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Saturday, 29 August 2026

Saturday's Good Reading: "Guarda e Passa” by Guimarães Passos (in Portuguese).

 

... Non me destar, deh! parla basso

Michelangelo

 

Figuremos: tu vais (é curta a viagem),

Tu vais e, de repente, na tortuosa

Estrada vês, sob árvore frondosa,

Alguém dormindo à beira da passagem.

 

Alguém, cuja fadiga angustiosa

Cedeu ao sono, em meio da romagem,

E exausto dorme ... Tinhas tu coragem

De acordá-lo? responde-me, formosa.

 

Quem dorme esquece ... pode ser medonho

O pesadelo que entre o horror nos fecha;

Mas sofre menos o que sofre em sonho.

 

Oh! tu, que turvas o palor da neve,

Tu, que as estrelas escureces, deixa

Meu coração dormir... Pisa de leve.

Wednesday, 24 June 2026

Wednesda's Good Reading: “Torre Morta do Ocaso” by Raul de Leoni (in Portuguese)

Esguia torre ascética, esquecida

Na bruma de um crepúsculo profundo!

És, no mais triste símbolo do mundo,

A renúncia tristíssima da Vida!


Tua existência é um pensamento fundo

Levantado na pedra adormecida:

Bem sentes quanto é inútil e infecundo

O esforço na vertigem da subida!...

 

Como és profética de longe... quando

Na moldura do poente de ouro e rosa,

Interpretando todos os destinos,

 

Vais por todos os ventos espalhando

Tua filosofia dolorosa,

Na balada sonâmbula dos sinos!...


Saturday, 2 May 2026

Saturday's Good Reading; “Pubescência” by Guimarães Passos (in Portuguese)

 

A Emílio de Menezes

 

Ei-la! Chega ao jardim, que estava triste,

Porque a sua alegria ausente estava,

E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,

Agora a toda a tentação resiste:

 

Seria outra alma, pensa, que a animava?

Por que um desejo que a persegue insiste?

Qualquer cousa que ignora, mas que existe,

Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.

 

Triste cismando segue, e em frente à fonte:

— Um sátira, de cuja boca escorre

Um fino fio d'água transparente —

 

Ri-se, dos cornos que lhe vê na fronte,

Os lábios cola aos dele, e porque morre

De sede, bebe alucinadamente.

Wednesday, 3 December 2025

Wednesday's Good Reding: untitled sonnet by Guimarães Passos (in Portuguese).

XXXIV
 

Na terra estava quando te queria
De todas as mulheres diferente,
E olhando a altura com o fervor dum crente
Em nuvem de ouro a tua imagem via.

Na asa encantada que a paixão me abria
Subi, para buscar-te unicamente,
E em cima estando vi-te, de repente,
Na terra, no lugar donde eu saía.

Olhos de amante, que de tal maneira
Andam cheios de lúcida loucura,
Que assim se perdem na maior cegueira.

E vendo aquilo que não há, decerto,
Sonham longe a ilusão de uma ventura
E não vêem a ventura que têm perto.

Wednesday, 9 July 2025

Wednesday's Good Reading: "História Antiga" by Raul de Leoni (in Portuguese)

 

No meu grande otimismo de inocente,

Eu nunca soube por que foi... um dia,

Ela me olhou indiferentemente,

Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

 

Desde então, transformou-se, de repente,

A nossa intimidade correntia

Em saudações de simples cortesia

E a vida foi andando para a frente...

 

Nunca mais nos falamos... vai distante...

Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante

Em que seu mudo olhar no meu repousa,

 

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,

Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,

Mas que é tarde demais para dizê-la...

Wednesday, 21 May 2025

Wednesday's Good Reading: “Crepuscular” by Raul de Leoni (in Portuguese)

Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção com que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos, onde vencidas de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...

Wednesday, 26 March 2025

Wednesday's Good Reading: soneto attributed to Manuel Maria Barbosa Du Bocage (in Portuguese)

 

Sou pai de um filho que não é meu filho,

Porque, sendo meu filho, ele é meu pai.

Eu não lhe dei o ser, sendo seu pai,

Mas ele é que me deu, sendo meu filho.

 

Fui sempre casto e tenho-o por meu filho;

Sou virgem, e ele diz que sou seu pai.

Eu bem sei que ele é filho de outro pai;

E não posso negar que ele é meu filho.

 

Não sou primeiro que ele, e sou seu pai;

Porque, sendo primeiro este meu filho,

Ele é feito primeiro que seu pai.

 

Hei de morrer primeiro que meu filho;

E, não herdando o filho os bens do pai,

O pai é que há de herdar os bens do filho.