semoventes e os imóveis.

Aumentou o vocabulário e começou a utilizar frases desconhecidas, com bastante impropriedade. Esse passatempo deu-lhe satisfação. Livre do desgosto que os bilhetes e as cartas lhe proporcionavam, a caderneta do banco a engordar no cofre, julgou-se perfeitamente feliz e assinou jornais, que à noite escutou, fumando o charuto, a pálpebra cerrada, grave, erguendo a mão esperta, a aprovar, a desaprovar. O seu julgamento era decisivo e enérgico. Presumiu-se dono da prosa dos jornais e das ideias existentes nela. E manifestou-se com rumor e aparato.

Fez discursos, derramou-se em afirmações definitivas, explicou mistérios, não deixou em polêmicas nenhum ponto obscuro. Os homens respeitaram-no, elogiaram-lhe a inteligência.

— Como diabo conseguiu ele tanto dinheiro sem saber ler? Com certeza possuía miolos admiráveis. A condição de analfabeto elevou-o.

 

Rio de Janeiro, maio de 1943.