Showing posts with label Italian sonnet. Show all posts
Showing posts with label Italian sonnet. Show all posts

Saturday, 2 May 2026

Saturday's Good Reading; “Pubescência” by Guimarães Passos (in Portuguese)

 

A Emílio de Menezes

 

Ei-la! Chega ao jardim, que estava triste,

Porque a sua alegria ausente estava,

E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,

Agora a toda a tentação resiste:

 

Seria outra alma, pensa, que a animava?

Por que um desejo que a persegue insiste?

Qualquer cousa que ignora, mas que existe,

Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.

 

Triste cismando segue, e em frente à fonte:

— Um sátira, de cuja boca escorre

Um fino fio d'água transparente —

 

Ri-se, dos cornos que lhe vê na fronte,

Os lábios cola aos dele, e porque morre

De sede, bebe alucinadamente.

Wednesday, 3 December 2025

Wednesday's Good Reding: untitled sonnet by Guimarães Passos (in Portuguese).

XXXIV
 

Na terra estava quando te queria
De todas as mulheres diferente,
E olhando a altura com o fervor dum crente
Em nuvem de ouro a tua imagem via.

Na asa encantada que a paixão me abria
Subi, para buscar-te unicamente,
E em cima estando vi-te, de repente,
Na terra, no lugar donde eu saía.

Olhos de amante, que de tal maneira
Andam cheios de lúcida loucura,
Que assim se perdem na maior cegueira.

E vendo aquilo que não há, decerto,
Sonham longe a ilusão de uma ventura
E não vêem a ventura que têm perto.

Wednesday, 9 July 2025

Wednesday's Good Reading: "História Antiga" by Raul de Leoni (in Portuguese)

 

No meu grande otimismo de inocente,

Eu nunca soube por que foi... um dia,

Ela me olhou indiferentemente,

Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

 

Desde então, transformou-se, de repente,

A nossa intimidade correntia

Em saudações de simples cortesia

E a vida foi andando para a frente...

 

Nunca mais nos falamos... vai distante...

Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante

Em que seu mudo olhar no meu repousa,

 

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,

Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,

Mas que é tarde demais para dizê-la...

Wednesday, 21 May 2025

Wednesday's Good Reading: “Crepuscular” by Raul de Leoni (in Portuguese)

Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção com que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos, onde vencidas de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...

Wednesday, 26 March 2025

Wednesday's Good Reading: soneto attributed to Manuel Maria Barbosa Du Bocage (in Portuguese)

 

Sou pai de um filho que não é meu filho,

Porque, sendo meu filho, ele é meu pai.

Eu não lhe dei o ser, sendo seu pai,

Mas ele é que me deu, sendo meu filho.

 

Fui sempre casto e tenho-o por meu filho;

Sou virgem, e ele diz que sou seu pai.

Eu bem sei que ele é filho de outro pai;

E não posso negar que ele é meu filho.

 

Não sou primeiro que ele, e sou seu pai;

Porque, sendo primeiro este meu filho,

Ele é feito primeiro que seu pai.

 

Hei de morrer primeiro que meu filho;

E, não herdando o filho os bens do pai,

O pai é que há de herdar os bens do filho.

Wednesday, 13 November 2024

Wednesday's Good Reading: “História de uma Alma” by Raul de Leoni (in Portuguese)

 

I Adolescência

Eu era uma alma fácil e macia,

Claro e sereno espelho matinal

Que a paisagem das cousas refletia,

Com a lucidez cantante do cristal.

 

Tendo os instintos por filosofia,

Era um ser mansamente natural,

Em cuja meiga ingenuidade havia

Uma alegre intuição universal.

 

Entretinham-me as ricas tessituras

Das lendas de ouro, cheias de horizontes

E de imaginações maravilhosas.

 

E eu passava entre as cousas e as criaturas,

Simples como a água lírica das fontes

E puro como o espírito das rosas...

 

 

II Mefisto

Espírito flexível e elegante,

Ágil, lascivo, plástico, difuso,

Entre as cousas humanas me conduzo

Como um destro ginasta diletante.

 

Comigo mesmo, cínico e confuso,

Minha vida é um sofisma espiralante;

Teço lógicas trêfegas e abuso

Do equilíbrio da Dúvida flutuante.

 

Bailarino dos círculos viciosos,

Faço jogos sutis de ideias no ar

Entre saltos brilhantes e mortais,

 

Com a mesma petulância singular

Dos grandes acrobatas audaciosos

E dos malabaristas de punhais...

 

 

III Confusão

Alma estranha esta que abrigo,

Esta que o Acaso me deu,

Tem tantas almas consigo,

Que eu nem sei bem quem sou eu.

 

Jamais na Vida consigo

Ter de mim o que é só meu;

Para supremo castigo,

Eu sou meu próprio Proteu.

 

De instante a instante, a me olhar,

Sinto, num pesar profundo,

A alma a mudar... a mudar...

 

Parece que estão, assim,

Todas as almas do Mundo,

Lutando dentro de mim...

 

IV Serenidade

Feriram-te, alma simples e iludida.

Sobre os teus lábios dóceis a desgraça

Aos poucos esvaziou a sua taça

E sofreste sem trégua e sem guarida.

 

Entretanto, à surpresa de quem passa,

Ainda e sempre, conservas para a Vida,

A flor de um idealismo, a ingênua graça

De uma grande inocência distraída.

 

A concha azul envolta na cilada

Das algas más, ferida entre os rochedos,

Rolou nas convulsões do mar profundo;

 

Mas inda assim, poluída e atormentada,

Ocultando puríssimos segredos,

Guarda o sonho das pérolas no fundo.