Saturday, 10 January 2026

Saturday's Good Reading: “Caveira Idolatrada” by Dom Francisco de Aquino Corrêa (in Portuguese).

 

À memória de minha mãe 

 

Eu a vi! Do coveiro aos pés jazia,

Onde nem uma flor a coloria,

     Nua, ignorada a vi!

A tarde semimorta o extremo raio

Enviava a beijá-la, de soslaio,

     Desde os céus de rubi.

 

A música era mesta. O bosque arfava…

O povo que, em silêncio, me cercava,

     Nem notou o meu penar!

Fitei os olhos na caveira branca,

E, em meio à turba, o coração me arranca

     Tristíssimo cismar…

 

Há doze anos que aí a sepultaram…

Bem me lembro! Era em maio; me acordaram,

     E ela era morta já.

A manhã cor-de-rosa além nascia,

E minha mãe, sem cor, lívida, se ia…

     Morta a vejo inda lá!

 

Tinha um frio palor… Desfeito o laço,

Os cabelos castanhos, no regaço,

     Vinham caracolar.

O roxo cílio os olhos clausurara,

E na boca o sorriso lhe murchara,

     Para não mais brotar!

 

De roxo e negro minha mãe vestiram…

E à mesa da varanda a conduziram,

     Deitada no caixão.

Meu pai e meu irmão e irmãs sem fala,

As crioulas, em pranto, iam beijá-la,

     No rosto e na alva mão.

 

Meu pai me ergueu nas mãos hirtas de gelo;

Os seus prantos molharam-me o cabelo,

     E o que senti nem sei!

Mas me inclinei por sobre a face fria:

Na escumilha violete que a cobria,

     Soluçando, a beijei!

 

Era o último adeus! Ela partia!

Toda a casa ululava! O meio-dia

     Começava a cair…

Fui ao jardim de grades encarnadas;

No caminho sombrio de ramadas,

     Vi o enterro sumir.

 

À hora quente ermara-se a campina…

Só as copas em flor, rara bonina

     Jogavam no caixão.

Perfumavam o esquife as mesmas flores,

A cuja sombra, de infantis verdores,

     Passei minha estação.

 

Fugiu-me assim a meninice pura,

Sem beijos, sem carícias, sem doçura,

     Ó minha mãe, sem ti!

A adolescência, como em doidas valsas,

Arrebatou-me! De alegrias falsas

     Fundo cálix sorvi!

 

Hoje beijo essa lúrida caveira!

E busco, em vão, teu vulto, a cabeleira,

     A face, a boca, o olhar…

Assim ai! A inocência em vão buscaras,

Que em meus olhos e lábios tu beijaras,

     Minha mãe, a cantar!

 

Lá fora a mocidade baila e grita:

“Rosas, flori! Na abóbada infinita,

     Astros! mundos! parai!

Quero boiar no azul das harmonias,

Rolar, morto, ao tumulto das orgias,

     Onde a sorrir se cai!”

 

Rajada vespertina traz-me o harpejo,

E eu palpito, deliro, ardo, louquejo,

     Desgarrado de mim!...

Mas nesse crânio a ilusão se esmaga,

Qual sobre escolhos, a irisada vaga,

     No oceano sem fim!

 

Ah! rasgue-se a cruel filosofia,

Que do órfão triste nessa ossada fria

     A esperança contém!

O crânio é um livro e a pálida caveira

Duma mãe, é qual santa e verdadeira

     Bíblia do eterno além!

 

Sim, tu, só tu, ó Religião materna,

Dominas nos sepulcros! Firme e eterna,

     Quebras o arcano horror!

Aqui, só tu, com a minha alma casas:

Subo contigo nas cerúleas asas,

     Mostras-me o meu amor.

 

Vejo-te, ó mãe! Num arrebol celeste,

Aquela, cujo nome em vida houveste,

     Rogas, meiga, por mim.

Sim! Pede por teu filho! É mau o mundo,

Simula beijos por morder mais fundo,

     Tem serpes no jardim.

 

Sou inda moço; minha alma suspira,

Que nem as cordas de encantada lira,

     À menor ilusão!

Que Ela cuide de mim, qual tu cuidavas;

E onde reina o ermo e o amor, sem vozes pravas,

     Fale-me ao coração.

 

Ora descansa! Possa ir um dia,

Em paz com Deus, à tua campa fria,

     Meu cadáver também…

E até que o anjo entoe os seus clangores,

À sombra repousar das mesmas flores,

     E à luz do sumo Bem!

 

In: Nova et Vetera, Poética, v. 1, t. III, Edição do Centenário: Brasília, 1985, p. 21ss.

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