Saturday, 7 February 2026

Saturday's Good Reading: “O abandono dos ideais” by Olavo de Carvalho (in Portuguese)

 

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Aula do curso Introdução à Vida Intelectual

Setembro de 1987. Reproduzida sem alterações.

 

Quando as palavras saem da moda, as coisas que elas designam ficam boiando no abismo dos mistérios sem nome; e como tudo o que é misterioso e inexprimível oprime e atemoriza o coração humano com uma sensação de cerceamento e impotência, é natural que a atenção acabe por se desviar desses tópicos nebulosos e constrangedores. Pois o que desaparece do vocabulário logo acaba por desaparecer da consciência: o que não tem nome não é pensável, o que não é pensável não existe — tal é a metafísica dos avestruzes. Só que a coisa desprovida do direito à existência continua a existir numa espécie de extramundo, inominada e inominável, tanto mais ativa quanto mais secreta, tanto mais temível quanto mais envolta nas pompas tenebrosas do nada. A restrição do vocabulário povoa o mundo de temores e presságios. Desprovido da capacidade de nomear, eis o homem devolvido a todos os terrores que ele imaginava primitivos, mas que são uma pura criação da mais avançada e requintada decadência: o barbarismo artificial.

Se a coisa desprovida de nome é, por acaso, alguma realidade espiritual elevada, um valor excelso ou aspiração suprema da alma — uma dessas coisas essenciais que se pode expulsar da consciência, mas não da existência —, é natural que sua reencarnação obscura assuma, mais ainda, as feições do terrível, do informe, do monstruoso.

É algo assim que acontece com aquela coisa designada pela palavra “ideal” — uma palavra obviamente fora de moda, cujo significado perde realidade com a rapidez com que perde sangue um decapitado.

Denomina-se “ideal” a síntese em que se fundem, numa só forma e numa só energia, a idéia do sentido da vida e a do preço de sua realização: diz-se que um homem tem um ideal quando ele sabe em qual direção tem de ir para tornar-se aquilo que almeja, e quando está firmemente decidido a ir nessa direção.

Complexo de impulso e de esquema, o ideal atrai como um imã e coordena como um eixo. Pela unidade de sua forma, convoca o sinergismo da vontade: a concorrência de todas as forças para a consecução da meta. Pelo seu caráter de síntese projetada para o futuro, ergue-se como um tribunal soberano e neutro para a arbitragem de todos os conflitos do presente, que ali se resolvem e superam de modo que mesmo as tendências mais antagônicas da alma possam convergir num só ímpeto ascensional.

O ideal é, por isto, condição indispensável para a coesão da personalidade, que sem ele se dispersa em aspirações fortuitas e esforços estéreis. Miragem e emblema, sua visão nos dinamiza, nos eleva e enobrece, e é sempre a lembrança do seu apelo que nos reergue após cada erro e cada desengano. O ideal é semente de juventude e revivescência. Tem um poder coordenante voltado para o futuro, um poder curativo voltado sobre o passado.

É ainda pela força do ideal que o homem transcende o sono entorpecido da subjetividade intra-orgânica, das falsas idéias e aspirações que não são senão a secreção passiva da fisiologia, para despertar a um mundo de realidades objetivas que a inteligência discerne e que a consciência moral obriga a reconhecer; é assim que a alma se liberta do poço escuro da individualidade estanque, para elevar-se ao mundo maior da sociedade, da cultura, da vida moral, ao sentimento do universo e ao desejo de Deus.

Sem a síntese, que o ideal opera, entre o impulso de universalidade e os interesses do organismo psicofísico, não haveria meio de fazer um homem sacrificar-se, impor-se restrições, contrariar desejos e reprimir temores, em prol de algum valor moral, social ou religioso, para alcançar sua plena estatura humana e tornar-se, talvez, maior do que ele mesmo. Mas o desejo, que move a alma, não pode ser despertado por uma simples idéia abstrata, por verdadeira que seja; ele necessita de imagens plásticas, sensíveis, que lhe dêem como que uma presença antecipada do seu objetivo. Também não se move, exceto no homem grosseiro, ao simples apelo de uma imagem atrativa; mas aguarda que a inteligência examine e aprove o objeto como desejável e bom. Não basta que a meta seja verdadeira; é preciso que seja bela. Mas não basta que seja bela; é preciso que seja verdadeira e justa. É a síntese desta tripla exigência, intelectual, estética e moral, que se denomina “ideal”. Ele concilia, no homem, o desejo de auto-afirmação, de autodefesa, de permanência, com o impulso de crescimento, de doação e de superação de si. Ele dá uma significação universal às tendências individuais, e põe estas a serviço daquela. Spencer falava dos sentimentos “ego-altruístas”, intermediários entre o egoísmo e o altruísmo; neles, uma satisfação dada a si mesmo é, indireta porém voluntariamente, ocasião de benefício para os outros. O ideal extrai grande parte do seu dinamismo dessa pulsação ego-altruísta, em que a felicidade de um homem se identifica com o bem dos demais1. O ideal é como o fogo em que se transfunde, no forno alquímico da alma, o egoísmo em altruísmo, a paixão reflexa em ação refletida.

Mas não é só por isto que o ideal dá força, equilíbrio e consistência à personalidade. A escola junguiana tinha razão ao ver no ideal do eu uma instância superior, capaz de absorver e neutralizar os conflitos entre o id e o superego, entre as pulsões primárias do organismo psicofísico e o esquema de proibições e deveres introjetado inconscientemente pelo hábito imposto, automatizado depois numa constelação de rotinas impeditivas. De fato, quanto mais elevado, nítido, intenso e querido é um ideal, mais o homem é capaz de, em favor dele ele, se impor sacrifícios inteligentemente, contornando as exigências do id; porém, na mesma medida, o ideal o capacita a contrariar, se preciso, as imposições de uma moralidade meramente exterior e convencional, a reformar e elevar seu padrão de valores, a superar a obediência servil a exigências repressivas irracionais. Destituído do ideal, no entanto, o homem abandona-se à luta cega entre a paixão egoísta e o temor da represália do superego2.

Embora nascida na nossa consciência subjetiva, a imagem de perfeição expressa no ideal aponta para uma qualidade objetiva: pelo ideal, as qualidades latentes do homem tendem a orientar-se para fora e transformar-se em atos e obras no mundo. O ideal é o caminho pelo qual as aspirações individuais de felicidade distribuem-se nos sulcos já abertos da realidade exterior, saem da redoma do sonho e ganham um corpo no cenário maior dos fatos e das coisas. Sem um ideal definido, todas as melhores aspirações não passam de sonhos, porque não há um dever moral imanente a exigir que se amoldem à realidade, que se limitem em extensão para realizar-se em intensidade. Só o homem idealista é realista; os demais são sonhadores ou cínicos. Não tendo uma medida do que as coisas deveriam ser, vêem-nas melhores ou piores do que são.

Ademais, para que as qualidades latentes possam se manifestar, é necessário um esforço constante numa direção definida; sem ideal, o esforço gasta-se em gestos reativos, momentâneos e sem proveito. O ideal é a bússola que assinala para a alma uma direção firme e constante por entre as incertezas. Por isto, o sentimento de insatisfação, de vazio e de tédio que experimentamos quando traímos ou esquecemos o ideal é o sinal de alarma que nos permite corrigir o rumo e reencontrar o sentido da vida. Se o sentido é aquilo a que se orienta a nossa vida e a que ela tende com todas as suas forças, então, deve estar colocado num outro tempo ou num outro espaço que não os do presente e do imediato num futuro ou num plano mais abrangente de realidade. O ideal é a presença deste futuro no presente, deste outro espaço no aqui e no agora. Uma presença incompleta e, por isto, dinâmica e tensional. Por ela, medimos nossa aproximação ou afastamento do sentido da vida. O ideal é a medida efetiva do tempo existencial, o padrão de intensidade e profundidade da significação dos momentos. Sem ideal, os instantes e os lugares se homogeneizam na massa do indiferente, após a breve excitação casual que os torna interessantes. O ideal é a coluna mestra e a força da personalidade. Traí-lo ou esquecê-lo é entregar-se, de ossos quebrados, nas mãos da contingência e do absurdo.

Quando, porém, a traição é demasiado grave, extensa, profunda, o sinal de alarma já não soa mais: o clamor da consciência moral imanente tornou-se tão penoso que a alma o reprime, lacrando-o sob a tampa do subconsciente, ao mesmo tempo em que procura inventar toda sorte de razões, de pretextos factícios e ocasionais, para justificar o mal-estar e o tédio, ou encontra um bode expiatório sobre o qual despejar seu rancor de si mesma. A repressão da consciência moral, como demonstrou Igor Caruso3, está na base de muitos distúrbios neuróticos. A neurose apóia-se num complexo jogo de racionalizações e compensações que falseia completamente a posição existencial do indivíduo, como uma bússola viciada. E, já que a consciência, por definição, é coesão — com + scientia = reunião da ciência4 —, e uma lei constitutiva impede que suas partes funcionem separadas, logo o escotoma defensivo se alastra para outros campos e acaba por obliterar toda a visão, mesmo em áreas que nada têm a ver diretamente com o conflito que lhe deu origem. O empenho de conservar então um mínimo indispensável de realismo, necessário à vida social e prática, é obstaculizado pelo esforço de não enxergar uma determinada área, circunscrita como tabu; o curto-circuito daí resultante produz considerável perda de energias, enfraquecendo a capacidade intelectual e decisória. A vítima torna-se cada vez mais inepta para o ato de humildade que lhe devolveria o ideal perdido e o sentido da vida ( ser humilde não é outra coisa senão aceitar a realidade; como diz Schuon, “ser objetivo é morrer um pouco” ).

Na psicologia e psicoterapia de Paul Diel5, a divindade é a imagem ideal que orienta todos os esforços para a auto-realização das qualidades superiores do homem. Pouco importa que, teologicamente, ela seja muito mais do que isto, pois, para o indivíduo, a divindade real e objetiva só é acessível através da sua imagem pessoal de Deus, e é justamente esta é a base da qual tem de partir todo ensino religioso que não seja mera lavagem cerebral. Psicologicamente, porém, o interesse maior não reside na veracidade teológica da imagem, porém na sua ação catalizadora sobre a massa das forças psíquicas. Encarado psicologicamente ou teologicamente, o ideal de perfeição humana sugerida pela imagem do divino é a meta obrigatória e universal da existência humana sobre a terra, e a perda deste ideal é, segundo Diel, a causa das neuroses. O ideal da perfeição pode ser corrompido ou desviado, basicamente, de duas maneiras. Diel chama-as exaltação imaginativa e banalização. São processos opostos, sucessivos e complementares.

A exaltação imaginativa é um estado em que a mente, embevecida com o seu ideal, se identifica mais ou menos inconscientemente com ele e atribui a si as perfeições que a ele pertencem, como se já as tivesse realizado. Para Diel, o símbolo por excelência da exaltação imaginativa é o vôo de Ícaro. As asas de cera representam a força da imaginação, que só pode elevar aos ares um corpo imaginário. O exaltado toma o potencial por atual, imaginando possuir as perfeições a que aspira. Por isto mesmo, sua alma experimenta, como num choque de retorno, um sentimento de estranheza e de impotência perante o mundo, que não cede, como ele esperava, aos seus encantos ou poderes. Acuado pelas exigências da realidade, ele exacerba ainda mais sua adoração de si mesmo diante de um mundo que ele julga vil, mesquinho e incompreensivo, quando na verdade é ele mesmo quem não compreende o mundo e, por não compreendê-lo, está impotente para agir nele. É a síndrome do “jovem incompreendido”, que, pela simples razão de ter aspirações elevadas — ou que lhe pareçam elevadas — já se sente ipso facto superior ao seu ambiente e, portanto, limitado ou coagido pela mesquinhez real ou aparente dos pais, da escola, da sociedade, do emprego, etc6. Nem sempre ele declara seu sentimento em voz alta; uma vaga intuição do caráter doentio do seu estado pode envolver este sentimento numa complexa rede de disfarces, atenuações e racionalizações muito difícil de deslindar. Também é certo que seu diagnóstico depreciativo sobre o mundo em torno pode ser, em si mesmo, objetivamente verdadeiro, sendo falso apenas o lugar e a função que ocupa na sua alma, já que a degradação do mundo lhe aparece, por vezes ao menos, como uma espécie de contraprova de suas próprias qualidades excelsas7.

Não raro o doente alia-se a outros jovens imbuídos do mesmo sentimento, em busca de apoio e confirmação de suas queixas contra o mundo. A comunidade de sentimentos e a repetição das queixas, criando uma atmosfera de comprovação intersubjetiva, parece dar consistência real ao diagnóstico distorcido e subjetivista que cada um dos membros do grupo faz quanto ao estado do mundo, legitimando seu discurso contra a mediocridade e grosseria das pessoas “de fora”. “Estar dentro” do grupo é então sinal de uma espécie de eleição, a prova de uma qualidade excelsa e incomunicável. O sentimento de ter acesso a algo misterioso, profundo, especial, pode exacerbar a exaltação imaginativa ao ponto de provocar uma verdadeira ruptura com a realidade ambiente, incapacitando o indivíduo para o cumprimento dos deveres sociais mais elementares8. Quando a exaltação imaginativa chega a efeitos tão profundos, é que o doente já se encontrava à beira de um colapso intelectual e social, contra o qual provavelmente terá sido advertido pelos pais, por amigos, ou por uma infinidade de sinais diretos e indiretos. Estes sinais, por sua vez, aguçam a sensação de estar afundando no completo isolamento e na impotência; e o pressentimento de abandono, às vezes mesmo de loucura e morte, contrasta tão dolorosamente com os primeiros vôos de exaltação imaginativa, que o doente é então tentado a buscar às pressas, como tábua de salvação, algum tipo de reintegração forçada no mundo que desprezava9. Como, porém, isto implicaria a humilhação de voltar atrás nas críticas e a renúncia à independência afetada, a mente só consegue a reintegração forçada mediante o artifício de operar uma inversão de valores: ao invés de abandonar somente a atitude de auto-exaltação, passando a uma postura de humildade perante o ideal, ela vai, ao contrário, desidentificar-se do ideal para poder abandoná-lo sem perder o sentimento de sua própria superioridade. Conserva, assim, sua auto-exaltação, mas sob uma forma destituída de conteúdo pretensamente idealístico, e revestida, agora, de uma pose de “realismo” terra-a-terra, e não raro de maquiavelismo, carreirismo profissional, cinismo, materialismo, etc. É a esta atitude que Diel denomina banalização.

A inversão banalizante só pode ocorrer mediante uma mutação súbita, longamente preparada no subconsciente. O processo é bem conhecido e foi descrito por Pavlov, muito antes de Diel, no que toca às suas bases neurofisiológicas. O acúmulo de contradições necessário para sustentar uma posição existencial artificiosa e falsa leva à proliferação de tensões contraditórias e produz situações novas, incompreensíveis, que ultrapassam a capacidade de resposta racional e as habilidades de adaptação do organismo. Quebram-se, assim, inúmeras cadeias de reflexos condicionados que constituíam a base subconsciente do comportamento, e o homem se vê num estado de indeslindável confusão. A inversão súbita de valores pode então sobrevir, porque, segundo demonstrou Pavlov, a “inibição prolongada dos reflexos adquiridos suscita angústia intolerável, da qual o sujeito se livra mediante reações opostas às suas condutas habituais. Um cão, por exemplo, se apegará ao funcionário do laboratório, que detestava, e tentará atacar o dono, de quem gostava”10. As tensões provenientes de vários lados, impondo ao cérebro “provas intoleráveis”, produz então uma inibição protetora que “desorganiza os reflexos adquiridos, destrói as suas camadas mais recentes e determina, no sujeito, o abandono de suas crenças”11. O conhecimento técnico deste mecanismo permitiu a sua utilização sistemática nos processos de lavagem cerebral e “reforma da opinião”, nos campos de prisioneiros da China e da União Soviética12. Porém, o mesmo fenômeno, atenuado ou disfarçado, observa-se disseminado na vida social contemporânea, graças ao abuso das pressões psíquicas da propaganda, da persuasão subliminar, dos exercícios psíquicos, das experiências psudomísticas. Sabe-se hoje que esta mutação pode afetar não somente este ou aquele grupo de crenças e atitudes, mas a personalidade total; o crescimento assombroso da incidência destes fenômenos, nos Estados Unidos, levou alguns psicoterapeutas a falar de uma “epidemia de mutações súbitas de personalidade”, que constitui talvez o mais grave capítulo de psicopatologia social conhecido na história do Ocidente13.

A facilidade com que este processo se desencadeia, mesmo fora do cenário das seitas pseudomísticas e de toda experimentação de “poderes” psíquicos, pode ser explicada pelo fato de que, “quando o cérebro é submetido a tensões ainda mais fortes, a fase de inibição cerebral pode ser sucedida por uma fase paradoxal. Nesta, estímulos fracos e antes ineficientes podem causar respostas mais acentuadas do que estímulos mais fortes”14. ISto significa que basta uma fase de acúmulo tensional para que o processo de inversão possa seguir atuando no subconsciente, movido doravante por estímulos insignificantes e ocasionais. Então, “no terceiro estágio da inibição protetora, a fase ultraparadoxal, as respostas e o comportamento positivos começam, de repente, a se transformar em negativos, e os negativos em positivos”15. As mudanças de opinião nesta fase, e as justificativas aparentemente lógicas que o doente oferece a si mesmo e aos outros, não são senão o disfarce exterior de um processo que tem suas raízes numa sobrecarga de estimulação neuronal; são um “vestido de idéias” em torno de motivos reflexos, que permanecem subconscientes.

Na banalização, o indivíduo amortece então sua sensibilidade para todas as deficiências, injustiças e feiúras que, no seu tempo de idealismo exaltado, lhe pareciam revoltantes e intoleráveis. É que antes ele via as feiúras somente no mundo exterior e, como não as enxergava em si mesmo, as condenava “desde cima”. Agora, ele as admite dentro de si; porém, como são suas e se identifica com elas, ele as defende como sinais de superioridade; não raro afeta uma atitude de soberano desprezo por aqueles nos quais se mantém viva a antiga sensibilidade moral; e, acusando-os de rancorosos, frustrados ou coisa assim, ele se compraz no seu novo estado de “homem ajustado” e — no seu entender — adulto. A banalização consiste neste nivelamento-por-baixo do sentimento moral e estético. Ela permite que o indivíduo adote, como normais e indiferentes, atitudes e opiniões que antes lhe pareciam imorais e desprezíveis. Não raro a mutação apaga blocos inteiros da memória, de modo que o indivíduo, para sustentar com alguma coerência o seu novo padrão de comportamento, chega a negar os fatos mais óbvios e patentes que presenciou. George Orwell, no seu romance 1984, descreve um caso em que, passando por este gênero de mutação, as testemunhas mesmas da inocência de um acusado depõem pela sua condenação. A mutação pode resultar então em total atomização do comportamento e acarretar, com a perda da integridade psíquica, a dissolução dos padrões morais mais elementares, produzindo o cinismo, a amoralidade, o descaramento, aliados, às vezes, a boas doses de autopiedade.

Analisando os conceitos de Diel com os critérios de Caruso16, vemos que a neurose do idealista exaltado tem sua origem na soberba, pois o ego, ao identificar-se com a imagem do ideal, atribui a si mesmo, atual e efetivamente, qualidades que só lhe pertencem de modo virtual e por espelhismo. É uma forma de autolatria. Quando os teólogos dizem que a soberba é a raiz de todos os pecados, é isto o que eles têm em vista: o idealista exaltado corrompe o bem na sua própria raiz, corrompe-o na medida em que tem por ele um amor egoísta. Sto. Agostinho diz que “todos os vícios se apegam ao mal, para que se realize; só a soberba se apega ao bem, para que pereça”. A passagem da exaltação à banalização perfaz então a mudança, acarretando uma inversão total de valores, instalando o mal no lugar do bem. Na exaltação, os valores reais ainda são afirmados, apenas como uma localização falseada; na banalização, a negação dos valores é afirmada ela mesma como valor. A banalização é o momento mais grave do processo corruptivo. É claro que a alma doente só consegue operar esta transformação na medida em que não conscientiza todos os passos do processo e todas as implicações de seus atos e decisões, mas se enreda numa trama de racionalizações e sofismas, destinada a erguer ante seus próprios olhos um simulacro verossímil de inocência, no instante mesmo em que, traindo a vocação humana, trai o sentido da vida17.

É interessante observar que, quando o doente vai da exaltação à banalização, ele passa a representar perante si mesmo o papel de homem realista e “maduro”, revestida de pose de segurança afetada, destinada a reforçá-lo no novo papel. Daí que ele seja o último a perceber que a sua aparente superação da revolta juvenil vem acompanhada, não de um acréscimo de equilíbrio e força, porém de um decréscimo das capacidades intelectuais e de uma degenerescência nervosa similar à que se vê na involução senil. De fato, uma das conquistas que assinalam uma evolução objetiva do homem na entrada da adolescência é a passagem dos sentimentos puramente egoístas e orgânicos às tendências ideais ou suprapessoais: nesta fase, “o indivíduo experimenta um sentimento de imperfeição, de insuficiência, trata de sair de si, de dar-se”18. A evolução da vida afetiva “segue a ordem que vai do simples ao complexo: necessidades, inclinações egoístas, inclinações ego-altruístas, inclinações altruístas, inclinações ideais”19. Porém, em certas enfermidades da evolução lenta, como a paralisia geral dos sifilíticos e também da degenerescência senil, observa-se um movimento inverso. Escreve Ribot : “A lei de dissolução consiste numa regressão contínua que desce do superior ao inferior, do complexo ao simples”20.

“Em alguns enfermos — assinala Challaye — pode-se comprovar a desaparição momentânea das tendências ideais, altruístas, e mesmo ego-altruístas. Isto é comprovado sobretudo na maioria dos anciãos ( fora do caso, é claro, dos seres superiores, nos quais esta degenerescência sentimental pode não se produzir ). Sua vida afetiva se restringe cada vez mais. Os sentimentos impessoais são os primeiros que desaparecem. Logo em seguida, as diversas formas da simpatia; e as necessidades ( econômicas, orgânicas, etc. ) são as que subsistem por mais tempo. O ancião começa a preocupar-se menos com a ciência e a arte… torna-se menos generoso… as emoções que persistem maior tempo estão ligadas à conservação pessoal, à cólera e ao medo. Enfim, o ancião pode já não ter nada mais que necessidades ; ele recai no estado do menino pequeno”21.

No homem banalizado, a nova sensibilidade que ele desenvolve pelo seu interesse material imediato, aliada ao temor da perda e ao crescente desinteresse pelos ideais, atestam, fora de toda dúvida, que aquilo que lhe parece ou que ele tenta fazer parecer uma superação é na verdade uma queda, uma degenerescência que se estende, até mesmo, ao domínio corporal.

Do ponto de vista causal, entram em jogo, no processo de banalização, fatores endógenos e exógenos. Os endógenos — aqueles que já estão dados na alma do indivíduo no instante em que o processo se instala — são os fatores clássicos levados em conta pela análise psicológica corrente: tendências hereditárias, defeitos constitucionais, traumas de infância, falhas da educação, etc. De um lado, estes fatores não exercem senão um papel predisponente, que em nada pesa se não é valorizado pela interferência dos fatores exógenos; de outro lado, eles são bem conhecidos na literatura psicológica.

Os fatores exógenos consistem, essencialmente, nos estímulos com que a sociedade em torno favorece ou desfavorece a manutenção dos ideais e a realização humana. Uma sociedade voltada para a busca de um ideal religioso, moral ou cultural universal, e dotada dos instrumentos educacionais capazes de viabilizar a realização humana de seus membros, produz, certamente, uma esplêndida floração de individualidades vigorosas e ricas que, por sua vez, contribuem para o progresso e o brilho da sociedade. A história atesta períodos assim brilhantes, como por exemplo, a Grécia de Péricles, a renascença escolástica dos séculos XII e XIII, a Idade de Ouro espanhola, a era elisabetana na Inglaterra, o Califado do Ocidente sob Harum-al-Raschid, e muitos outros. Em escala menor, pode haver curtos períodos de vigor moral e cultural mesmo em países pobres e isolados. O que quer que pensemos do conteúdo das idéias dominantes nestes períodos, o que importa é que neles o desenvolvimento da personalidade é realmente favorecido. Nem sempre esses períodos coincidem com épocas de riqueza e progresso material; o que os caracteriza não é a riqueza, mas o fato de que neles as tarefas econômicas são inseridas e transfiguradas no quadro maior dos fins e valores éticos ou religiosos que orientam a vida social como um todo.

Quando, ao contrário, a sociedade perde de vista os valores e princípios universais e se emaranha na busca obsessiva de soluções para problemas econômicos imediatos, estes parecem não somente multiplicar-se no campo dos fatos, mas invadir as almas dos indivíduos, ocupando todo o espaço que poderia ser dedicado aos valores ideais. Automaticamente, os indivíduos refluem as suas energias para a busca de interesses que são conflitantes com os de outros indivíduos e grupos — com os quais somente os valores ideais poderiam estabelecer uma base de colaboração — e a sociedade se dispersa numa atomização que pode beirar a anarquia, a guerra de todos contra todos, a deslealdade generalizada. É evidente que, neste caso, os instrumentos para a realização da vocação humana simplesmente desaparecem do cenário social, com o que justamente as pessoas de maior sensibilidade ética, não encontrando vias de realização, passam a constituir uma horda de fracassados e desajustados. É nessa horda que os falsos ideais, criados de improviso para atender a interesses de grupos ou organizações, encontram seus mais fervorosos recrutas, oferecendo-lhes uma miragem de valores e uma falsa promessa de ajustamento social e de participação.

A situação torna-se ainda mais grave em Estados totalitários ou pré-totalitários, quando a mobilização de massas inteiras da população para colaborar na “solução” de problemas econômicos recorre ao expediente de tentar sintetizar, em proveito dos fins do Estado ou das forças políticas que o disputam, as duas correntes de força tendentes à exaltação imaginativa e à banalização. As tendências idealísticas são canalizadas em movimentos de massa — seja de caráter abertamente político, seja pseudomístico ou pseudocultural —, ao mesmo tempo que as promessas de sucesso na vida social e profissional postas em circulação pelos planejadores da operação garantem um eficaz retorno das tendências de banalização em proveito dos mesmos objetivos.

Isto se observou não somente nos Estados descaradamente totalitários, como a URSS e a Alemanha nazista, mas também em todo o mundo Ocidental. As ligações, hoje em dia patentes, entre certas seitas pseudomísticas e organizações multinacionais mostra que a sociedade moderna tem um de seus principais esteios numa complexa máquina de “reciclagem” do idealismo juvenil, que esta máquina primeiro perverte pelo incentivo à exaltação ( mediante lisonjas às aspirações artísticas, políticas e espirituais mais descabidas ) e depois reverte no sentido de um enquadramento social banalizado. O caso mais eloquente é o do jovem filho de banqueiro que abandona a mediocridade do materialismo familiar para ingressar no “ensinamento espiritual” de Rajneesh, e depois é reenquadrado “por baixo” ao ser mobilizado para trabalhar na gigantesca empresa de limpeza de sedes de bancos, de propriedade do mesmo Rajneesh. O número destes mecanismos circulares em operação na nossa sociedade é muito elevado. Eles operam de maneira ubíqua e sorrateira, primeiro excitando, lisonjeando, pervertendo, depois desviando, reciclando e reaproveitando para seus próprios fins todos os ideais juvenis, mesmo os que lhes são mais hostis em aparência. É evidente que, nestas circunstâncias, um simulacro de auto-realização tende a oferecer uma falsa alternativa de solução para o conflito entre as tendências de exaltação e banalização. A alma, colocada sob a pressão esmagadora e multilateral das forças que, pela lisonja ou pela acusação, pelas promessas ou ameaças, a comprimem e a dilatam, ora para a exaltação imaginativa, ora para o ajustamento banalizado, pode agarrar-se a este simulacro, com toda a fúria e o desespero de um náufrago. Numa sociedade empobrecida, fortemente empenhada em reduzir à proletarização a totalidade dos seus membros e na qual, ademais, todos os instrumentos de defesa espiritual e religiosa foram substituídos pelas multinacionais da pseudomística e todos os instrumentos de defesa cultural pelo vozerio onipresente e obsedante das comunicações de massa, nesta sociedade, o drama acima descrito atinge um máximo de intensidade que deixa entrever nada menos que um desenlace trágico, com a desumanização brutal da população e a redução da vida social a um jogo cego de interesses mesquinhos em disputa, ocultamente orquestrado e dirigido, desde o topo, por um sinistro grupo de planejadores sociais.

Por todos os meios, esta sociedade espremerá como entre os dois dentes de um alicate todos os talentos e ideais nascentes, até esmagá-los e subjugá-los à bestialidade dominante.

No entanto, apesar das pressões maciças e de todos os atrativos corruptores, a inteligência humana, por sua natureza mesma, continua essencialmente livre e capaz de objetividade e universalidade. E se é fato que “chegará o momento em que cada um, sozinho, privado de todo contato material que possa ajudá-lo em sua resistência interior, terá de encontrar em si mesmo, e só nele mesmo, o meio de aderir firmemente, pelo centro de sua existência, ao Senhor de toda Verdade”22, não é menos verdade que está somente nas mãos de cada qual dizer a este mundo sedutor e ameaçador: Latrare potest, mordere non potest, nisi volentem: “Podes latir, mas não podes morder, a não ser que eu o deseje”. Mesmo as pressões mais formidáveis que o universo concentracionário impõe à alma humana, na mais temível das tiranias já conhecidas, não eximem o homem de sua responsabilidade individual.

Todos aqueles em quem ainda reste um grão de consciência das metas reais e superiores da existência humana têm o dever imediato e indeclinável de estudar, conhecer e desmascarar os mecanismos do processo corruptor aqui descrito, para escapar aos falsos conflitos em que ele nos joga e às falsas alternativas que ele nos oferece.

 

NOTAS

1.      Challaye, La Evolución, la Espiritualización y la Socialización de las Tendencias, em G. Dumas, Nuevo Tratado de Psicología, trad. Alfredo D. Calcagno, Buenos Aires, Kapelusz, 1956, tomo VI. Cap. III, p. 76.

2.      Sobre aimportância psicopedagógica do ideal, v. L. Riboulet, Rumo à Cultura, trad. Maurice Teisseire e Antonio Fraga, Porto Alegre, Globo, 2a. ed., 1960, Cap. I.

3.      Igor A.Caruso, Análisis Psíquico y Sintesis Existencial, trad. Pedro Meseguer, S.J., Barcelona, Herder, 1954, Cap. II.

4.      MauricePradines, Traité de Psychologie Générale, 3e. éd., Paris, P.U.F., 1948, t.I, I-1.

5.      Paul Diel,La Divinité. Étude Psychanalytique, Paris, P.U.F., 1950, e sobretudo Le Symbolisme dans la Mythologie Grecque, Paris, Payot, 1966.

6.      Não épreciso dizer que esse sentimento é fartamente explorado pelos aproveitadores de toda sorte: o desejo de aprovação torna o jovem particularmente vulnerável à lisonja, e a adulação hipócrita da revolta juvenil é hoje um dos pilares da política e do comércio.

7.      É interessantecomparar isto com o tema da “revolta degradada contra um mundo degradado”, assinalado por Lukács e Goldmann no romance do século XIX, onde aparece toda uma galeria de jovens exaltados, como Raskolnikoff ( Crime e Castigo ), Julien Sorel ( O Vermelho e o Negro ), Lucien de Rubembré ( Ilusões Perdidas ). , a respeito, Lucien Goldmann, Pour une Sociologie du Roman, Paris, Gallimard, 1964.

8.      Muito doatrativo da escola Gurdjieff, neste sentido, reside no ambiente de “secretude quase beatífica” em que se envolvem os ensinamentos do mestre, como bem assinalou Whitall N. Perry ( Gurdjieff in the Light of Tradition, Bedfont, Perennial Books, 1978 ). As escolas gurdjieffianas e afins têm toda uma requintada tecnologia para esta finalidade.

9.      Do mesmomodo, várias seitas pseudomísticas, como veremos adiante, têm meios de canalizar em proveito próprio estes impulsos de rejeição do idealismo.

10.   OlivierReboul, A Doutrinação, trad. rev. Heitor Ferreira da Costa, São Paulo, Nacional, 1980, p.88.

11.   William Sargant,apud Reboul, loc. cit..

12.   ibid.

13.   FloConway and Jim Siegelman, Snapping — America’s Epidemic of Sudden Personality Changes, New York, Delta Book, 1979, principalmente caps. 1, 9, 10, 11 e 12.

14.   William Sargant,A Possessão da Mente. Uma Fisiologia da Possessão, do Misticismo e da Cura pela Fé, trad. Klaus Scheel, Rio, Imago, 1975, p. 25.

15.   ibid.

16.   Caruso, loc.

17.   Uso aexpressão “sentido da vida” não num sentido vago e poético, mas na acepção rigorosa que lhe dá Viktor Frankl em The Will to Meaning, New York, New American Library, 1970.

18.   Challaye, op., p. 77.

19.   Théodule Ribot,Psychologie des Sentiments, cit. em Challaye, op. cit., p. 78.

20.   Ribot, loc.

21.   Challaye, loc.

22.   c., “Quelquesremarques sur l’oeuvre de René Guénon”, em Études Traditionnelles, 52e. Année, 1951, ns. 293-294-295, p. 307.

Friday, 6 February 2026

Friday's Sung Word: "Sinto Saudade" by Mário Travassos de Araújo (in Portuguese)

Sinto saudade
A malandragem eu deixei
Tua amizade
eu jamais esquecerei
Sou malandro inteligente
para folgado vivê no batente
(mas mesmo assim, creia que)

Não há como ser malandro
e só vivê do amô
Vou no caminho chorando
pois para mim tens mais valô
(que o batedô)

O teu amor para mim
juro que dá mais vantagem
Não quero viver assim
Me sinto bem na malandragem
(sinto saudade)

You can listen  "Sinto Saudade" sung by Francisco Alves and Mário Reis with Copacabana Orchestra (1931) here.

Thursday, 5 February 2026

Thursday's Serial: “Journal Spirituel” by Sœur Marie de Saint-Pierre (in French) - XIII.

 

26

Satan a trop grand peur de la Croix...

    Lettre du 5 janvier 1846

«...Voilà à peu près ce que Notre-Seigneur me fit entendre (hier et aujourd’hui).

Ce divin Maître me fit connaître que la terre que nous avions achetée à son divin Père par l’offrande de sa Sainte-Face, était une figure sensible de la terre des vivants que nous devions acheter pour un grand nombre d’âmes, avec la pièce divine et mystérieuse de sa Face adorable [1]. Ensuite, ce divin Pasteur me présenta un troupeau en me disant qu’il m’en faisait la bergère. Il me fit entendre que ses pauvres brebis étaient mordues par le serpent et qu’elles avaient une rage du blasphème; qu’il fallait que je les mène paître sur les terres de ses divins mystères afin qu’elles y trouvent leur guérison, et que je les loge dans les plaies adorables de son Sacré-Cœur, en les marquant à l’effigie de sa Sainte-Face. Notre-Seigneur me fit entendre que j’aurais beaucoup à souffrir à cause que ce troupeau de blasphémateurs était, d’une manière toute spéciale, sous la conduite du prince des démons. Notre-Seigneur me fit connaître que Lucifer laissait volontiers aux autres démons la conduite des autres troupeaux de pécheurs, comme par exemple les impudiques, les ivrognes, les avares... Mais les blasphémateurs sont son troupeau chéri.

—C’est lui — me fit entendre ce divin Sauveur —, qui vous donne tant de répugnance pour cette œuvre de réparation des blasphèmes. Mais, ne le craignez pas: saint Michel et les saints Anges vous protégeront. Avec ma Croix que je vous donne pour vous servir de houlette, vous deviendrez, par cette arme, terrible au démon.

Ensuite, Notre-Seigneur me fit entendre que c’était pour cette mission qu’il m’avait retirée du monde et appelée dans la sainte maison; et comme j’éprouvait une certaine inquiétude sur la véracité, craignant toujours l’illusion, Notre-Seigneur me dit :

—Soyez tranquille ! Satan a trop grand peur de la Croix pour en marquer ses opérations.

Dans une de mes oraisons dont j’ai oubliai la date, Notre-Seigneur m’a reprise de ce que j’avais négligé de prier pour la conversion des blasphémateurs, en me faisant voir que j’avais laissé le démon me tenter de défiance en sa miséricorde. Il semblait me dire :

—Ne vous ai-je pas donné l’exemple de prier pour eux lorsque j’étais sur la Croix ?

Et il me fit connaître qu’il avait de grands desseins de miséricorde sur cette classe de pécheurs, et qu’il voulait se servir de moi comme d’un instrument malgré mon indignité, pour l’accomplissement de ses desseins. Notre-Seigneur m’a fait connaître que cette œuvre [tendait à] la réparation des blasphèmes du saint Nom de Dieu, mais aussi des autres blasphèmes proférés contre la religion et contre l’Église; cependant, elle s’applique spécialement aux blasphèmes du saint Nom de Dieu».

 

[1] Allusion à la parcelle de terrain achetée par les Carmélites. Voir lettre du 29 octobre 1845.

 

 

27

La France devenue hideuse

    Lettre du 23 janvier 1846

«Je ne peux retenir mes larmes d’après ce que Notre-Seigneur vient de me dire, après L’avoir reçu dans la sainte communion. Voici les terribles paroles de ce divin Sauveur:

—La face de la France est devenue hideuse aux yeux de mon Père ; elle provoque sa justice ! Offrez-lui donc la Face de son Fils qui charme son Cœur, pour attirer sur cette France sa miséricorde ; sans quoi, elle sera châtiée. Là est son salut! c’est-à-dire en la Face du Sauveur. Voyez quelle preuve de ma bonté pour la France, qui ne me paie que d’ingratitude.

Alors j’ai dit: —Seigneur, est-ce bien vous qui ne donnez ces lumières ?

Notre-Seigneur m’a répondu:

—Auriez-vous pu vous les procurer vous-même dans la dernière communication? C’est exprès que je vous ai laissée depuis huit jours dans des ténèbres si profondes, afin de vous faire discerner mon opération.

Père éternel, nous vous offrons la Face adorable de votre Fils bien-aimé, pour l’honneur et la gloire de votre saint Nom et pour le salut de la France!» [1]

Réparer, réparer…

 

    Lettre du 8 mars 1846

«Permettez-moi de vous ouvrir mon pauvre cœur, blessé par un glaive de douleur, à cause de la nouvelle application que Notre-Seigneur m’a donnée ce matin sur son précieux chef couronné d’épines et sur sa Face adorable qui est un butte aux outrages des ennemis de Dieu et de l’Église. Il m’a fait entendre de nouveau ses douloureuses plaintes! Et ce divin Sauveur me faisait entendre qu’Il cherchait dans notre maison des âmes pour cicatriser ses blessures en réparant les outrages qui lui sont faits et en appliquant sur ses divines plaies le vin de la compassion et l’huile de la charité. Et il me semblait que Notre-Seigneur me disait que si la Communauté s’appliquait à cet exercice de réparation, Il lui donnerait un baiser d’amour qui serait le gage du baiser éternel. Il me semble aussi, ma Révérende Mère, que Notre-Seigneur me disait de vous remercier de ce que vous aviez déjà fait pour Lui en cette œuvre de réparation des blasphèmes et qu’Il vous engageait à continuer. J’avais peine à prendre la résolution de parler de ces choses, à cause que je craignais l’illusion, et je disais à Notre-Seigneur que, malgré le désir que j’avais de Le voir glorifié, je n’aurais pourtant jamais voulu dire une chose qui fût seulement un simple effet de mon imagination. Mais il me semblait que Notre-Seigneur me pressait de plaider sa cause et de demander pour Lui du soulagement à ses cruelles douleurs. J’ai senti pendant près de deux heures la présence de ce divin Sauveur dans mon âme.

—Mon Sauveur, lui ai-je dit, ah! veuillez vous choisir un plus digne instrument. Cherchez une Thérèse ou une Gertrude.

Et les sanglots et les larmes ont un peu soulagé mon pauvre cœur. Cette journée a été pour moi pleine d’angoisse ; mais heureuses souffrances, puisqu’il me semblait que Notre-Seigneur me faisait connaître qu’en me voyant prendre part à ses peines et les partager avec lui, il en été consolé!

Oh! ma bonne et Révérende Mère, je vous demande en grâce, pour l’amour et la consolation de Notre-Seigneur que vous vouliez envoyer dans quelques-unes de nos maisons les prières de la Réparation des blasphèmes qui sont si agréables à Notre-Seigneur: aussi je les ai dites deux fois dans cette journée en priant ce divin Sauveur de les recevoir comme le précieux parfum que sainte Madeleine son amante Lui versa sur la tête quelques jours avant sa Passion.

Voilà à peu près, ma Révérende Mère, ce qui s’est passé dans mon âme. Il y avait cinq semaines que Notre-Seigneur n’avait rien opéré en moi d’extraordinaire: seulement j’étais toujours appliquée à la réparation des blasphèmes, en soupirant après la naissance de cette œuvre, toutefois dans une grande paix, m’occupant du troupeau dont la garde m’a été remise ; tous les jours je le mène paître dans les divines prairies des mystères de la vie et de la Passion du Bon Pasteur qui a donné sa vie pour ses brebis, afin qu’aucune d’elles ne périsse.». [2]

 

[1] Lettre du 23 janvier 1846.

[2] Lettre du 8 mars 1846.

 

 

28

Véronique et le bon Laron – Promesses

    Lettre du 12 mars 1846

«C’est pour obéir à Notre-Seigneur qui, je crois, m’a commandé d’écrire ce qu’Il m’a communiqué ce matin après la Sainte Communion, que je vais soumettre les lumières suivantes.

Notre-Seigneur m’a fait entendre que deux personnes Lui avaient rendu un signalé service pendant sa Passion. La première, c’est la pieuse Véronique qui a glorifié sa sainte humanité en essuyant sa Face adorable dans la route du Calvaire. La seconde est le bon Larron sur la Croix qui, de là comme d’une chaire, a pris la parole pour défendre la cause du Sauveur, confesser et glorifier sa divinité pendant qu’Il était blasphémé par son compagnon et par les Juifs. Notre-Seigneur m’a fait entendre que ces deux personnes étaient deux modèles pour ses défenseurs en l’œuvre de la réparation des blasphèmes: la pieuse Véronique le modèle des personnes de son sexe, qui ne sont pas préposées pour défendre sa cause à haute voix, mais pour essuyer sa Sainte-Face en réparant par la prière, les louanges et les adorations, les blasphèmes des pécheurs; mais que le bon Larron était le modèle de ses ministres qui devaient hautement et publiquement défendre sa cause en l’Œuvre de la Réparation.

Ensuite, ce divin Sauveur m’a fait remarquer les magnifiques récompenses dont il avait gratifié ces deux personnes, l’une en lui laissant son divin portrait, l’autre en lui donnant son céleste royaume, tant il avait eu pour agréables les services qu’elles Lui avaient rendus pendant la Passion. Ensuite Notre-Seigneur m’a promis que tous ceux qui défendraient sa cause en cette œuvre, par paroles, par prières ou par écrits, Il défendrait leur cause devant son Père et qu’Il leur donnerait son royaume; il me semblait qu’Il me disait de le promettre de sa part en toute assurance à ses ministres qui plaideraient sa cause en cette œuvre, et qu’Il promettait à ses épouses qui s’appliqueraient à honorer et essuyer sa Sainte-Face en réparant les blasphème des pécheurs en cette œuvre, qu’à l’heure de la mort, il essuierait la face de leurs âmes en effaçant les tâches du péché, et qu’Il leur rendrait leur beauté première.

Ensuite, il me semblait que Notre-Seigneur me disait:

—Écrivez ces promesses, car elles feront plus d’impression sur les esprits que tout ce que je vous ai déjà dit par rapport à cette œuvre, en raison de l’intérêt éternel qui s’y trouve engagé, intérêt que je ne condamne pas, puisque j’ai donné ma vie pour mériter aux pécheurs ce royaume du ciel.

Il me semblait aussi que Notre-Seigneur me disait :

—Si vous voulez garder ces choses secrètes, sans vouloir en parler, vous commettez une injustice.

Notre-Seigneur me parlait ainsi parce que j’hésitait à croire cette communication, car je crains toujours de me tromper.

Voilà à peu près, ma Révérende Mère, ce qui s’est passé dans mon âme. Ces dernières lumières que j’ai reçues m’ont toute bouleversée. J’éprouve une douleur intérieur et un feu qui me dévore; je n’ai qu’à m’anéantir devant Dieu, adorant ses divines opérations sur un chétif néant». [1]

Promesses…

 

    Lettre du 23 mars 1846

«...Ce divin Sauveur m’a fait entendre que l’Œuvre de la Réparation des blasphèmes était née de Lui et de l’Église son Épouse; qu’il fallait à sa naissance, produire l’autorité divine dont elle émane, afin qu’elle ait vie et qu’elle soit bien reçue des fidèles, sans quoi elle n’aurait point de succès. Notre-Seigneur me disait aussi qu’il fallait faire connaître le désir qu’Il a de voir cette œuvre s’établir, leur en faire la nature et ses précieux avantages. Et Il m’a dit:

—Tous ceux qui embrasseront cette œuvre et qui véritablement s’y dévoueront ne mourront pas de la mort éternelle. Je défendrai leur cause devant mon Père et je leur donnerai le royaume du ciel. Que ces promesses ne vous étonnent point, car cette œuvre est l’essence de la charité, et ceux qui ont la charité ont la vie. D’ailleurs, je leur accorderai des grâces de préservation.

Voilà deux fois que Notre-Seigneur me fait ces magnifiques promesses. Puissent-elles être reçues avec actions de grâce pour la plus grande gloire de Dieu et le salut des associés de l’Œuvre de la Réparation des blasphèmes! Que le Saint Nom de Dieu soit béni!». [2]

 

[1] Lettre du 12 mars 1846.

[2] Lettre du 23 mars 1846.

Wednesday, 4 February 2026

Wednesday's Good Reading: "Spirto ben nato, in cu’ si specchia e vede" by Michelangelo Buonarroti (in Italian)

     Spirto ben nato, in cu’ si specchia e vede
nelle tuo belle membra oneste e care
quante natura e ’l ciel tra no’ può fare,
quand’a null’altra suo bell’opra cede:
     spirto leggiadro, in cui si spera e crede
dentro, come di fuor nel viso appare,
amor, pietà, mercè, cose sì rare,
che ma’ furn’in beltà con tanta fede:
     l’amor mi prende e la beltà mi lega;
la pietà, la mercè con dolci sguardi
ferma speranz’ al cor par che ne doni.
     Qual uso o qual governo al mondo niega,
qual crudeltà per tempo o qual più tardi,
c’a sì bell’opra morte non perdoni?

Tuesday, 3 February 2026

Tuesday's Serial: "St. Martin’s Summer" by Rafael Sabatini (in English) - I.

 

CHAPTER I. THE SENESCHAL OF DAUPHINY

My Lord of Tressan, His Majesty’s Seneschal of Dauphiny, sat at his ease, his purple doublet all undone, to yield greater freedom to his vast bulk, a yellow silken undergarment visible through the gap, as is visible the flesh of some fruit that, swollen with over-ripeness, has burst its skin.

His wig—imposed upon him by necessity, not fashion—lay on the table amid a confusion of dusty papers, and on his little fat nose, round and red as a cherry at its end, rested the bridge of his horn-rimmed spectacles. His bald head—so bald and shining that it conveyed an unpleasant sense of nakedness, suggesting that its uncovering had been an act of indelicacy on the owner’s part—rested on the back of his great chair, and hid from sight the gaudy escutcheon wrought upon the crimson leather. His eyes were closed, his mouth open, and whether from that mouth or from his nose—or, perhaps, conflicting for issue between both—there came a snorting, rumbling sound to proclaim that my Lord the Seneschal was hard at work upon the King’s business.

Yonder, at a meaner table, in an angle between two windows, a pale-faced thread-bare secretary was performing for a yearly pittance the duties for which my Lord the Seneschal was rewarded by emoluments disproportionately large.

The air of that vast apartment was disturbed by the sounds of Monsieur de Tressan’s slumbers, the scratch and splutter of the secretary’s pen, and the occasional hiss and crackle of the logs that burned in the great, cavern-like fireplace. Suddenly to these another sound was added. With a rasp and rattle the heavy curtains of blue velvet flecked with silver fleurs-de-lys were swept from the doorway, and the master of Monsieur de Tressan’s household, in a well filled suit of black relieved by his heavy chain of office, stepped pompously forward.

The secretary dropped his pen, and shot a frightened glance at his slumbering master; then raised his hands above his head, and shook them wildly at the head lackey.

“Sh!” he whispered tragically. “Doucement, Monsieur Anselme.”

Anselme paused. He appreciated the gravity of the situation. His bearing lost some of its dignity; his face underwent a change. Then with a recovery of some part of his erstwhile resolution:

“Nevertheless, he must be awakened,” he announced, but in an undertone, as if afraid to do the thing he said must needs be done.

The horror in the secretary’s eyes increased, but Anselme’s reflected none of it. It was a grave thing, he knew by former experience, to arouse His Majesty’s Seneschal of Dauphiny from his after-dinner nap; but it was an almost graver thing to fail in obedience to that black-eyed woman below who was demanding an audience.

Anselme realized that he was between the sword and the wall. He was, however, a man of a deliberate habit that was begotten of inherent indolence and nurtured among the good things that fell to his share as master of the Tressan household. Thoughtfully he caressed his tuft of red beard, puffed out his cheeks, and raised his eyes to the ceiling in appeal or denunciation to the heaven which he believed was somewhere beyond it.

“Nevertheless, he must be awakened,” he repeated.

And then Fate came to his assistance. Somewhere in the house a door banged like a cannon-shot. Perspiration broke upon the secretary’s brow. He sank limply back in his chair, giving himself up for lost. Anselme started and bit the knuckle of his forefinger in a manner suggesting an inarticulate imprecation.

My Lord the Seneschal moved. The noise of his slumbers culminated in a sudden, choking grunt, and abruptly ceased. His eyelids rolled slowly back, like an owl’s, revealing pale blue eyes, which fixed themselves first upon the ceiling, then upon Anselme. Instantly he sat up, puffing and scowling, his hands shuffling his papers.

“A thousand devils! Anselme, why am I interrupted?” he grumbled querulously, still half-asleep. “What the plague do you want? Have you no thought for the King’s affairs? Babylas”—this to his secretary—“did I not tell you that I had much to do; that I must not be disturbed?”

It was the great vanity of the life of this man, who did nothing, to appear the busiest fellow in all France, and no audience—not even that of his own lackeys—was too mean for him to take the stage to in that predilect role.

“Monsieur le Comte,” said Anselme, in tones of abject self-effacement, “I had never dared intrude had the matter been of less urgency. But Madame the Dowager of Condillac is below. She begs to see Your Excellency instantly.”

At once there was a change. Tressan became wide-awake upon the instant. His first act was to pass one hand over the wax-like surface of his bald head, whilst his other snatched at his wig. Then he heaved himself ponderously out of his great chair. He donned his wig, awry in his haste, and lurched forward towards Anselme, his fat fingers straining at his open doublet and drawing it together.

“Madame la Douairiere here?” he cried. “Make fast these buttons, rascal! Quick! Am I to receive a lady thus? Am I—? Babylas,” he snapped, interrupting himself and turning aside even as Anselme put forth hands to do his bidding. “A mirror, from my closet! Dispatch!”

The secretary was gone in a flash, and in a flash returned, even as Anselme completed his master’s toilet. But clearly Monsieur de Tressan had awakened in a peevish humour, for no sooner were the buttons of his doublet secured than with his own fingers he tore them loose again, cursing his majordomo the while with vigour.

“You dog, Anselme, have you no sense of fitness, no discrimination? Am I to appear in this garment of the mode of a half-century ago before Madame la Marquise? Take it off; take it off, man! Get me the coat that came last month from Paris—the yellow one with the hanging sleeves and the gold buttons, and a sash—the crimson sash I had from Taillemant. Can you move no quicker, animal? Are you still here?”

Anselme, thus enjoined, lent an unwonted alacrity to his movements, waddling grotesquely like a hastening waterfowl. Between him and the secretary they dressed my Lord the Seneschal, and decked him out till he was fit to compare with a bird of paradise for gorgeousness of colouring if not for harmony of hues and elegance of outline.

Babylas held the mirror, and Anselme adjusted the Seneschal’s wig, whilst Tressan himself twisted his black mustachios—how they kept their colour was a mystery to his acquaintance—and combed the tuft of beard that sprouted from one of his several chins.

He took a last look at his reflection, rehearsed a smile, and bade Anselme introduce his visitor. He desired his secretary to go to the devil, but, thinking better of it, he recalled him as he reached the door. His cherished vanity craved expression.

“Wait!” said he. “There is a letter must be written. The King’s business may not suffer postponement—not for all the dowagers in France. Sit down.”

Babylas obeyed him. Tressan stood with his back to the open door. His ears, strained to listen, had caught the swish of a woman’s gown. He cleared his throat, and began to dictate:

“To Her Majesty the Queen-Regent—” He paused, and stood with knitted brows, deep in thought. Then he ponderously repeated—“To Her Majesty the Queen Regent—Have you got that?”

“Yes, Monsieur le Comte. ‘To Her Majesty the Queen Regent.’”

There was a step, and a throat-clearing cough behind him.

“Monsieur de Tressan,” said a woman’s voice, a rich, melodious voice, if haughty and arrogant of intonation.

On the instant he turned, advanced a step, and bowed.

“Your humblest servant, madame,” said he, his hand upon his heart. “This is an honour which—”

“Which necessity thrusts upon you,” she broke in imperiously. “Dismiss that fellow.”

The secretary, pale and shy, had risen. His eyes dilated at the woman’s speech. He looked for a catastrophe as the natural result of her taking such a tone with this man who was the terror of his household and of all Grenoble. Instead, the Lord Seneschal’s meekness left him breathless with surprise.

“He is my secretary, madame. We were at work as you came. I was on the point of inditing a letter to Her Majesty. The office of Seneschal in a province such as Dauphiny is helas!—no sinecure.” He sighed like one whose brain is weary. “It leaves a man little time even to eat or sleep.”

“You will be needing a holiday, then,” said she, with cool insolence. “Take one for once, and let the King’s business give place for half an hour to mine.”

The secretary’s horror grew by leaps and bounds.

Surely the storm would burst at last about this audacious woman’s head. But the Lord Seneschal—usually so fiery and tempestuous—did no more than make her another of his absurd bows.

“You anticipate, madame, the very words I was about to utter. Babylas, vanish!” And he waved the scribbler doorwards with a contemptuous hand. “Take your papers with you—into my closet there. We will resume that letter to Her Majesty when madame shall have left me.”

The secretary gathered up his papers, his quills, and his inkhorn, and went his way, accounting the end of the world at hand.

When the door had closed upon him, the Seneschal, with another bow and a simper, placed a chair at his visitor’s disposal. She looked at the chair, then looked at the man much as she had looked at the chair, and turning her back contemptuously on both, she sauntered towards the fireplace. She stood before the blaze, with her whip tucked under her arm, drawing off her stout riding-gloves. She was a tall, splendidly proportioned woman, of a superb beauty of countenance, for all that she was well past the spring of life.

In the waning light of that October afternoon none would have guessed her age to be so much as thirty, though in the sunlight you might have set it at a little more. But in no light at all would you have guessed the truth, that her next would be her forty-second birthday. Her face was pale, of an ivory pallor that gleamed in sharp contrast with the ebony of her lustrous hair. Under the long lashes of low lids a pair of eyes black and insolent set off the haughty lines of her scarlet lips. Her nose was thin and straight, her neck an ivory pillar splendidly upright upon her handsome shoulders.

She was dressed for riding, in a gown of sapphire velvet, handsomely laced in gold across the stomacher, and surmounted at the neck, where it was cut low and square, by the starched band of fine linen which in France was already replacing the more elaborate ruff. On her head, over a linen coif, she wore a tall-crowned grey beaver, swathed with a scarf of blue and gold.

Standing by the hearth, one foot on the stone kerb, one elbow leaning lightly on the overmantel, she proceeded leisurely to remove her gloves.

The Seneschal observed her with eyes that held an odd mixture of furtiveness and admiration, his fingers—plump, indolent-looking stumps—plucking at his beard.

“Did you but know, Marquise, with what joy, with what a—”

“I will imagine it, whatever it may be,” she broke in, with that brusque arrogance that marked her bearing. “The time for flowers of rhetoric is not now. There is trouble coming, man; trouble, dire trouble.”

Up went the Seneschal’s brows; his eyes grew wider.

“Trouble?” quoth he. And, having opened his mouth to give exit to that single word, open he left it.

She laughed lazily, her lip curling, her face twisting oddly, and mechanically she began to draw on again the glove she had drawn off.

“By your face I see how well you understand me,” she sneered. “The trouble concerns Mademoiselle de La Vauvraye.”

“From Paris—does it come from Court?” His voice was sunk.

She nodded. “You are a miracle of intuition today, Tressan.”

He thrust his tiny tuft of beard between his teeth—a trick he had when perplexed or thoughtful. “Ah!” he exclaimed at last, and it sounded like an indrawn breath of apprehension. “Tell me more.”

“What more is there to tell? You have the epitome of the story.”

“But what is the nature of the trouble? What form does it take, and by whom are you advised of it?”

“A friend in Paris sent me word, and his messenger did his work well, else had Monsieur de Garnache been here before him, and I had not so much as had the mercy of this forewarning.”

“Garnache?” quoth the Count. “Who is Garnache?”

“The emissary of the Queen-Regent. He has been dispatched hither by her to see that Mademoiselle de La Vauvraye has justice and enlargement.”

Tressan fell suddenly to groaning and wringing his hands a pathetic figure had it been less absurd.

“I warned you, madame! I warned you how it would end,” he cried. “I told you—”

“Oh, I remember the things you told me,” she cut in, scorn in her voice. “You may spare yourself their repetition. What is done is done, and I’ll not—I would not—have it undone. Queen-Regent or no Queen-Regent, I am mistress at Condillac; my word is the only law we know, and I intend that so it shall continue.”

Tressan looked at her in surprise. This unreasoning, feminine obstinacy so wrought upon him that he permitted himself a smile and a lapse into irony and banter.

“Parfaitement,” said he, spreading his hands, and bowing. “Why speak of trouble, then?”

She beat her whip impatiently against her gown, her eyes staring into the fire. “Because, my attitude being such as it is, trouble will there be.”

The Seneschal shrugged his shoulders, and moved a step towards her. He was cast down to think that he might have spared himself the trouble of donning his beautiful yellow doublet from Paris. She had eyes for no finery that afternoon. He was cast down, too, to think how things might go with him when this trouble came. It entered his thoughts that he had lain long on a bed of roses in this pleasant corner of Dauphiny, and he was smitten now with fear lest of the roses he should find nothing remaining but the thorns.

“How came the Queen-Regent to hear of—of mademoiselle’s—ah—situation?” he inquired.

The Marquise swung round upon him in a passion.

“The girl found a dog of a traitor to bear a letter for her. That is enough. If ever chance or fate should bring him my way, by God! he shall hang without shrift.”

Then she put her anger from her; put from her, too, the insolence and scorn with which so lavishly she had addressed him hitherto. Instead she assumed a suppliant air, her beautiful eyes meltingly set upon his face.

“Tressan,” said she in her altered voice, “I am beset by enemies. But you will not forsake me? You will stand by me to the end—will you not, my friend? I can count upon you, at least?”

“In all things, madame,” he answered, under the spell of her gaze. “What force does this man Garnache bring with him? Have you ascertained?”

“He brings none,” she answered, triumph in her glance.

“None?” he echoed, horror in his. “None? Then—then—”

He tossed his arms to heaven, and stood a limp and shaken thing. She leaned forward, and regarded him stricken in surprise.

“Diable! What ails you?” she snapped. “Could I have given you better news?”

“If you could have given me worse, I cannot think what it might have been,” he groaned. Then, as if smitten by a sudden notion that flashed a gleam of hope into this terrifying darkness that was settling down upon him, he suddenly looked up. “You mean to resist him?” he inquired.

She stared at him a second, then laughed, a thought unpleasantly.

“Pish! But you are mad,” she scorned him. “Do you need ask if I intend to resist—I, with the strongest castle in Dauphiny? By God! sir, if you need to hear me say it, hear me then say that I shall resist him and as many as the Queen may send after him, for as long as one stone of Condillac shall stand upon another.”

The Seneschal blew out his lips, and fell once more to the chewing of his beard.

“What did you mean when you said I could have given you no worse news than that of his coming alone?” she questioned suddenly.

“Madame,” said he, “if this man comes without force, and you resist the orders of which he is the bearer, what think you will betide?”

“He will appeal to you for the men he needs that he may batter down my walls,” she answered calmly.

He looked at her incredulously. “You realize it?” he ejaculated. “You realize it?”

“What is there in it that should puzzle a babe?”

Her callousness was like a gust of wind upon the living embers of his fears. It blew them into a blaze of wrath, sudden and terrific as that of such a man at bay could be. He advanced upon her with the rolling gait of the obese, his cheeks purple, his arms waving wildly, his dyed mustachios bristling.

“And what of me, madame?” he spluttered. “What of me? Am I to be ruined, gaoled, and hanged, maybe, for refusing him men?—for that is what is in your mind. Am I to make myself an outlaw? Am I, who have been Lord Seneschal of Dauphiny these fifteen years, to end my days in degradation in the cause of a woman’s matrimonial projects for a simpering school-girl? Seigneur du Ciel!” he roared, “I think you are gone mad—mad, mad! over this affair. You would not think it too much to set the whole province in flames so that you could have your way with this wretched child. But, Ventregris! to ruin me—to—to—”

He fell silent for very want of words; just gaped and gasped, and then, with hands folded upon his paunch, he set himself to pace the chamber.

Madame de Condillac stood watching him, her face composed, her glance cold. She was like some stalwart oak, weathering with unshaken front a hurricane. When he had done, she moved away from the fireplace, and, beating her side gently with her whip, she stepped to the door.

“Au revoir, Monsieur de Tressan,” said she, mighty cool, her back towards him.

At that he halted in his feverish stride, stood still and threw up his head. His anger went out, as a candle is extinguished by a puff of wind. And in its place a new fear crept into his heart.

“Madame, madame!” he cried. “Wait! Hear me.”

She paused, half-turned, and looked at him over her shoulder, scorn in her glance, a sneer on her scarlet mouth, insolence in every line of her.

“I think, monsieur, that I have heard a little more than enough,” said she. “I am assured, at least, that in you I have but a fair-weather friend, a poor lipserver.”

“Ah, not that, madame,” he cried, and his voice was stricken. “Say not that. I would serve you as would none other in all this world—you know it, Marquise; you know it.”

She faced about, and confronted him, her smile a trifle broader, as if amusement were now blending with her scorn.

“It is easy to protest. Easy to say, ‘I will die for you,’ so long as the need for such a sacrifice be remote. But let me do no more than ask a favour, and it is, ‘What of my good name, madame? What of my seneschalship? Am I to be gaoled or hanged to pleasure you?’ Faugh!” she ended, with a toss of her splendid head. “The world is peopled with your kind, and I—alas! for a woman’s intuitions—had held you different from the rest.”

Her words were to his soul as a sword of fire might have been to his flesh. They scorched and shrivelled it. He saw himself as she would have him see himself—a mean, contemptible craven; a coward who made big talk in times of peace, but faced about and vanished into hiding at the first sign of danger. He felt himself the meanest, vilest thing a-crawl upon this sinful earth, and she—dear God!—had thought him different from the ruck. She had held him in high esteem, and behold, how short had he not fallen of all her expectations! Shame and vanity combined to work a sudden, sharp revulsion in his feelings.

“Marquise,” he cried, “you say no more than what is just. But punish me no further. I meant not what I said. I was beside myself. Let me atone—let my future actions make amends for that odious departure from my true self.”

There was no scorn now in her smile; only an ineffable tenderness, beholding which he felt it in his heart to hang if need be that he might continue high in her regard. He sprang forward, and took the hand she extended to him.

“I knew, Tressan,” said she, “that you were not yourself, and that when you bethought you of what you had said, my valiant, faithful friend would not desert me.”

He stooped over her hand, and slobbered kisses upon her unresponsive glove.

“Madame,” said he, “you may count upon me. This fellow out of Paris shall have no men from me, depend upon it.”

She caught him by the shoulders, and held him so, before her. Her face was radiant, alluring; and her eyes dwelt on his with a kindness he had never seen there save in some wild daydream of his.

“I will not refuse a service you offer me so gallantly,” said she. “It were an ill thing to wound you by so refusing it.”

“Marquise,” he cried, “it is as nothing to what I would do did the occasion serve. But when this thing ‘tis done; when you have had your way with Mademoiselle de La Vauvraye, and the nuptials shall have been celebrated, then—dare I hope—?”

He said no more in words, but his little blue eyes had an eloquence that left nothing to mere speech.

Their glances met, she holding him always at arm’s length by that grip upon his shoulders, a grip that was firm and nervous.

In the Seneschal of Dauphiny, as she now gazed upon him, she beheld a very toad of a man, and the soul of her shuddered at the sight of him combining with the thing that he suggested. But her glance was steady and her lips maintained their smile, just as if that ugliness of his had been invested with some abstract beauty existing only to her gaze; a little colour crept into her cheeks, and red being the colour of love’s livery, Tressan misread its meaning.

She nodded to him across the little distance of her outstretched arms, then smothered a laugh that drove him crazed with hope, and breaking from him she sped swiftly, shyly it almost seemed to him, to the door.

There she paused a moment looking back at him with a coyness that might have become a girl of half her years, yet which her splendid beauty saved from being unbecoming even in her.

One adorable smile she gave him, and before he could advance to hold the door for her, she had opened it and passed out.