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Wednesday, 7 January 2026

Wednesday's Good Reading: “O Pinheirinho” by Hans Christian Andersen (translated into Portuguese by Monteiro Lobato).

 

No de uma floresta havia nascido um pinheirinho.

A natureza o plantara num lugar arejado onde podia tomar bastante sol, e o rodeara de outros pinheiros. De todos, porém, era ele o menor. E isto o entristecia, tornando-o ansioso por crescer e igualar-se aos seus companheiros. Pouca importância dava à luz do sol, às brisas leves que sopravam e às crianças que passavam por ali em busca de framboesas e outras frutas silvestres. Era comum virem as crianças com cestinhas cheias de framboesas sentar-se junto ao pequeno pinheiro, exclamando alegres: "Que linda arvorezinha!" Mas ele se conservava indiferente e insensível a qualquer elogio.

Passando um ano viu-se crescido de mais um nó, e o mesmo se deu no ano seguinte, pois os pinheirinhos crescem aos nós, de ano em ano. Calcula-se a idade deles pelo número de nós que mostram no tronco.

— Por que não sou do mesmo tamanho dos meus companheiros? suspirava o pinheirinho. Como não há de ser bom poder contemplar o mundo lá de cima! Pássaros viriam construir ninhos em meus galhos e quando o vento soprasse eu me curvaria com a mesma dignidade dos meus irmãos.

Nada o agradava. Nem as carícias do sol, nem os passarinhos, nem as nuvens que sobre ele passavam pela manhã e à tardinha. Durante o inverno, quando o alvo manto da neve atapetava o solo, acontecia muitas vezes surgir alguma lebre espavorida que na carreira saltava por cima dele. Como isto o acabrunhava! Mas decorridos mais dois invernos já a lebre se via obrigada a passar sob os seus galhos.

— Oh, como desejo crescer, crescer, tornar-me alto, grande como os outros! almejo tanto neste mundo como ser grande!

Com a entrada do outono apareciam na floresta homens de machado em punho, em busca das árvores mais desenvolvidas. Como isto acontecesse regularmente todo os anos, o pinheirinho, já agora bem crescido, tremeu

ao pensar que talvez viesse a ter o mesmo destino dos outros irmãos seus, que tombavam fragorosamente a golpes de machado. Os lenhadores lhes aparavam os galhos, deixando os troncos tão nus e compridos que mal se poderia reconhecer neles os esbeltos pinheiros de horas antes. Eram em seguida postos sobre rodas e puxados para fora da floresta.

Para onde iriam? Que destino lhes era reservado?

Na primavera, depois que as andorinhas e as cegonhas retornavam dos países quentes, o pinheirinho lhes perguntava ansioso se sabiam o que fora feito dos pinheiros destruídos e se porventura haviam encontrado algum pelo caminho. Nada respondiam as andorinhas; mas as cegonhas, após alguma reflexão, moviam a cabeça afirmativamente, dizendo:

— Quando deixamos o Egito vimos no mar navios novos, todos ostentando soberbos mastros. Esses mastros devem ser os pinheiros levados daqui, pois tinham o cheiro resinoso. Parabéns por ter irmãos de tanta imponência.

— Ah, como desejo ser grande para atravessar o mar! Como é esse mar? Com que se parece?

— Levaríamos muito tempo para explicar, respondiam as cegonhas alçando voo.

— Goze a mocidade, murmuravam os raios de sol que vinham brincar nas agulhas dos seus galhos. Goze a mocidade enquanto é tempo.

E o vento perpassava beijando o pinheirinho, e o orvalho punha nele as suas lágrimas prateadas; mas a árvore continuava insensível, sem os compreender.

Ao aproximar-se o Natal vários pinheirinhos ainda pequenos foram cortados; eram arbustos menores que aquele ambicioso que só pensava em conhecer novas terras. A esses os lenhadores levavam para fora da floresta sem lhes podar os galhos.

— Para onde irão? perguntava a si mesmo o pinheirinho. Menores do que eu! E por que não lhes cortaram os galhos? Que irão fazer com eles?

— Nós sabemos, nós sabemos, porque espiamos pelas janelas das casas da cidade, chilreavam os pardais. Sabemos para onde vão. Ah, se você pudesse ver como os homens os enfeitam dos mais lindos objetos dourados e prateados, com flocos de algodão e velinhas acesas, certo que morreria de inveja.

— Que mais? Continue, pediu o pinheirinho, ansioso por novidades.

— Foi só o que vimos, mas valeu a pena.

— Quem me dera ter o mesmo destino! exclamava a árvore. Deve ser melhor do que cruzar os mares num navio. Estou aflito para que o Natal chegue. Só assim, grande como já estou, também serei levado. Como não deve ser bom estar numa sala toda iluminada, recoberto de coisas bonitas! E depois... depois sem dúvida alguma esperam-me agradáveis surpresas, pois do contrário não seria tão ricamente adornado. Quem me dera saber o que me acontecerá depois! Estou tão cansado de esperar? Por que demora tanto o dia da minha partida?

— Goze a mocidade! sussurravam as brisas. Goze os dias felizes e calmos que está vivendo ao ar livre, diziam os raios de sol.

Mas o pinheirinho, à medida que crescia, mais e mais se impacientava para sair logo da floresta. Durante todo o verão e mesmo durante o inverno manteve intacta sua verde roupagem, e os que o viam elogiavam-no admirados: "Que linda árvore!" Chegado o Natal o nosso pinheiro viu, enfim, realizar-se o seu sonho. Foi o primeiro a receber os impiedosos golpes do machado. E tombou com um gemido, sentindo como um desmaio. Esqueceu das honrarias que o aguardavam e teve saudade de deixar para sempre o lugar onde nascera e crescera. Sabia perfeitamente que nunca mais voltaria a rever seus companheiros, nem a grama, nem as flores que desde o começo da vida o cercavam. E talvez nem mesmo os pássaros...

A viagem esteve longe de ser agradável. Cobrou alento, porém, ao ver-se retirado do caminhão juntamente com outros pinheiros do mesmo porte. Perto ouviu alguém dizer:

— Este é o mais bonito. Ficaremos com ele.

Dois criados, a uma ordem do amo, levaram-no para um belo salão. Nas paredes notou quadros grandes e pequenos e ladeando a chaminé viu lindos vasos de porcelana; também viu cadeiras de balanço, poltronas, sofás de seda, mesas com livros de figuras, brinquedos e caríssimos presentes espalhados pelo espaçoso cômodo. O pinheirinho, colocado num barril pintado de verde e cheio de areia, foi posto bem no meio da sala. Era de ver-se como estava trêmulo.

Que iria acontecer? Tanto os criados como várias moças da casa puseram-se a enfeitá-lo cuidadosamente, pendurando-lhe pelos galhos saquinhos de confeitos, maçãs douradas, pacotinhos de nozes, dezenas de velinhas brancas, azuis e vermelhas. Sob a folhagem verde colocaram bonecas, que mais pareciam criaturas vivas, de tão bem feitas. O pinheirinho jamais imaginara que pudesse tornar-se tão lindo, sobretudo depois que bem no topo uma das moças lhe ajeitou uma linda estrela dourada.

— À noite, quando iluminado, vai ficar ainda mais belo, diziam todos.

— Quem me dera já fosse noite! suspirava a árvore. Por que não acendem as velinhas? E depois? Que acontecerá depois? Ah, se os meus companheiros da floresta pudessem ver-me, com certeza haviam de morder-se de inveja. E os pardais? Virão espiar-me pela janela? E que será de mim? Criarei raízes e passarei aqui o inverno e o verão?

Tudo isto perguntava-se ele a si mesmo, e tal era a sua impaciência que principiou a sentir dor de casca; para um vegetal, dor de casca é o mesmo que dor de cabeça para nós.

Por fim as velinhas foram acesas. O pinheiro sentiu um tremor em todos os seus galhos — era medo de queimar-se. E foi justamente o que aconteceu. Felizmente uma das moças acudiu a tempo, e o acidente não passou duma queimadura sem importância. O pinheiro então resolveu manter-se imóvel, não só para que não se repetisse aquilo como também para não derrubar nenhum dos lindos objetos que o enfeitaram. Nisto abre-se a porta principal e um bando de crianças entra na sala em tumulto. Logo atrás vinham os mais velhos. Por alguns instantes os pequenos estacaram deslumbrados, para logo em seguida prorromperem em exclamações e pulos de alegria. E todos em círculo puseram-se a dançar em torno da árvore, de cujos galhos os presentes eram retirados um por um.

— Que pretenderão fazer? pensava a árvore. Que irá acontecer depois disto?

À medida que se derretiam, as velas iam sendo apagadas, e quando a última se extinguiu as crianças tiveram licença para assaltar o pinheiro. Com que fúria atiraram-se à árvore de Natal, arrancando as bolas prateadas que enfeitavam! Pouco faltou para que não o derrubassem.

Sempre alegres, as crianças brincavam a correr pela sala. Ninguém mais parecia prestar atenção ao pinheiro. Apenas uma velha criada o procurou, para remexer por entre os galhos na esperança de encontrar algum figo seco ou maçã escapos à gula da meninada.

— Uma história! Queremos uma história! pediram as crianças, puxando para junto do pinheiro um homenzinho gorducho.

— Está bem, concordou ele sentando-se debaixo da árvore. Aqui na sombra é melhor e o pinheiro também poderá ouvir a história. Mas só contarei uma. Qual é a que querem? Ivede-Avede, ou o Polichinelo que caiu da escada e acabou obtendo a mão da princesa?

— Ivede-Avede! gritaram umas.

— Polichinelo! gritaram outras.

E formou-se logo ensurdecedora algazarra. Só o pinheiro se mantinha em silêncio, embora perguntando a si mesmo se também não teria direito de dar opinião, já que fora parte importante na festa daquela noite.

Serenados os ânimos o homenzinho narrou a história do Polichinelo que caiu da escada mas acabou obtendo a mão da princesa. Terminada a narrativa voltaram as crianças a fazer algazarra. Queriam agora ouvir a história do Ivede-Avede. O pinheiro quedou-se pensativo. Nunca os pássaros da floresta lhe haviam narrado histórias assim.

— Polichinelo caiu da escada e acabou casando com uma princesa, repetia o pinheiro, certo de que um homem tão bem vestido não iria contar uma história que não fosse verdadeira. Vejam só o que é o mundo! Será que também eu irei cair de uma escada e casar-me com uma princesa?

Igualmente muito o alegrava a ideia de que no dia seguinte voltaria a cobrir-se de brinquedos, velinhas, maçãs douradas e tantas outras coisas bonitas. "Amanhã saberei manter-me firme para melhor apreciar a minha grandeza", pensava ele. "Amanhã tornarei a ouvir a história do Polichinelo e talvez a de Ivede-Avede."

E a noite toda passou a sonhar as alegrias que o futuro lhe reservava.

Na manhã seguinte as primeiras pessoas a entrarem no salão foram os dois criados. Imediatamente o pinheiro julgou que o vinham enfeitar, mas ficou muito desapontado ao ver-se conduzido para o porão da casa, onde nem a luz do dia penetrava.

— Que significará isto? conjeturava ele. Para que me terão posto aqui? Irão abandonar-me neste cômodo escuro?

E recostado à parede continuou a pensar. Longo tempo teve para as suas reflexões, pois passavam-se noites sem que surgisse viva alma. Quando alguém lá aparecia era apenas pra tirar ou pôr a um canto alguma canastra. Viu-se desse modo em completo abandono, como se a existência tivesse sido inteiramente olvidada.

— Deve ser inverno, dizia o pinheiro. O solo está endurecido e recoberto de neve; com certeza é por isso que não me plantam. Vão deixar-me bem abrigado aqui até que chegue a primavera. Pensando bem, os homens têm bom coração. Eu só desejava que este lugar não fosse tão escuro e solitário. Nem uma lebre para dar um pouquinho de vida a este silêncio. Como era bom lá na floresta, quando a neve cobria o solo e a lebre passava junto de mim, ou mesmo quando pulava por cima de mim, embora eu me aborrecesse tanto com a brincadeira. Como é horrível esta solidão!

— "Cuí, cuí, cuí", guincharam dois camundongos, saindo do buraco e procurando abrigo por entre os seus galhos. Que frio! Não fosse isso estaríamos bem aqui, não acha, velho pinheiro?

— Não sou velho, protestou a árvore. Há outros muito mais velhos do que eu.

— De onde vem e como se chama? indagaram os camundongos, curiosos. Conte-nos alguma coisa do mundo. Já esteve na dispensa onde há queijos bem guardados, presuntos pendurados do teto e de onde a gente pode sair duas vezes mais gordo do que quando entra?

— Desconheço tais lugares, respondeu o pinheiro. Mas conheço a floresta, onde brilha o sol e gorjeiam os pássaros.

E contou aos ratinhos a história da sua vida. Os camundongos, que jamais tinham ouvido falar de coisa parecida, observaram admirados:

— Quanta coisa você já viu! E como já foi feliz!

— Sim, já fui feliz, repetiu o pinheiro rememorando fatos passados.

Em seguida contou da festa do Natal e de como fora coberto de velinhas e brinquedos cada qual mais lindo que o outro.

— Não pode haver maior felicidade, velha árvore!

— Não sou velho, protestou o pinheiro. Cheguei da floresta este ano e o meu crescimento foi interrompido.

— Quanta coisa bonita você sabe contar! disseram ainda os ratinhos.

Na noite seguinte voltaram eles com quatro camundonguinhos novos para ouvirem as histórias do pinheiro; e quanto mais este as contava mais saudades ia sentindo dos tempos passados, que não voltam mais. Apesar disso, depois que escutara a história do Polichinelo que conseguira casar-se com uma princesa, não abandonava a esperança de também vir a obter algum dia a mão duma princesa. E recordou-se saudoso da elegante bétula que nascera a seu lado. Para um pinheiro uma bétula vale por uma bela princesa. A fim de entreter os camundongos narrou a história do Polichinelo tal qual a ouvira. Os ratinhos pulavam de contentamento. No dia seguinte apareceram outros camundongos e no domingo voltaram acompanhados de duas ratazanas. Estas, porém, declararam não haver gostado da história, o que deveras vexou os camundongos.

— Só sabe essa história? indagaram as ratazanas.

— Só esta, respondeu a árvore. Ouvia-a, na noite mais feliz da minha vida.

— Mas nem por isso é interessante. Conhece alguma história de queijos e presuntos? Conte-nos alguma coisa sobre despensas.

— Nada sei sobre isso.

— É pena, disseram as ratazanas e retiraram-se para as suas tocas, no que foram acompanhadas pelos camundongos pouco tempo depois.

— Era tão bom quando esses ratinhos amigos encarapitavam-se nos meus galhos para ouvir histórias! suspirou o pinheiro. Também isso passou. E quando me tirarem daqui irei sentir saudades dos momentos felizes que vivi com eles.

Um belo dia entraram no porão várias pessoas. As malas foram removidas do canto e o pinheiro, depois de retirado de onde estava, viu-se jogado ao chão; em seguida um criado o arrastou até ao terraço da casa.

— Agora sim, vou recomeçar a viver! murmurou ele satisfeito ao sentir o ar puro e os quentes raios do sol.

Do terraço avistava-se o jardim recoberto de flores. As rosas recurvavam-se sobre as latadas que as sustinham, perfumando o ambiente; e por toda parte, em todos os canteiros, uma flor principiava a desabrochar. Pardais voavam alegres, em chilreios, chamando as companheiras.

— Agora sim, irei viver! exclamou satisfeito o pinheiro, distendendo os seus ramos secos mas que ainda retinham ao alto a estrela dourada, muito brilhante à luz do sol.

Duas crianças que haviam dançado em torno dele no dia de Natal, apareceram. Ao avistarem a estrela uma delas correu para arrancá-la.

— Olhe aqui o que ainda está neste pinheiro murcho! disse calcando com os pés os galhos da pobre árvore.

Olhando para o jardim florido e vendo a miserável condição a que chegara o pinheiro desejou ter ficado no canto escuro do porão. Evocou os dias felizes passados na floresta, a alegre noite de Natal e os pequeninos camundongos que tanto gostavam de ouvir a história do Polichinelo.

— Tudo acabado! lamentou ele. Quando eu era feliz não sabia dar valor à minha felicidade. Só agora compreendo a vida — e justamente agora tudo está acabado para mim...

Pouco depois um rapaz de machado em punho picou a árvore em pedaços, que amontoou a um canto para serem queimados. E quando as labaredas começaram a devorá-lo o pinheiro gemeu doridamente, como só sabem gemer os pinheiros que se vêem queimados vivos. Cada estalo que a madeira dava era um gemido de dor. Ao ouvirem esses estalos as crianças deixaram os brinquedos e vieram acocorar-se ao pé do fogo. Mesmo envolto em chamas o pinheiro ainda recordava-se de um ou outro dia feliz de verão passado na floresta, ou de alguma noite de inverno, quando as estrelas cintilavam com mais fulgor. E também não deixou de recordar a noite do Natal e a história do Polichinelo, a única que jamais ouviu e a única que aprendera contar. Por fim, todo desfez-se em cinzas e acabou-se a história do pinheiro ambicioso, que, como os homens, só soube dar valor à felicidade depois que a perdeu.

Saturday, 27 September 2025

Saturday's Good Reading: “O Rouxinol” by Hans Christian Andersen (translated into Portuguese by Monteiro Lobato).

 

A China, Vocês sabem, o imperador é chinês e todos que vivem em redor dele são chineses.

Há muito e muitos anos o palácio do imperador da China era o mais belo de todos os palácios do mundo; basta dizer que fora construído inteiro de porcelana finíssima — tão fina e frágil que ninguém tinha ânimo de nele tocar nem com a ponta do dedo. Nos jardins viam-se as flores mais esquisitas, com minúsculas campainhas de prata amarradas nas pétalas; o vento fazia retinir esses sininhos chamando a atenção dos passantes. Tudo mais nos jardins do imperador era desse gosto e a tal distância se prolongavam que nem os jardineiros sabiam onde era o fim. Mas se alguém conseguisse chegar ao fim dos jardins veria que davam para uma floresta de enormes árvores e muitos lagos fundos. A floresta ia descendo até uma praia e mergulhava num mar, de modo que em certo ponto os navios navegavam por cima das ramagens. Naquela floresta morava um rouxinol de maravilhoso canto. Que músicas sabia esse passarinho! Os pescadores que passavam por perto, de caminho aos lagos, esqueciam-se dos peixes para ouvi-lo.

Viajantes vinham de todas as partes do mundo para admirar o palácio e os jardins do imperador da China, mas quando ouviam o canto do rouxinol murmuravam extasiados: "Isto vale mais que tudo!" E ao regressarem para suas terras contavam as maravilhas vistas e escreviam livros e livros sobre o palácio e os jardins, sem nunca se esquecerem do rouxinol que valia mais que tudo. Os que eram poetas faziam lindas poesias sobre a maravilhosa avezinha cantora da floresta dos lagos.

Esses livros começaram a correr mundo e um deles foi parar nas mãos do imperador, que ficou a lê-lo em seu trono de ouro, volta e meia balançando a cabeça para indicar que estava satisfeito com o que diziam a respeito dos seus jardins e palácios. Mas esse livro também acabava com a mesma observação de todos os viajantes sobre o rouxinol, considerando-o superior a tudo.

— Que é isto? indagou o soberano. Não sei de nada! Será possível que exista semelhante passarinho em minhas terras, em meu próprio jardim, e eu o ignore?

E chamou o mordomo, que era um personagem de tal importância que se alguém falava com ele a única resposta recebida era "Pf!" som que não quer dizer coisa nenhuma.

— Deve haver um passarinho muito notável, chamado rouxinol, disse-lhe o imperador. Os viajantes declaram que é a maior maravilha que viram no meu reino. Por que nunca me disseram nada a respeito?

— Jamais ouvi falar dele, Majestade, respondeu o mordomo, e creio que nunca foi apresentado à corte.

Pois ordeno que venha cantar diante de mim esta mesma noite, disse o soberano. O mundo inteiro sabe que esse rouxinol existe e eu o desconheço...

— Jamais ouvi falar dele, repetiu o mordomo, mas farei que seja procurado e introduzido perante Vossa Majestade.

Muito fácil de dizer, mas onde encontrar o rouxinol? O mordomo consultou toda a gente do palácio e de ninguém obteve a menor informação a respeito. Foi ter com o imperador e disse que o tal rouxinol com certeza era peta de quem escreveu o livro.

— Vossa Majestade não deve crer em tudo quanto está nos livros; muita coisa é fantasia poética da arte negra (eles chamam arte negra à arte de escrever, por causa da tinta).

— Mas o livro em que li isso, replicou o soberano, foi-me enviado pelo muito alto e poderoso imperador do Japão — e de nenhum modo pode conter falsidade. Quero ouvir o rouxinol! Quero ouvi-lo esta noite. E se não vier, toda a corte será passada a fio de espada, logo depois da ceia.

— Tsing-pe! murmurou humildemente o mordomo, e voltou a correr o palácio inteirinho, onde falou com todo o mundo, porque era necessário descobrir-se, fosse lá como fosse, o tal rouxinol maravilhoso; do contrário perderiam todos a vida naquela mesma noite.

Depois de muita correria encontraram na cozinha do palácio uma pequena ajudante de cozinheira que disse:

— Um rouxinol? Oh, conheço esse rouxinol que canta maravilhosamente. Eu costumo levar os restos de comida para minha mãe doente; ela mora perto da praia, e quando volto, e me sinto cansada, sento-me debaixo duma árvore da floresta e ouço o rouxinol cantar. E tão lindo ele canta, que eu choro sem querer, porque é o mesmo que se minha mãe estivesse me beijando.

— Menina, disse o mordomo, arranjarei para você um emprego nesta cozinha e ainda darei licença para que assista ao jantar do imperador, se nos mostrar o caminho que vai ter à floresta desse rouxinol.

Momentos depois chegavam à floresta em questão. Metade da corte, pelo menos, seguira a menina. Súbito, uma vaca mugiu.

— Oh, exclamou um dos cortesãos, lá está ele! E que força de pulmões tem, para um corpinho tão pequeno! Mas... parece-me que já ouvi este canto nalgum lugar...

— Bolas! exclamou a menina. Isso é uma vaca que está berrando. Estamos ainda longe.

Mais adiante uma rã coaxou num brejo.

— Magnífico! exclamou outro cortesão. É ele! Canta que parece sino de igreja!...

— Qual o que, disse a menina. Isso é uma rã do brejo!

Mas afinal chegaram ao ponto onde o rouxinol costumava aparecer e imediatamente ouviram seu gorjeio.

— Lá está o rouxinol! gritou a menina. Devagar agora, se não foge. Ali, naquela árvore. Olhem, olhem! E aquele passarinho escuro!...

— Será possível! duvidou o mordomo. Nunca imaginei coisa assim. Tão singelo e sem cor. Com certeza perdeu as cores de assombro de ver tanta gente notável aqui reunida.

— Rouxinolzinho, gritou a menina, o nosso poderoso imperador deseja que você vá cantar diante dele esta noite.

— Com o maior prazer, respondeu o passarinho, e para dar amostra do seu canto gorjeou a sua linda música extasiando a todos.

— Parece som de cristal, disse o mordomo, e olhem como palpita a gargantinha dele! É espantoso que nunca ouvíssemos falar dessa ave! Vai fazer um enorme sucesso na corte.

— Quer que cante mais um pouco para o imperador ouvir? inquiriu o rouxinol, certo que algum daqueles figurões era o soberano.

— Meu querido rouxinolzinho, respondeu o mordomo, o imperador não está aqui, e eu o convido para comparecer hoje de noite no palácio imperial, onde Sua Majestade o espera ansioso.

— É muito melhor o meu canto ouvido na floresta do que num palácio, mas irei, já que o imperador o quer.

Os preparativos no palácio para receber o rouxinol foram magníficos. As paredes de porcelana brilhavam, batidas da luz de mil lâmpadas de ouro; as mais raras flores, todas com os seus sininhos de prata, enfeitavam os corredores, fazendo tanto barulho que ali ninguém podia conversar.

No centro do salão onde estava o imperador em seu trono havia um poleiro de ouro para o rouxinol, Toda a corte se colocara lado a lado, à espera, e a menina da cozinha ficou a espiar pelo vão da porta, visto que ainda não obtivera o cargo prometido pelo mordomo. Todos tinham os olhos na avezinha, para o qual o imperador fez sinal de começar.

E o rouxinol cantou e cantou tão maravilhosamente bem que lágrimas começaram a deslizar pelas faces do imperador. O seu encanto foi tamanho que ele resolveu pôr em redor do pescoço da avezinha um colar de diamantes mas o rouxinol recusou, achando que já se achava sobejamente recompensado.

— Vi lágrimas nos olhos de Vossa Majestade, disse ele, e isso vale para mim pela mais alta recompensa. As lágrimas do imperador possuem a virtude de ser o maior dos prêmios.

E continuou a cantar.

— Isto é a mais bela música que ainda ouvi! disseram as damas presentes e puseram água na boca a fim de ficarem com a fala líquida ou fluida, como era a vozinha do rouxinol. Até a criadagem do palácio ficou maravilhada — o que é de estranhar, porque justamente os criados são os mais exigentes. O sucesso do rouxinol havia sido completo.

O Imperador convidou-o para ficar residindo ali, numa gaiola de ouro, da qual podia sair duas vezes de dia e uma de noite — sempre acompanhado de dois fâmulos a segurarem uma fita de seda amarrada a um dos seus pezinhos. Aquele modo de viver, entretanto, não lhe agradava e só servia para avivar as saudades da vida livre da floresta.

Em toda a cidade o assunto era aquele — o rouxinol. Numerosas crianças foram batizadas com o seu nome, mas nenhuma mostrou possuir a sua gargantinha de cristal.

Um dia o imperador recebeu uma caixa de presente.

— Há de ser algum novo livro a respeito do famoso pássaro, pensou consigo. Mas não era livro nenhum e sim um rouxinol artificial, feito de diamantes, safiras e rubis. Quando lhe davam corda, cantava uma das músicas do rouxinol de verdade, e também estremecia a caudinha, toda rutilante de pedrarias. Em redor do seu pescoço vinha uma fitinha com estes dizeres: "O rouxinol do Imperador do Japão é pobre comparado com o rouxinol do Imperador da China."

— Maravilhoso! exclamaram todos os presentes, e o portador da ave artificial foi imediatamente nomeado para um cargo novo Imperial Trazedor do Rouxinol Imperial.

— Eles agora precisam cantar em dueto, este e o outro, lembraram os cortesãos. Vai ser um assombro.

A ideia foi aceita com entusiasmo e o duelo teve logo início. Mas a tentativa não deu resultado porque o rouxinol de verdade cantava como queria e o outro só de acordo com a corda.

—Não é culpa do rouxinol novo, observou o maestro do palácio, porque este está certo, visto como marca os compassos segundo os princípios da minha escola — e foi então ordenado que o rouxinol artificial cantasse sozinho. O seu sucesso foi muito maior que o obtido pelo rouxinol real — e além disso era ele muito mais agradável à vista, por causa das pedrarias foi a opinião de todos.

Trinta e três vezes cantou a mesma música sem cansar-se, e cantaria ainda outras se o Imperador não declarasse que era tempo de ser ouvido o rouxinol real. Mas... onde estava ele? Ninguém o tinha visto escapar-se da gaiola e sumir-se pela janela.

—Como foi isso? indagou o Imperador magoado — e todos os cortesãos recriminaram a avezinha como profundamente ingrata.

— Mas o melhor ficou, disseram logo em seguida, e o rouxinol artificial foi posto a cantar novamente, e cantou pela trigésima quarta vez a mesma música. O maestro do palácio disse dele ainda maiores louvores, continuando a afirmar que era na realidade muito melhor que o outro, além de ser incomparavelmente mais lindo.

— Vossa Majestade compreende o valor desta jóia, explicou o maestro ao Imperador. Com o outro não podíamos saber nunca que música viria, mas com este temos a certeza do que vai cantar. Podemos analisá-lo, abri-lo, ver o que tem dentro e admirar a maravilha do engenho humano.

— Realmente! afirmaram todos os presentes. O maestro tem toda a razão — e combinaram exibi-lo ao povo no próximo domingo, depois de obtida do Imperador a necessária licença.

Fez-se com grande sucesso a exibição; o povo ouviu-o cantar com o mesmo prazer com que toma chá, porque eram todos chineses e para o chinês nada como o chá. Todos, menos um. Um pescador que já havia ouvido o rouxinol na floresta, só esse não gostou.

— Canta bem, não há dúvida, dissera esse homem, mas só canta uma certa música, e além disso noto que falta qualquer coisa nessa música — o que, não sei.

Mas para a grande massa do povo vencera o rouxinol artificial, e em vista disso o verdadeiro foi banido da China por um decreto do soberano.

O novo vencedor viu-se colocado sobre um coxim de seda, ao lado do leito do imperador, no meio de um monte de jóias e pedrarias. Foi-lhe dado o título de Imperial Cantor da Câmara Imperial, com direito ao lado esquerdo do soberano, que é o lado mais importante por ser o lado do coração. O maestro do palácio escreveu uma obra em vinte e cinco volumes sobre a jóia cantora, obra tão cheia daquelas letras chinesas desenhadas com tinta nanquim, que ninguém leu — e se alguém lesse não entenderia. Mas todos a admiraram para não correrem o risco de ser tidos como estúpidos.

Um ano passou-se. Tanto o Imperador, como toda a sua corte e ainda o povo chinês, aprenderam de cor, sem escapar um sonzinho, a célebre música do rouxinol. E todos a cantavam. Até nas ruas a meninada ia para as escolas cantando a cantiga do rouxinol imperial.

Certa manhã, em que o rouxinol estava pela milésima vez cantando a sua música para o imperador, qualquer coisa dentro dele estalou — craque! e o silêncio se fez.

O imperador pulou da cama onde se achava e chamou pelo médico do palácio. Mas o médico, apesar de grande sábio, nada pode fazer.

Foi chamado um relojoeiro, que abriu o rouxinol e procurou consertá-lo. As molas estavam gastas e se se pusessem outras a música se alteraria. Foram apesar disso mudadas as molas, e para que não se gastassem como as primeiras, o imperador declarou que ele só cantaria uma vez por ano. O maestro do palácio fez um longo discurso para provar que a música mudara um pouco, mas era ainda melhor que a primitiva — o todos tiveram de achar que sim.

Cinco anos mais tarde uma desgraça caiu sobre o império: o imperador adoecera de doença grave. Vendo que o soberano estava nas últimas, os ministros providenciaram para a imediata escolha do seu sucessor. O povo aglomerado em frente ao palácio ansiava por saber do mordomo como ia passando o velho soberano; mas o mordomo aparecia e emitia apenas aquele seu célebre "Pf!" que não significava coisa nenhuma.

O imperador jazia muito pálido e desfigurado em seu leito, e sozinho, porque todos os cortesãos só queriam saber de rodear o futuro soberano. Os criados tinham corrido a servir o novo sol e as camareiras também — e como os corredores próximos haviam sido tapetados para que nenhum rumor fosse feito, o silêncio em torno do velho Imperador era mortal.

O pobre soberano mal podia respirar; sentia um grande peso no coração e, abrindo os olhos, viu que o vulto da Morte estava sentado sobre o seu peito, com a sua coroa na cabeça, o seu cetro numa das mãos descarnadas e a sua espada na outra. Estranhos seres espiavam detrás dos reposteiros de veludo. Eram as más ações do soberano que vinham espiá-lo, agora que a Morte se sentara em cima do seu peito.

— Lembra-se de mim? murmurava uma, fazendo caretas.

— E de mim? murmurava outra, e tantas foram as perguntas desse gênero que o imperador começou a suar frio.

— Oh! exclamou ele, horrorizado. Música! Que soem os tambores! Não quero ouvir o que estas sombras me dizem!

Mas as sombras das suas más ações continuaram a fazer-se lembradas e a Morte concordava com a cabeça com tudo quanto elas diziam.

— Música! Música! vociferava o soberano. Meu rouxinol de ouro, canta, canta! Dei-te todas as honras e te pus ao pescoço o meu colar de diamantes. Cante, eu ordeno, canta!

— Mas o rouxinol artificial conservou-se mudo — estava sem corda — e sem corda não podia cantar ainda com ordem do imperador. E a Morte continuava a encarar firmemente o moribundo com as suas órbitas ocas, no silêncio tumular que envolvia tudo.

Súbito, uma melodia estranha soou à janela. Vinha lá de fora, da garganta dum rouxinol vivo que pousara num galho. Era o rouxinol da floresta, que ouvira o apelo do moribundo e se apressara em vir confortar sua pobre alma dolorida. E à medida que ia cantando, os fantasmas do quarto se iam esvaindo e o sangue voltava a circular com mais vida nas veias do Imperador. Até a própria Morte se pôs a ouvi-lo, maravilhada, murmurando a espaços:

— Continue, rouxinolzinho! Continue...

— Só continuarei se você me der essa coroa.

A morte tirou da sua cabeça a coroa do Imperador e deu-a ao rouxinol — e o rouxinol cantou mais uma canção. A Morte pediu mais música — e o rouxinol para cada nova canção exigia uma das coisas que ela já havia tirado do Imperador — o cetro, a espada, o estandarte.

E o rouxinol cantou, cantou como os rouxinóis costumam cantar nos jardins sombrios, ao cair da noite, quando o orvalho começa a misturar-se aos perfumes das flores sonolentas. Por fim a Morte esvaiu-se do quarto, como um nevoeiro que se extingue ao sol.

— Obrigado! Obrigado, meu maravilhoso amigo! Conheço-te muito bem. Foste por mim mesmo banido dos meus domínios e no entanto vieste afugentar do meu quarto os horrendos monstros que me torturavam. Como poderei recompensar-te do bem que me fizeste?

— Recompensado estou, respondeu o rouxinol. Já vi lágrimas em vossos olhos, da primeira vez que cantei — e não me esquecerei disso nunca. Dormi, Imperador, dormi que o sono vos restaurará as forças. Eu continuarei a cantar para embalo do vosso sono.

E cantou, cantou, cantou até ver o soberano profundamente adormecido.

O sol já batia de novo em sua janela quando o Imperador caiu do sono, refeito da doença e curado. Nenhum dos seus serviçais aparecera no quarto, porque todos já o supunham falecido. Só o rouxinol lhe fazia companhia, lá do galho a cantar.

—Ficarás agora sempre comigo, disse o Imperador e cantarás sempre que eu pedir. O outro, o teu rival de diamantes e rubis, será despedaçado.

— Por que isso? disse a avezinha. Ele cantou enquanto pode. Conservai-o como antes. Eu não posso construir meu ninho aqui, nem viver no palácio, mas virei sempre que puder, e pousarei neste galhinho, perto desta janela, e cantarei para Vossa Majestade apenas. Cantarei em prol dos que sofrem, dos que injustamente são afastados da vossa presença pelos maus cortesãos. Isso porque sou um cantorzinho que voa por toda a parte, e pousa no teto dos camponeses humildes e dos pescadores paupérrimos, e de toda a gente que vive longe da corte e nem sequer é por ela suspeitada. Eu amo mais o vosso coração do que a vossa coroa. Virei cantar apenas para vós — mas haveis de prometer-me uma coisa.

— Prometo tudo quanto pedires! disse o Imperador erguendo o punho da espada como testemunha.

— Quero que ninguém saiba que Vossa Majestade possui uma avezinha que lhe conta tudo.

Disse e voou para longe.

Os criados vieram afinal espiar o cadáver do velho Imperador... Mas o seu assombro não teve limites quando o cadáver se ergueu na cama e lhes disse, muito amavelmente:

— Bons olhos os vejam, amigos!

Saturday, 22 March 2025

Saturday's Good Reading: “O Grilo” by Monteiro Lobato (in Portuguese)

 

Os papéis, recém - redigidos, são 'envelhecidos' na fumaça do fogão ou segundo um método bem mais perfeito: são postos em gavetas junto com centenas de grilos vivos; com o tempo, os grilos morrem, apodrecem e liberam toxinas, que provocam manchas no papel, “envelhecendo-o”- vem daí o termo “grileiro”.

 *

Insistente nas palestras como certas moscas em dia de calor, é, nas regiões do Noroeste, a palavra "grilo". "Grilo" e seus derivados, "grileiro", "engrilar", em acepção muito diversa da que devem ter entre os nipônicos, onde grileiros engrilam grilos de verdade em gaiolinhas, como fazemos aqui com o sabiá, o canário, o pintassilgo e mais passarinhos tolos que morrem pela garganta.

Em certas zonas chega a ser obsessão. Todo mundo fala em terras griladas e comenta feitos de grileiros famosos.

E agora que o grilo penetrou na arte, e vai perpetuar-se em mármore e bronze no monumento da Independência, (1) vem a talho de foice um apanhado geral sobre a conspícua instituição - viveiro onde se fermenta a aristocracia dinheirosa de amanhã. As velhas fidalguias da Europa entroncam no banditismo dos cruzados. Ter na linhagem um facínora encoscorado de ferro, que saqueou, queimou, violou, matou à larga no Oriente, é o maior padrão de glória de um marquês de França. Ter entre os avós um grileiro de hoje vai ser o orgulho supremo dos nossos milionários futuros. Matarás, roubarás, são os mandamentos de alto bordo do decálogo humano, eternos e irredutíveis, que a ingênua lei de Moisés tentou inverter, antepondo-lhes um inócuo "não".

Grilo é uma propriedade territorial legalizada por meio de um título falso; grileiro é o advogado ou "águia" qualquer manipulador de grilos; terras "grilentas" ou "engriladas", as que têm maromba de alquimia forense no título.

Como o grilo proliferou na Noroeste mais do que o permite o coeficiente tolerável da patota humana, as conversas ressentem-se ali de muita insistência no assunto.

- Vou comprar terras do grilo do doutor Honestino dos Anjos.

- Não caia nessa! O Honestino é um grileiro sujo. Qualquer dia escangalham-lhe com a patota. Grilo de primeiríssima, que dá gosto, é o do Pizarro! Esse, sim... Porque há grilos geniais, obra de verdadeiros Cagliostros encarnados nos bacharéis do "venerando mosteiro"; e os há ineptos, mancos, fabricados aí por meros "curiosos" da trampolinagem, sem dedo para a coisa. Aqueles gozam de toda a consideração social devida aos mestres de vistas largas, ao passo que estes o povo os cobre de irrisão.

- Ali vai o senador Pizarro, um grileiro macota!

- E que me diz do Dr. Cunha?

- Um sujo. Borrou-se com aquele grilinho indecente da Pedra Azul e anda agora a tentar outro mais inepto ainda. É um crime deixar a polícia soltos pelas ruas tipos dessa ordem...

- Não tem a pinta! . . .

- É isso.

O grileiro é um alquimista. Envelhece papéis, ressuscita selos do Império, inventa guias de impostos, promove genealogias, dá como sabendo escrever velhos urumbebas que morreram analfabetos, embaça juízes, suborna escrivães - e, novo Jeová, tira a terra do nada. Seu laboratório lembra as espeluncas dos Faustos medievais; mais prático, porém, não procura ali a pedra filosofal ou o elixir da longa vida. Fausto virou rábula: manipula a propriedade. Envelhecer um título falso, "enverdadeirá-lo", é toda uma ciência. Mas conseguem-no. Dão-lhe a cor, o tom, o cheiro da velhice, fazem-no muitas vezes mais autêntico do que os reais. Expõem-no ao fumeiro, a tal distância da fumaça conforme o grau de ancianidade requerido, e conseguem assim a gama dos amarelidos, segredo até aqui do Tempo.

Enquanto o papel se defuma, fazem-lhe aspersões sábias, que lhes dêem a rugosidade peculiar às celuloses d’antanho.

Finalmente, para impregná-lo do cheirinho, do bouquet dos decênios, passeiam-no a cavalo, metido entre o baixeiro e a carona...

E mais coisas fazem que os leigos não pescam e constituem o segredo do "ponto de bala".

Mas tudo isso às vezes é pouco. Veste o lobo a pele da velhice e fica com o rabo da mocidade de fora...

Conta-se de um grilo superiormente engenhado que faliu por artes de um raio de sol. O documento engrilado era perfeito, sem o mínimo cochilo por onde o advogado contrário, preposto a destramar a marosca, pudesse levantar a perdiz. Por mais que virasse e revirasse o papel, e analisasse a letra, e cotejasse os dizeres, e cheirasse, e apalpasse, não atinava com o calcanhar de Aquiles. Já com dor de cabeça ia pôr de parte o grilo, quando Apolo intervêm. Um raio de sol entra pela janela e dá de chapa contra o título. Àquela súbita e intensa iluminação o perito pôde vislumbrar as letras d’água com que a fábrica marcara o papel. Lá estava a estrela da República naquele documento do século dezessete...

Ao trabalhinho de laboratório aliam-se ao ar livre os atos anexos e complementares - violências, suborno, incêndio de cartórios, sumiço de autos, etc.

Porque o grilo é proteiforme e para completar-se sobe até a ótica, subornando até os teodolitos dos engenheiros.

Que prodígios não opera neste campo! O primeiro é substituir a corrente, o podômetro, o teodolito, a trigonometria e o mais por um instrumento só, de alta engenhosidade: o olhômetro.

Só o olhômetro merece fé aos grileiros, esse aparelho maravilhoso, de criação nossa, e já muito usado pelos governos em estudos estatísticos.

Por intermédio do olhômetro mudam-se os cursos dos rios, passa-se um afluente da margem esquerda para a direita, criam-se cachoeiras em sítios onde o nível é manso, e operam-se quantas mais revoluções geográficas se fazem mister à patota.

Um grileiro está na posse do nome de um rio que a natureza esqueceu de criar; se ele consegue localizar esse rio no mapa, o grilo sairá de primeiríssima. E lá vai ele, com o rio às costas, em procura de colocação...

A outro fazia grande conta uma cachoeira em certo ponto das divisas.

O homem não pestaneja: constrói a cachoeira. Os contrários protestam.

Há intervenção judiciária. Na vistoria chamam para perito o morador mais antigo das redondezas. O caboclo chega, defronta-se com a cachoeira fantástica e abre a boca. Há cinqüenta anos que vive ali, conhece a zona como a palma de sua mão - como é que nunca viu aquele "poder d’água", barulhento e atravancador? Mas desconfia – e entrando na água desfaz com dois pontapés a cachoeira de mentira, que lá rola, rio abaixo, transformada em tranqueira de galhaça e cipós

. . . Era uma cachoeira grilo . . .

O grilo come nas terras apossadas pelos caboclos mal apetrechados contra os percevejos da lei, tanto quanto nas terras devolutas, as quais, engriladas a Norte, Sul, Leste e Oeste, estão se derretendo como torrão de açúcar n’ água.

Calcula uma autoridade no assunto em três milhões de alqueires a área das terras griladas na Noroeste. E esses milhões caminham para quatro, visto como agora a indústria do grilo passou a interessar os altos paredros da política, verdadeiras piranhas em matéria de voracidade.

Não há exagero no cálculo de três milhões, sabendo-se que há grilos de 200, 300 e 400 mil alqueires – territórios equivalentes à metade da Bélgica, quase à Saxônia, e tamanhos como antigos ducados principados alemães!...

Verdade seja que estes grilos são os grilos-mães, os canhões 420 da espécie.

Um existe de 480 mil alqueires - o rei dos grilos - notável não só pelo tamanho como pela perfeição da sua gênese.

É o grilo recorde, e merece publicidade para lição dos que querem enriquecer depressa mas andam por aí a malbaratar o engenho com  patotinhas vagabundas.

Na posse de um título autêntico que lhe dava domínio sobre três mil alqueires, um dos nossos águias resolve tomá-lo como base para um grilo. Estuda bem o caso e um dia requer cópia dos autos onde vinha a partilha da gleba em questão, delimitada de um lado nestes termos "... e daí em linha reta de duas léguas, até encontrar o rio tal".

Ao chegar neste ponto, o escrevente do cartório, que tirava a cópia, sofre uma alucinação ótica e escreve "vinte e duas léguas" onde estavam "duas". Mesmo fora das bebedeiras é comum esta visão dupla das coisas, que há de ter em medicina um nome grego.

Concluída a cópia, vai ela ao juiz para os sacramentos. Juiz, promotor e coletor subscrevem-na, depois de lançados o "conferido e concertado" do estilo. Mas nenhum deles realmente conferiu nem concertou coisa nenhuma, de acordo com a mais louvável das praxes, porque é preciso ter confiança no escrivão, que diabo! E destarte o grileiro entrou na posse duns autos tão autênticos perante a lei quanto os originais.

Intervalo de quinze minutos.

Um advogado surge no cartório e pede vista dos autos originais.

Obtém-na, passa recibo e leva para casa o calhamaço.

Terceiro quadro: dias depois o grileiro denuncia esse advogado como tendo perdido o papelório. O juiz se assanha e intima o advogado a entregá-lo sob as penas da lei: prisão ou reconstrução dos autos perdidos. O advogado, consternadíssimo, alega que de fato os perdeu, - e segue para o xadrez como um verdadeiro mártir da urucubaca. E lá, entre grades, antes de meditar Silvio Pelico e Dostoievsky, sente na cabeça o famoso estalo de Arquimedes:

- Eureka!...

Lembra-se que em mãos de um amigo existe cópia conferida e concertada, e compromete-se a dá-la em troca do original que o saci (evidentemente o saci! . . . ) lhe furtara da gaveta.

Quarto ato: deferimento do juiz, soltura do advogado preso e solene entrada em cartório do grilo triunfante, com as 22 léguas em vez de apenas 2. Cai o pano. Reacendem-se as luzes e o grileiro de gênio entra na posse de 400 e tantos mil alqueires de terra em vez dos miseráveis três mil primitivos.

É ou não um rasgo yankee, merecedor dum filme? Não se conhecem os nossos progressos lá fora. Não imaginam o galope do nosso cavalo.

Galope tão grande que já se reflete na língua. Todos os dias o povo surge com palavras novas que dêem medida à evolução da esperteza. Para batismo destes "looping-the-loop" da aviação forense só entre os bichos que voam encontra o povo analogias competentes: águias, grilo, aguismo.

Mas não basta. Há necessidade de formas novas, combinações estapafúrdias, conúbios de rapinagem de alta envergadura com ruminantes de pé ultra-ligeiro. Só estas cabriolas vocabulares têm força expressiva no caso.

Ouvimos uma vez, em roda onde se comentavam estes tremendos malabarismos, cair em crise de entusiasmo um dos ouvintes; piscou, faiscou os olhos e improvisou este soberbo jato de impressionismo zoológico, única forma capaz de dizer toda a imensidade da sua admiração:

- Que cabras águias!

 

(1) Alusão ao projeto do escultor Ximenes, que venceu no concurso para o monumento e que Monteiro Lobato muito combateu em "Idéias de Jéca Tatú."

 in  "A onda verde". In: Obras completas,Vol. 5, Editora Brasiliense, 1948.