Wednesday, 6 May 2026

Wednesday's Good Reading: “O Julgamento de Frineia” by Olavo Bilac (in Portuguese)

 

Mnezarete, a divina, a pálida Frineia,

Comparece ante a austera e rígida assembleia

Do Areópago supremo. A Grécia inteira admira

Aquela formosura original, que inspira

E dá vida ao genial cinzel de Praxíteles,

De Hiperides à voz e à palheta de Apeles.

 

Quando os vinhos, na orgia, os convivas exaltam

E das roupas, enfim, livres os corpos saltam,

Nenhuma hetera sabe a primorosa taça,

Transbordante de Cós, erguer com maior graça,

Nem mostrar, a sorrir, com mais gentil meneio,

Mais formoso quadril, nem mais nevado seio.

 

Estremecem no altar, ao contemplá-la, os deuses,

Nua, entre aclamações, nos festivais de Elêusis...

Basta um rápido olhar provocante e lascivo:

Quem na fronte o sentiu curva a fronte, cativo...

Nada iguala o poder de suas mios pequenas:

Basta um gesto, — e a seus pés roja-se humilde Atenas...

Vai ser julgada. Um véu, tornando inda mais bela

Sua oculta nudez, mal os encantos vela,

Mal a nudez oculta e sensual disfarça.

cai-lhe, espáduas abaixo, a cabeleira esparsa...

Queda-se a multidão. Ergue-se Eutias. Fala,

E incita o tribunal severo a condená-la:

 

"Elêusis profanou! É falsa e dissoluta,

Leva ao lar a cizânia e as famílias enluta!

Dos deuses zomba! É ímpia! é má!" (E o pranto ardente

Corre nas faces dela, em fios, lentamente...)

"Por onde os passos move a corrupção se espraia,

E estende-se a discórdia! Heliastes! condenai-a!"

 

Vacila o tribunal, ouvindo a voz que o doma...

Mas, de pronto, entre a turba Hiperides assoma,

Defende-lhe a inocência, exclama, exora, pede,

Suplica, ordena, exige... O Areópago não cede.

"Pois condenai-a agora!" E à ré, que treme, a branca

Túnica despedaça, e o véu, que a encobre, arranca...

 

Pasmam subitamente os juízes deslumbrados,

— Leões pelo calmo olhar de um domador curvados:

Nua e branca, de pé, patente à luz do dia

Todo o corpo ideal, Frineia aparecia

Diante da multidão atônita e surpresa,

No triunfo imortal da carne e da beleza.

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