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Saturday, 18 April 2026

Saturday's Good Reading: “Quemadmodum Deus” by Pope Pius IX (translated into Portuguese)

 

Decreto de S.S. o Papa Pio IX

Proclamando São José como Patrono da Igreja

 

À Cidade e ao Mundo

Da mesma maneira que Deus havia constituído José, gerado do patriarca Jacob, superintendente de toda a terra do Egipto para guardar o trigo para o povo, assim, chegando a plenitude dos tempos, estando para enviar à Terra o Seu Filho Unigénito Salvador do Mundo, escolheu um outro José, do qual o primeiro era figura, fê-lo Senhor e Príncipe de sua casa e propriedade e elegeu-o guarda dos seus tesouros mais preciosos.

De facto, ele teve como sua esposa a Imaculada Virgem Maria, da qual nasceu, pelo Espírito Santo, Nosso Senhor Jesus Cristo, que perante os homens dignou-se ter sido considerado filho de José e lhe foi submisso. E Aquele que tantos reis e profetas desejaram ver José não só viu, mas com Ele conviveu e com paterno afecto abraçou e beijou; e além disso, nutriu cuidadosamente Aquele que o povo fiel comeria como Pão descido dos Céus para conseguir a vida eterna. Por esta sublime dignidade, que Deus conferiu a este fidelíssimo servo seu, a Igreja teve sempre em alta honra e glória o Beatíssimo José, depois da Virgem Mãe de Deus, sua esposa, implorando a sua intercessão em momentos difíceis.

E agora, nestes tempos tristíssimos em que a Igreja, atacada de todos os lados pelos inimigos, é de tal maneira oprimida pelos mais graves males, a tal ponto que homens ímpios pensam ter finalmente as portas do Inferno prevalecido sobre ela, é que os Veneráveis e Excelentíssimos Bispos de todo o mundo católico dirigiram ao Sumo Pontífice as suas súplicas e as dos fiéis por eles guiados, solicitando que se dignasse constituir São José como Patrono da Igreja Católica.

Tendo depois no Sacro Concílio Ecuménico do Vaticano insistentemente renovado as suas solicitações e desejos, o Santíssimo Senhor Nosso Papa Pio IX, consternado pela recentíssima e funesta situação das coisas, para confiar a si mesmo e os fiéis ao potentíssimo patrocínio do Santo Patriarca José, quis satisfazer os desejos dos Excelentíssimos Bispos e solenemente declarou-o Patrono da Igreja Católica, ordenando que a sua festa, marcada para 19 de março, seja de agora em diante celebrada com rito duplo de primeira classe, porém sem oitava, por causa da Quaresma.

Além disso, ele mesmo dispôs que tal declaração, por meio do presente Decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, fosse tornada pública neste santo dia da Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus e Esposa do castíssimo José.

 

Rejeite-se qualquer coisa em contrário.

 

8 de Dezembro de 1870

Friday, 17 April 2026

Friday's Sung Word: "Isso Tem Dono" by Benedito Lacerda and Darci de Oliveira (in Portuguese).

É nossa, tem dono
E ninguém põe a mão
Não, não, não!
É nossa
Toda essa imensa nação
Foi Deus quem nos deu
E abençoou
Esta aquarela que a natureza pintou
(É nossa...)

É grande, é rica, é bonita
Pertence a cinquenta milhões
E ainda tem como irmão
Mais vinte grandes nações
Tem seu destino traçado
E tem como acordo em comum:
Um por todos e todos por um
(É nossa...)

 

You can listen "Isso Tem Dono" sung by Nelson Gonçalves (1942) here.

Friday, 10 April 2026

Friday's Sung Word: "O Diabo da Mulher" by Benedito Lacerda and Ciro Monteiro (in Portuguese).

 

Você que vive sozinho nesse mundo
Não dá satisfação, faz o que quer
Se quiser viver assim por toda vida
Tome cuidado com o diabo da mulher
(ela faz o quer!)

Nelson - Tenho inveja de você
Do seu modo de viver
Você vive neste mundo
Sem ninguém lhe aborrecer

Ciro -
Você está insinuando
Meu amigo, tem razão
Eu não vivo tão sozinho
Tenho alguém no coração
(que bom, que bom!)

Nelson - Se você tem compromisso
E tem tanta liberdade
Me ensine esse feitiço
Pra minha felicidade

Ciro - Ora, essa é muito boa!
Se eu ando sozinho assim
É porque minha patroa
Tem confiança em mim.

 

 
You can  listen "O Diabo da Mulher" sung by Nelson Gonçalves and Ciro Monteiro here.

 

 

Wednesday, 8 April 2026

Wednesday's Excellent Reading: “A grande alternativa de nosso tempo – dead? or red? – na perspectiva da mensagem de Fátima” by Plinio Corrêa de Oliveira (in Portuguese)

This text was written as a preface to the North American edition of the work "The Apparitions and the Message of Fatima According to the Manuscripts of Sister Lucia" by Antonio Augusto Borelli Machado.

 O livro As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia sai agora em edição norte-americana. Publicado no ano de 1967 no Brasil, onde alcançou 19 edições, a obra circulou também em Portugal (em edição local), bem como no mundo hispânico (através de 14 edições em idioma castelhano) e na Itália (quatro edições). Transpôs ele igualmente os umbrais do mundo anglo-saxônico, onde foi transcrito nas revistas Crusade for a Christian Civilization de Nova York e “TFP Newsletter” de Johannesburg. Auguro acolhida também excelente para a presente edição.

Com efeito, a obra do eng. Antonio Augusto Borelli Machado está baseada em uma investigação muito ampla de fontes, e em uma análise penetrante das mesmas. Com os dados assim obtidos e selecionados, ela constitui uma compilação inteligente, ágil e vitoriosa de tudo quanto integra realmente a Mensagem de Fátima. E, a par disso, apresenta uma interpretação a um tempo arguta e prudente, de vários aspectos dela.

Quiseram o autor e a Editora que eu precedesse de um prefácio a presente edição.

Acedendo ao amável convite, pareceu-me que nada poderia interessar tanto ao homem contemporâneo — e notadamente ao leitor norte-americano — quanto relacionar o conteúdo da Mensagem com os problemas da paz e da guerra considerados do ponto de vista da cruel alternativa: — Better red than dead? – Better dead than red?

É o que experimentarei fazer a seguir.

*     *    *

Para uma grande maioria de nossos contemporâneos, é inteiramente claro que essa é a alternativa fundamental ante a qual todos nos encontramos.

A Mensagem de Fátima nos proporciona conhecer com clareza sobrenatural a solução da Providência para essas perguntas angustiantes.

Em 1917, meses antes de o comunismo ascender ao poder na Rússia, e 28 anos antes de a primeira bomba atômica explodir em Hiroshima, a Mensagem de Nossa Senhora transmitida ao mundo por meio dos três pastorezinhos da Cova da Iria contém os elementos de uma resposta cristalina a essas graves interrogações.

De um lado, a Mensagem fala a respeito dos "erros da Rússia" — o comunismo — e indica o meio pelo qual a expansão deste pode ser evitada. Com efeito, o comunismo, ela o aponta como o grande castigo ao qual a humanidade está exposta em razão do declínio religioso e moral dos povos. Ele aparece, portanto, claramente, como um flagelo da Providência para castigar os povos, e especialmente os do Ocidente. E tal flagelo os homens podem evitá-lo se se emendarem da irreligião e da imoralidade em que se acham atolados, e voltarem à profissão da verdadeira Fé, e retornarem à prática efetiva da Moral cristã.

Em termos mais precisos, para que fosse cumprida a vontade de Nossa Senhora, não bastaria — segundo a Mensagem — um grande número de conversões pessoais. Era necessário que as várias nações, cada qual como um todo, notadamente as do Ocidente — a seu modo ele também tão devastado pela irreligião e pela imoralidade — voltassem à profissão da verdadeira Fé e à prática dos preceitos morais perenes do Evangelho.

A Mensagem não se limita, pois, a apontar o perigo, mas indica o modo de obviá-lo. Este modo não é morrer, muito menos aceitar de ficar comunista. Ele consiste em seguir a vontade de Deus, em atender a Mensagem da Mãe d’Ele e de todos nós.

Entre essas condições — é preciso não esquecer — está a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, nos termos em que Nossa Senhora a pediu.

Porém a Mensagem ainda vai mais longe. Ela adverte de que se isto não for feito, a Justiça de Deus não mais reterá o castigo iminente: “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.”

Importa notar que a Mensagem não afirma que, cumprido quanto a Rainha do Céu e da Terra deseja para aplacar a cólera de Deus, o flagelo do comunismo será afastado do mundo sem luta, pelo menos incruenta. Ela deixa ver, isto sim, intervenções admiráveis da Providência nos acontecimentos humanos que assegurem a vitória sobre o flagelo comunista.

Mas, ao mesmo tempo, deixa aberta a porta para a hipótese de que os homens tenham que dar seu contributo nessa luta, participando eles mesmos, heroicamente, dos grandes prélios nos quais a ajuda soberana e decisiva da Virgem alcançará a vitória.

Com efeito, a Mensagem exclui a hipótese de uma vitória definitiva do comunismo: se os homens atenderem ao apelo da Virgem, o comunismo será vencido sem castigo para eles; se não atenderem a esse apelo, o comunismo flagelará os homens, mas também acabará vencido.

Em uma ou outra hipótese, a vitória será da Mãe de Deus.

Qual a relação entre esta autêntica conversão da Rússia e a extinção do flagelo comunista? — É evidente. Está no Kremlin o principal foco de propaganda comunista no mundo. A conversão da Rússia traria consigo a paralisação dessa força.

Convém notar que, na perspectiva de Fátima, não são principalmente os armamentos, por mais poderosos que sejam, que evitarão o castigo. A dissuasão eventualmente alcançada pelo armamentismo das nações do Ocidente pode ser um meio legítimo e necessário para prevenir a guerra e, portanto, para alcançar o prolongamento da paz.

Contudo, a expansão do comunismo é descrita por Nossa Senhora como uma punição que resulta dos pecados dos homens. E esta punição não será evitada se os homens não se converterem.

Pode ocorrer — isto sim — que um dos meios pelos quais o castigo desabe sobre os homens impenitentes venha a ser um anti-armamentismo incondicional, de caráter puramente emocional, e, portanto, imprevidente, que estimule toda sorte de agressões e de ataques de um adversário cada vez mais armado.

Entretanto — note-se bem — o modo preferido pela Providência para fazer cessar o flagelo comunista, de nenhum modo é uma guerra. Esse modo consiste na emenda dos homens, no cumprimento do que a Mensagem pede e na conversão da Rússia.

Pode ser que a Providência queira servir-se de uma guerra para preparar as condições para uma conversão da Rússia. Porém, isto não está declarado na Mensagem. Em todo caso, a simples vitória militar sobre a Rússia não resolverá o problema, nem afastará os homens da alternativa “red” – “dead”. A Providência quer ir mais longe. Ela quer converter a Rússia.

Nem a Providência precisa de uma guerra para a conversão da Rússia. Na hipótese de uma conversão do Ocidente, parece mais provável que a Providência prefira levar isto a cabo por meios pacíficos, persuasivos, religiosos. Evidentemente, o que a Mensagem promete é a conversão da Rússia à Religião Católica, com a consequente posição firmemente anticomunista que a Hierarquia católica tomava compactamente ao tempo em que a Mensagem de Fátima foi dada aos homens.

*     *    *

Qual a relação entre esta autêntica conversão da Rússia e a extinção do flagelo comunista? — É evidente. Está no Kremlin o principal foco de propaganda comunista no mundo. A conversão da Rússia traria consigo a paralisação dessa força.

Ademais, uma Rússia convertida se abriria pronta e inteiramente para o Ocidente. Seria então possível a todos os homens conhecer muito mais objetiva e profundamente do que agora o abismo de males, de natureza espiritual e temporal, em que estas muitas e longas décadas de aplicação do regime comunista lançaram a infeliz Rússia e seus satélites. O que abriria muito mais os olhos dos povos do Ocidente para o que há de falso na propaganda comunista, imunizando-os contra ela.

Por fim, e mais uma vez, insisto em que, na perspectiva de Fátima, a conversão da Rússia tem como condição prévia uma conversão do Ocidente. Dessa conversão sincera e profunda, como obviamente a Santíssima Virgem a deseja, resultará que o Ocidente será, já de si, totalmente refratário ao comunismo.

Fátima não nos fala da China, do Vietnã, do Cambodge, nem da desdita dos demais povos sob jugo comunista. Mas é óbvio que Nossa Senhora, a qual tão admiravelmente terá protegido sem guerra um Ocidente convertido, não permitirá que essas grandes e desditosas nações fiquem à margem da efusão de graças que converterão o Ocidente e a Rússia com seus satélites (pois estes não terão condições de se manterem em regime comunista dentro de uma Europa convertida).

Também para os demais povos, para as nações não mencionadas nas revelações de Fátima, a virtude da esperança cristã nos proporciona — eu diria que nos impõe — a certeza de que lhes propiciará os meios de romperem seus grilhões, bem como de conhecerem e praticarem a verdadeira Fé.

*     *    *

É bem de ver que essas várias considerações despertarão em certos espíritos uma atitude de ceticismo e de desdém.

Os homens sem Fé — e seus irmãos, isto é, os que têm pouca Fé — sorrirão diante do que lhes parecerá uma simplificação desconcertante, e até infantil, dos problemas hodiernos, que empurram o Ocidente para o comunismo e eventualmente para a guerra. Procurar a solução deles na cândida Mensagem anunciada por três pastorezinhos analfabetos, lhes parecerá ridículo. Mais talvez do que isso, demencial.

Não nego a complexidade inextricável dos problemas contemporâneos. Penso, pelo contrário, que essa complexidade é tal, que eles me parecem insolúveis por mão humana.

E isso tanto mais quanto a intervenção dos homens sem Fé, ou de pouca Fé, nas pesquisas e debates destinados a resolver tais problemas, os complica ainda mais.

Superficialidade? — Ela me parece presente. Não, porém, em nosso campo, mas precisamente no dos céticos.

Com efeito, vejo-os engajados em uma concepção o mais das vezes profundamente ignorante, e sempre apriorística e superficial, do que seja a religião, do papel dela na vida das sociedades, dos homens e dos indivíduos, e na avaliação das potencialidades e virtualidades dela, fortíssimas e insubstituíveis, para a solução dos problemas que os céticos procuram em vão resolver.

Não está aqui a ocasião adequada para explanar ainda mais este amplíssimo assunto.

Não resisto, porém, ao desejo de fazer ver a eventuais leitores céticos algo dessas insubstituíveis possibilidades da religião, de pôr ao alcance deles como que um buraco de fechadura através do qual divisem algo desse vastíssimo horizonte.

    Santo Agostinho traça o perfil da sociedade verdadeiramente cristã — a Cidade de Deus — e dos benefícios que daí resultam para o Estado: imagine-se — escreve ele — “um exército constituído de soldados como os forma a doutrina de Jesus Cristo, governadores, maridos, esposos, pais, filhos, mestres, servos, reis, juízes, contribuintes, cobradores de impostos como os quer a doutrina cristã! E ousem ainda [os pagãos] dizer que essa doutrina é oposta aos interesses do Estado! Pelo contrário, cumpre-lhes reconhecer sem hesitação que ela é uma grande salvaguarda para o Estado quando fielmente observada” (Epist. 138 al. 5 ad Marcellinum, cap. II, n.º 15).

A doutrina católica mostra que, pelo infeliz dinamismo da natureza humana decaída em consequência do pecado original, como da operação do demônio e de seus agentes terrenos na medida em que o homem se afasta da Fé, tende a um modo de ser e de agir oposto ao que a Fé ensina. Quanto maior a distância, tanto maiores as transgressões. Algo como a lei de Newton. A experiência aliás o confirma. E de modo muito particular em nossos dias.

Qual a escola política, social ou econômica que poderia evitar, sem o auxílio da Religião, a explosão final de uma sociedade que, impelida pelo próprio dinamismo da descrença e da corrupção, chegasse à transgressão total dos princípios em que se funda a Cidade de Deus descrita por Santo Agostinho?

Sem que os homens voltem a esses princípios salvíficos, não há como evitar — para os indivíduos e para as sociedades — uma deterioração global, de natureza e proporções indefiníveis, mas tanto mais temíveis quanto maior duração e profundidade tenha o processo de degenerescência.

Que os homens ou as nações menos afetadas por essa deterioração queiram defender-se contra os cometimentos dos homens e das nações mais afetadas, que para isso se armem em uma atitude vigilante, suasória, amiga da paz, mas em atitude também pronta à legítima defesa vigorosa e vitoriosa: nada mais justo.

Porém, tais homens, tais nações não conseguirão estancar só por isso os fermentos de destruição postos em suas entranhas pelo neopaganismo moderno que ingeriram.

Esta é uma afirmação implícita em toda a Mensagem de Fátima.

Diante desta consideração, percebe-se melhor um aspecto dos castigos: é seu caráter saneador, regenerador e reordenativo. Intervindo ao longo de um infindável processo de degradação tanto individual quanto coletivo, o qual expõe aos maiores riscos a salvação de incontáveis almas, o castigo altera a situação, abre os olhos dos homens para a gravidade de seus pecados, os eleva até as altas paragens da contrição e da emenda. E, por fim, lhes dá a verdadeira paz.

Quantos perecerão, infelizmente. Mas terão melhores condições para morrer na graça de Deus, como escreveu São Pedro sobre os que morreram durante o dilúvio (cfr 1 Pt. III, 20).

Morrer: oh! dor. Mas as almas nobres sabem que a morte não é necessariamente o mal maior. Disse-o Judas Macabeu: “Melhor é para nós morrer na guerra do que ver os males do nosso povo e das nossas coisas santas” (1 Mac. III, 59).

Em termos atuais, é preferível morrer a ficar vermelho.

Mas melhor ainda é viver. Sim, viver da vida sobrenatural da graça nesta Terra, para depois viver eternamente na glória de Deus.

A conversão da Rússia depende da conversão sincera e profunda do Ocidente

 

Essas últimas são considerações de bom senso, facilmente acessíveis aos espíritos desprevenidos e equitativos.

Encontrarão elas algum fundamento na Mensagem? — Não me parece.

Esta narra o que fará Deus para punir os pecados de uma humanidade tenazmente impenitente ao longo das décadas em que a Mensagem reboou pelo mundo sem converter os homens. Mais especificamente, sem converter os católicos, pois é com as orações deles, suas penitências e sua emenda de vida que a Virgem Santíssima conta de modo todo especial para obter do Divino Filho a suspensão dos efeitos de sua cólera, e o advento do Reino d’Ela. A mensagem nada diz do que a Providência fará em favor dos justos — dos que optaram pela fidelidade às promessas de Nossa Senhora — durante os dias terríveis da punição, nem o que nessa ocasião deseja deles.

Bem entendido, não aludo aqui senão à parte pública da Mensagem. Nenhuma conjectura conheço absolutamente inquestionável sobre o que realmente contém a parte secreta da Mensagem, a qual só a Santa Sé conhece... [N.B.: Lembrando que este prefácio foi redigido em 1985].

Seja-me lícito externar aqui quanto deixa tristes e perplexos incontáveis fiéis, dos mais devotos dentre os “fatimitas”, em vista da eventualidade de que os homens possam não conhecer esta parte ainda não revelada, mesmo quando ela poderia presumivelmente dar alento aos justos e contrição aos extraviados.

Com efeito, não é fácil compreender como a Mãe de Misericórdia, tão empenhada em ajudar por meio da Mensagem a todos os homens, não tenha tido uma particular palavra de afeto, de estímulo e de esperança para aqueles a quem Ela reservou a árdua e gloriosa missão de se Lhe conservarem fiéis nesta terrível conjuntura.

Nada impede admitir que essas palavras se encontrem na parte ainda não revelada do Segredo de Fátima.

 

Essa consideração final me desviou do curso da exposição que vinha seguindo. Pouco resta a dizer sobre ela.

Continuando a aprofundar a hipótese da impenitência dos homens e do castigo, o contexto da Mensagem nos induz a pensar que, se tal se der, os castigos serão pelo menos de duas ordens: guerras — e pensamos que entre essas se devem incluir não só os conflitos entre os povos, mas também as guerras civis de facção contra facção dentro de um mesmo povo — e cataclismos ocorridos na própria natureza.

Essas guerras internas terão caráter ideológico? Constituirão uma luta entre fiéis e infiéis de todo gênero: hereges ou cismáticos, larvados ou declarados, grupos ou correntes de profissão não cristã, ateus etc.? Ou serão guerras sem conotação ideológica pelo menos oficial (como o conflito franco-prussiano de 1870, ou a I Guerra Mundial)?

A distinção entre guerras e cataclismos parecia muito clara em 1917, quando a Mensagem foi comunicada aos homens. Pois se afigurava então impossível que os homens provocassem cataclismos, os quais pareciam claramente destinados a resultar de meros atos da Providência, atuando de modo justiceiro sobre os vários elementos da natureza.

Na realidade, essa distinção continua válida, mas desde que se lhe faça a ressalva de que, com a dissociação do átomo, o homem adquiriu a possibilidade de provocar cataclismos de proporções incalculáveis. Sem que, ao mesmo tempo, tenha adquirido o poder de frear esses cataclismos.

Em consequência, a catástrofe atômica, provocada eventualmente por uma guerra filha do pecado, produziria só por si os castigos cósmicos que a Mensagem deixa entrever. Mas é possível também que aos efeitos da hecatombe atômica se juntem outras perturbações naturais ordenadas por Deus.

Uma observação final ainda está por ser apresentada.

Dentro da perspectiva fatimita, a verdadeira garantia contra catástrofes que assolem a humanidade está muito menos (e, em certa perspectiva, de todo não está...) em medidas de desarmamento, tratados de paz etc., do que na conversão dos homens.

Ou seja, se estes não se converterem, os castigos virão, por mais que os homens se esforcem por evitá-los com meios outros que não essa conversão.

Pelo contrário, se se emendarem, não só Deus afastará deles a plenitude de sua cólera vingadora, como haverá entre eles todas as condições próprias a promover uma paz verdadeira e durável. A paz de Cristo no Reino de Cristo. Especificamente a paz de Maria no Reino de Maria.

Dentro da perspectiva fatimita, a verdadeira garantia contra catástrofes que assolem a humanidade está muito menos (e, em certa perspectiva, de todo não está...) em medidas de desarmamento, tratados de paz etc., do que na conversão dos homens.

 

Espero que essas várias reflexões, relacionando com a Mensagem de Fátima problemas de atualidade suprema, ajudem o leitor a tirar todo o proveito da compilação fatimita, da mais flagrante oportunidade, que o eng. Antonio Augusto Borelli Machado nos apresenta em seu estudo, já tão conhecido no Brasil e no mundo ibero-americano, e que merece sê-lo também no mundo inteiro.

Saturday, 4 April 2026

“Não Há Nenhum Noite Como Esta” by Gustavo Corção (in Portuguese).

 

Não há em todo o ano litúrgico, que é o vôo circular em que a Igreja contempla amorosamente os mistérios de Cristo, momento mais jubiloso e mais belo em que, antes de acender o Círio Pascal, o Diácono canta o “Exultet Jam Angélica Turba Caelorum...” que é, sem dúvida alguma, o maior primor que os homens, com inspiração divina e engenho próprio jamais lograram compor em toda a história do cristianismo e do mundo.

Quem já adulto, e já doloridamente vivido, teve a felicidade de ouvi-lo pela primeira vez no esplendor do Movimento Litúrgico, pôde apreciar, nessa adamantina condensação, todo o apuro, todo o requinte de infinito bom-gosto que a Igreja, ex abundantia operis, trouxe à civilização, e até hoje guarda a lembrança do estremecimento da alegria que nessa noite sentiu como antecipação de todas as promessas de Deus:

O vere beata nox, quae sola meruit scire tempus et horam in qua Christus ab inferis ressurrexit! – Ó bem-aventurada noite, única que mereceu conhecer o dia e a hora em que Cristo ressuscitou dos mortos. Inebriada de alegria a Igreja delira, e chega à amorosa inconveniência, à desmedida loucura de cantar:

O certe necessarium Adae peccatum... O felix culpa... – Ó necessário pecado de Adão...Ó culpa feliz.

E depois, agora mais senhora de si, gravemente repete a grande história do Verbo de Deus desde a madrugada da Criação, desde a promessa feita a Abraão, e através das palavras dos profetas até aquela outra madrugada do primeiro dia da semana em que Maria Madalena e a outra Maria vieram visitar o sepulcro.

Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e Salomé, haviam comprado aromas para embalsamá-Lo, e pelo caminho diziam: “Quem nos levantará a pedra do sepulcro?”

Chegadas, viram a pedra rolada, e então as duas mulheres voltaram correndo para anunciar aos apóstolos o que viram e ouviram do anjo que estava ao lado do sepulcro: Ele ressuscitou!

E daí em diante começaram as páginas mais transluminosas, e mais banhadas de alegria das Sagradas Escrituras. Cada quadro tem uma luz suave e mais penetrante do que todo o alvorecer da Criação.

Agora num relâmpago, vemos Maria Madalena voltar-se para o vulto que julgava ser o do jardineiro, e com ela ouvimos:

 - Maria! E logo a resposta de adoração: - Raboni!

Mais adiante é no Cenáculo, onde estavam fechados e tristes os apóstolos, que Jesus ressuscitado aparece e lhes diz: “A paz seja convosco.”

E agora é na estrada de Emaús que dois discípulos caminham conversando a respeito de tudo o que havia acontecido, e à certa altura percebem que alguém caminha com eles, e lhes pergunta: “De que falais enquanto caminhais?” Os viandantes ficaram tristes, e o que se chamava Cleofas respondeu ao desconhecido: “Serás tu, forasteiro em Jerusalém, o único a ignorar o que se passou nestes dias?” “O que aconteceu?”, perguntou o desconhecido. E os peregrinos contaram a história de Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus, que os príncipes dos sacerdotes e magistrados entregaram para ser condenado à morte, e morte de cruz; e disseram que estavam tristes porque esperavam que ele libertasse Israel, e agora já três dias passaram... É verdade que algumas mulheres, que se achavam conosco, dizem que seu corpo desapareceu do sepulcro e que um anjo anunciou que Ele estava vivo! Mas eles ainda duvidavam...

Disse-lhes então o desconhecido: “Ó homens sem inteligência, como tarda vosso coração em crer o que os Profetas anunciaram!” E começando por Moisés, percorrendo todos os Profetas, o desconhecido ia explicando as palavras de Deus à medida que se aproximava de Emaús. O desconhecido deu a entender que tomava outro caminho, mas a pedido dos peregrinos entrou com eles num albergue. “Fica conosco!” pediam os peregrinos, e Jesus, com eles à mesa, tomou o pão, benzeu-o, partiu-o, e deu-lhes, e então seus olhos se abriram, mas Jesus desaparecera.

Esta pequena história que resiste a todos os maltratos da humana grosseria, tem inspirado e animado o engenho de todas as artes humanas, e poderá ainda, até o fim do mundo, ser cantada, contada, pintada e lavrada sem que a infinita profundidade de sua beleza venha a se exaurir. Por mim, neste momento, sinto com especial comoção a beleza da ação de graças dos dois peregrinos quando retomam a caminhar: — “Lembras-te como nosso coração se abrasava quando Ele, no caminho, nos explicava as Escrituras?”.

Peçamos nós a esses santos peregrinos que nos obtenham de Deus a mesma graça de sentir arder o coração quando ouvirmos a voz de Cristo na voz da Igreja a nos explicar os formidáveis mistérios da Pátria.

Diz-nos São Paulo na Vigília Pascal: “Se morrermos com Cristo, com Ele ressuscitaremos e viveremos". Mas nosso tardo coração sente-se amedrontado diante de tão excessiva promessa de Deus.

Na verdade, na verdade, todos os dons de Deus e todas as suas promessas são excessivas, e tamanho clarão de mistério às vezes mais nos ofusca e nos cega do que nos ilumina. “Creio... na ressurreição da carne...” balbucio eu envolvendo este artigo no mesmo global ato de fé que tem sua razão de ser na Palavra de Deus. Balbucio e tremo quando considero esta pobre carne já tão desgastada, “comme um vieux mouton qui a perdu sa laine aux ronces du chemin” – como um velho carneiro que perdeu sua lã nos espinhos do caminho. Como poderá resplender e reflorescer este pobre corpo já tão próximo do desmoronamento total?

Afina teu ouvido, ó tardo coração, e pondera que nesta Vigília Pascal, por sua Igreja, Cristo nos rememora todas as grandezas de Deus desde a criação até esse momento único em que a chama do Círio representa a grande transição, a maravilhosa travessia, a Páscoa que nos transporta de um desastrado mundo para o mundo dos ressuscitados. E pondera bem, alma de minh’alma, que um só ato vivificado pela graça de Cristo é maior do que todas as galáxias; e que as vezes que do pecado saíste por um ato de contrição e pelo perdão sacramental somam maior total de maravilhas do que todo o Universo criado.

Na verdade, na verdade tu te deténs demais na excessiva promessa anunciada pelo Exultet porque ainda te agarras demais à ideia de que teu corpo com sua variedade de órgãos e funções, é a maior maravilha de teu ser. No que te enganas demais, alma de minha alma, porque a maior maravilha de meu ser é a graça da adoção, é o favor sobrenatural que Deus nos concede: o de podermos chamá-lo de Pai Nosso...

E nessa ordem de coisas, que importa infinitamente mais do que todas as estrelas do céu, todas as flores da terra e todos os peixes do mar, nessa ordem nova ou nessa nova criação – tudo é graça.

 


Happy Easter to All!









Friday, 27 March 2026

Friday's Sung Word: "O Relógio da Central" by Benedito Lacerda and Eratóstenes Frazão (in Portuguese).

O relógio da Central
(Meu companheiro!)
É um grande guia
Ele que marca o horário
Deste humilde operário
Que vai trabalhar todo dia

Quando a tarde
Nos envolve com seu véu
Levanta para o céu
O braço protetor
Transmitindo à Virgem
Com fervor
A prece do trabalhador.

 

 
You can listen  "O Relógio da Central" sung by Nelson Gonçalves (1947)

Friday, 20 March 2026

Friday's Sung Word: "Põe a mão na consciência" by Benedito Lacerda and Gastão Viana (in Portuguese).

Põe a mão na consciência
E faz favor de me dizer
Que você teve razão 
Em tal modo de proceder
Me abandonou sem razão 
Me fez sofrer
E me deixou na solidão

Gastei meu dinheiro todo
Pra fazer você feliz
E você gastava à rodo
Bancando a imperatriz
Teve muita paciência
(Ora se teve!)
O meu pobre coração
Põe a mão na consciência
E vê se eu não tenho razão.

 

You can listen "Põe a Mão na Consciência" sung by Nelson Gonçalves with Passos and His Orchestra  (1942)  here.


Wednesday, 18 March 2026

Wednesday's Good Reading: a letter from King John III Sobieski to his wife, after the Battle of Vienna (translated into Portuguese).

 You can read the original source here.

Deus e Nosso Senhor, bendito para sempre, concedeu vitória e glória ao nosso povo como jamais os séculos passados ouviram falar. Toda a artilharia, todo o acampamento e riquezas incalculáveis caíram em nossas mãos. O inimigo, tendo coberto de cadáveres as trincheiras, os campos e o acampamento, foge em confusão.

Camelos, mulas, gado e ovelhas que estavam pelos seus flancos apenas hoje começaram a ser capturados por nossos soldados; junto deles, turcos são conduzidos diante de nós como rebanhos. Outros, especialmente renegados, montados em bons cavalos e bem vestidos, fogem deles e vêm para o nosso lado.

Coisa tão extraordinária aconteceu que hoje mesmo entre o povo da cidade e no nosso acampamento havia temor, pois julgavam que o inimigo voltaria. Deixaram para trás mais pólvora e munição do que se avaliaria em um milhão.

O grão-vizir fugiu tão precipitadamente que mal escapou num único cavalo e com uma única roupa. Eu tornei-me seu sucessor, pois em grande parte todos os seus esplendores vieram parar às minhas mãos. Isso ocorreu porque, estando eu na linha da frente e avançando logo atrás do vizir, um de seus camareiros se entregou e mostrou suas tendas — tão vastas como Varsóvia ou Lviv dentro das muralhas.

Tendas e carros há em abundância, et mille d’autres galanteries fort jolies et fort riches¹, embora ainda não tenhamos visto tudo. Il n’y a point de comparaison avec ceux de Chocim². Alguns simples aljavas incrustados de rubis e safiras valem vários milhares de ducados.

Não poderás dizer-me, minha querida alma, como costumam dizer as mulheres tártaras aos maridos que regressam sem espólio: “Não és valente, pois voltaste sem presa.” Quem conquista precisa estar na linha da frente.

Tenho também o cavalo do vizir com todo o seu arreio. Seu kiahya (o primeiro homem depois dele) foi morto, e também vários paxás. Sabres de ouro abundam pelo exército, bem como outros equipamentos de guerra. A noite impediu-nos de continuar a perseguição e também o fato de que, ao fugir, eles se defendem ferozmente et font la plus belle retirade du monde³.

Abandonaram seus janízaros nas trincheiras, onde durante a noite foram mortos. Era tal a arrogância e orgulho desses homens que, enquanto uns lutavam conosco no campo, outros assaltavam a cidade.

Eu calculo que fossem trezentos mil homens, sem contar os tártaros. Outros calculam trezentas mil tendas. Há dois dias e uma noite que saqueiam o acampamento; gente da cidade já saiu para recolher coisas, e mesmo assim sei que nem em uma semana terminarão.

Hoje estive na cidade, que não poderia ter resistido mais de cinco dias. O olho humano jamais viu coisas como aquelas minas que abriram ali: bastiões enormes e altíssimos foram transformados em rochas terríveis e ficaram tão destruídos que não podiam mais resistir.

Quando o inimigo começou a fugir e foi rompido — pois coube a mim enfrentar o próprio vizir, que conduziu todas as suas forças contra a minha ala direita — os príncipes vieram até mim, abraçando-me e beijando-me no rosto; os generais beijavam minhas mãos e meus pés.

Oficiais e regimentos de cavalaria e infantaria gritavam: “Ach, unser brawe Kenik!”⁴

Depois estive em duas igrejas. O povo inteiro beijava minhas mãos, meus pés e minhas roupas; outros apenas me tocavam, clamando que queriam beijar aquela mão tão valente.

Todos queriam gritar “Vivat!”⁵, mas parecia que temiam seus oficiais.

Hoje marchamos atrás do inimigo rumo à Hungria. Tal é a bênção de Deus sobre nós, e por isso que lhe sejam dadas honra e glória eternamente.

Escrevi também ao Roi très Chrétien⁶ para anunciar la bataille gagnée et le salut de la chrétienté⁷.

O imperador aproxima-se pelo Danúbio e deseja chegar à cidade pour chanter le Te Deum⁸.

Este é o melhor boletim que poderia haver; dele se pode fazer uma gazeta para todo o mundo, escrevendo que c’est la lettre du Roi à la Reine⁹.

Agora devo terminar, beijando e abraçando de todo o coração minha belíssima Marysieńka.

A Monsieur le Marquis e à minha irmã envio mes baisements¹⁰.

 

Notas

1.      et mille d’autres galanteries fort jolies et fort riches — francês: “e mil outras galanterias muito bonitas e muito ricas”.

2.      Il n’y a point de comparaison avec ceux de Chocim — francês: “não há comparação com os de Chocim”, referência à Batalha de Khotyn.

3.      et font la plus belle retirade du monde — francês: “e fazem a mais bela retirada do mundo”.

4.      Ach, unser brawe Kenik! — alemão (grafia antiga): “Ah, nosso bravo rei!”.

5.      Vivat! — latim: “Viva!” ou “Longa vida!”.

6.      Roi très Chrétien — “Rei Muito Cristão”, título tradicional do rei da França (na época Louis XIV).

7.      la bataille gagnée et le salut de la chrétienté — francês: “a batalha vencida e a salvação da cristandade”.

8.      pour chanter le Te Deum — “para cantar o Te Deum”, hino litúrgico de ação de graças.

9.      c’est la lettre du Roi à la Reine — “esta é a carta do rei à rainha”.

10.   mes baisements — francês: “meus beijos”.