XXI - Descoberta
É muito
antigo dizer-se que há uma coisa ainda pior do que um inimigo, e é um mau
amigo. Um dos convidados do Leonardo-Pataca dizia-se muito amigo do Teotônio, e
pelo empenho que o Leonardo mostrara em livrá-lo das garras do major,
protestara desde logo repartir com ele parte dessa amizade, sem que nenhum dos
dois ficasse prejudicado. Poucos instantes depois desse protesto deu logo a
primeira prova de que estava disposto a cumpri-lo.
Enquanto
se passavam as cenas que acabamos de descrever tinha amanhecido: o major e sua
gente punham-se em retirada: ainda se achavam porém nas imediações do lugar
onde se Havia feito a tentativa para prender o Teotônio, quando o tal amigo a
que nos referimos, que fora um dos últimos a retirar-se, encontrando a
patrulha, e vendo que o Teotônio não ia no meio dela, concluiu que os planos
haviam surtido bem, e que o major ficara desta vez logrado. Teve por isso um
acesso de alegria; e esquecendo a presença do major, correu ao Leonardo,
abraçou-o, exclamando com arrebatado ímpeto:
—
Bravo! como esta não fazes duas em toda a tua vida; foi limpa; ele há de
ficar-te obrigado para sempre, e eu com ele, porque sou seu amigo e teu também!
O
Leonardo ficou estático diante de semelhante imprudência. O major, que ia
cabisbaixo pensando no logro que acabara de levar, voltou-se repentinamente: a
palavra ele, proferida pelo terrível amigo, abriu luz a seus olhos. O Leonardo
foi tirado do torpor em que se achava pela voz do major a dizer-lhe
compassadamente:
—
Recolha-se preso ao quartel.
A esta
sentença o Leonardo ergueu do fundo d’alma tudo quanto havia aí de despeito, de
rancor, e lançou um olhar sobre o imprudente que a havia provocado, e que ainda
muito senhor de si apertava-lhe desapiedadamente a mão, que parecia não estar
disposto a largar tão cedo.
Deixemos
agora o Leonardo, vítima de sua dedicação, caminhar preso para o quartel, e passemos
a outras coisas. Há muito tempo que não falamos em D. Maria e na sua gente.
Saibam os leitores que, passada a lua-de-mel, em que tudo foram rosas, o nosso
José Manuel pusera, como se costuma dizer, as mangas de fora, e tais coisas
fez, que em poucos meses estava tudo em guerra aberta; tinha-se ele com sua
mulher Luisinha mudado de casa de D. Maria, e por causa de dote vai, dote vem,
herança daqui, herança dali, havia-lhe D. Maria proposto uma ação por tal sorte
complicada, que era de desconfiar que não bastassem para ver-lhe o fim os dias
que restavam de vida à pobre velha.
Tinha-se
José Manuel tornado para Luisinha um verdadeiro marido-dragão, desses que só
aquele tempo os conta tão perfeitos, que eram um suplício constante para as
mulheres. Depois que se havia mudado de casa de D. Maria, nunca mais Luisinha
vira o ar da rua senão às furtadelas, pelas frestas da rótula: então chorava
ela aquela liberdade de que gozava outrora; aqueles passeios e aquelas
palestras à porta em noite de luar; aqueles domingos de missa na Sé, ao lado de
sua tia com o seu rancho de crioulinhas atrás; as visitas que recebiam, e o
Leonardo de quem tinha saudades, e tudo aquilo enfim a que não dava nesse tempo
muito apreço, mas que agora lhe parecia tão belo e tão agradável. Tendo-se
casado com José Manuel, para seguir a vontade de D. Maria, votava a seu marido
uma enorme indiferença, que é talvez o pior de todos os ódios.
Pois a
vida de Luisinha, depois de casada, representava com fidelidade a vida do maior
número das moças que então se casavam: era por isso que as Vidinhas não eram
raras, e que poucas famílias haviam que não tivessem a lamentar um
desgostozinho no gênero do que sofreu aquela pobre família, que indo ao
Oratório de Pedra, viera dizimada para casa, e cuja história serviu de tema às
intrigas da comadre, quando quis pôr a José Manuel fora do lance.
Ora, é
claro que tendo D. Maria ficado um pouco séria com a comadre por causa de toda
aquela intriga que precedera ao casamento de José Manuel com sua sobrinha,
agora, que estava com este de candeias às avessas, se reatasse o laço da
amizade que por um pouco afrouxara: sucedia assim com efeito.
Um dia
as duas encontraram-se na missa, tornaram-se a falar; as desgraças do Leonardo,
que fizeram tema a essa conversação, enterneceram a D. Maria, que por seu turno
também referiu à comadre tudo quanto sucedia agora à pobre Luisinha.
— Ai,
senhora! dizia a comadre referindo-se a José Manuel, parece que me roncava cá o
quer que seja quando via aquele maldito; arrenego do homem que é um valdevinos
às direitas. Aquilo há de levar a pobre menina à sepultura. Coitada! bem-criada
e malfadada.
— Nunca
pensei, criatura, nunca pensei que sucedesse tal... Mas aquilo como era
finório! que palavrinhas doces! que santidade aquela! Agora, senhora, agora sou
eu capaz de acreditar na história da moça furtada no Oratório de Pedra: ele tem
bofes para tal... Mas hei de me ver vingada, oh! se hei de! tão certo como
estar eu aqui: os desembargadores lá estão, que me hão de dar esse gosto:
espero isso em Deus.
Desta
conversa, e do mais que se seguiu, nasceu a conciliação das duas.
Quando
certas amizades são uma vez interrompidas, tendo mesmo sofrido um leve
estremecimento, é difícil que voltem depois ao estado primitivo; com outras
amizades acontece porém o inverso; os estremecimentos aproveitam, porque é
fácil a volta da paz, e parece que depois disto se tornam mais estreitas. A
amizade que existia entre D. Maria e a comadre era deste último gênero.
Portanto depois daquela conversa na missa, não só voltaram as relações entre as
duas ao seu primitivo estado, como se tornaram mais que nunca sólidas. Daí em
diante não houve um só segredo entre as duas que não fosse mutuamente
comunicado, e elas fizeram pacto de se ajudarem reciprocamente para dar
remédio, uma aos males da sobrinha, outra às diabruras do afilhado.
O
Leonardo, como dissemos, achava-se preso; fizera disso ciente à madrinha, que
se pôs logo em alvoroto, não só pelo fato em si, como pelo generoso motivo que
o Havia ocasionado. O primeiro passo pois que tiveram a dar as duas, D. Maria e
a comadre, em virtude do seu pacto, foi tratar de alcançar a soltura do
Leonardo, e livrá-lo do mais que (sabe Deus) lhe estaria preparado.
Vamos
ver como se houveram em semelhante empenho.
XXII - Empenhos
O
primeiro passo que deu a comadre foi dirigir-se à casa do major a interceder
pelo Leonardo; o major porém mostrou-se inflexível: o caso era grave, já não
era o primeiro; a disciplina não podia ser impunemente ofendida mais de uma
vez; o castigo devia ser infalível e grande. A comadre, que fora cheia de boas
esperanças, soube pelo major o que ignorava, o que nem mesmo supunha: o
Leonardo não só ficaria por mais tempo preso, como teria de ser chibatado... A
pobre mulher, apenas lhe declarou isto o major, caiu de joelhos, chorou,
lamentou-se; tudo porém debalde. Saiu desesperada, e com a mantilha caída, toda
em desalinho, correu, voou à casa da D. Maria. Ao vê-la entrar naquele estado,
D. Maria ergueu-se da sua banquinha, e largou a almofada da renda.
— Que
tendes, criatura? que tendes? exclamou. Santo Cristo! o que é? Falai!...
— Ai,
Sra. D. Maria do meu coração! que desgraça! respondeu a comadre: que má sina de
rapaz... Ora veja o que me sucede por ter feito uma boa ação!... E eu que sofro
e que sinto como se fosse meu filho... E os soluços a sufocaram.
— Fale,
senhora, replicou D. Maria; fale, que me põe numa aflição...
— Vai
apanhar, D. Maria... vai apanhar de chibata... ele... o Leonardo...
— Meu
Deus, pobre rapaz: ora vejam tudo em que deu; é sina, coitado! aquele rapaz não
nasceu em bom dia; não, comadre; isso sou eu capaz de jurar pela salvação da
minha alma... Mas não falou com o major? Que lhe disse ele?
— Duro
como uma pedra, senhora; a nada se moveu: pedi-lhe pelas Cinco Chagas, pela
Senhora Santíssima... tudo embalde, tudo em vão.
— Está
bom, não se aflija, comadre; ainda há um meio que eu penso que não há de
falhar: vamos à casa dela, que por lá é caminho certo; ela dá-se muito comigo,
há de pedir pelo moço.
— Já me
tinha lembrado disso; mas na tribulação em que vinha tornou-me a esquecer; se
com ela não se arranjar alguma coisa... está tudo perdido.
Os
leitores estão já curiosos por saber quem é ela, e têm razão; vamos já
satisfazê-los. O major era pecador antigo, e no seu tempo fora daqueles de quem
se diz que não deram o seu quinhão ao vigário: restava-lhe ainda hoje alguma
coisa que às vezes lhe recordava o passado: essa alguma coisa era a
Maria-Regalada que morava na Prainha. Maria-Regalada fora no seu tempo uma
mocetona de truz, como vulgarmente se diz: era de um gênio sobremaneira
folgazão, vivia em contínua alegria, ria-se de tudo, e de cada vez que se ria
fazia-o por muito tempo e com muito gosto: daí é que vinha o
apelido-regalada-que haviam juntado ao seu nome.
Isto de
apelidos, era no tempo desta história uma coisa muito comum; não estranhem pois
os leitores que muitas das personagens que aqui figuram tenham esse apêndice ao
seu nome.
Dizem
todos, e os poetas juram e tresjuram, que o verdadeiro amor é o primeiro; temos
estudado a matéria, e acreditamos hoje que não há que fiar em poetas: chegamos
por nossas investigações à conclusão de que o verdadeiro amor, ou são todos ou
é um só, e neste caso não é o primeiro, é o último. O último é que é o
verdadeiro, porque é o único que não muda. As leitoras que não concordarem com
esta doutrina convençam-me do contrário, se são disso capazes.
Isto
tudo vem para dizermos que Maria-Regalada tinha um verdadeiro amor ao major
Vidigal; o major pagava-lho na mesma moeda. Ora, D. Maria era uma das camaradas
mais do coração de Maria-Regalada. Eis aí por que falando dela D. Maria e a
comadre se mostraram tão esperançadas a respeito da sorte do Leonardo.
Já
naquele tempo (e dizem que é defeito do nosso) o empenho, o compadresco, eram
uma mola real de todo o movimento social.
— Vai
mandar aprontar a cadeirinha, disse D. Maria a uma de suas escravas.
—
Vamos, senhora, vamos; que isto são os meus pegados velhos.
D.
Maria aprontou-se, meteu-se na sua cadeirinha; a comadre tomou a mantilha, e
partiram para a Prainha.
Maria-Regalada
recebeu-as com uma boa risada.
— Que
milagre de Santa Engrácia! que fortuna! que alegrão! O que a traz por aqui?
Isto é grande novidade!
— É
novidade, sim, respondeu D. Maria, porém triste novidade.
Com as
honras do estilo, que não eram muitas naquele tempo, foi a comadre apresentada,
porque não era conhecida de Maria-Regalada. Primeiro D. Maria, depois a
comadre, contaram, cada uma por sua parte, a história do Leonardo com todos os
detalhes, e depois de inúmeros rodeios, que puseram a arder a paciência da
ouvinte, e quase a fizeram morrer de curiosidade, chegaram finalmente ao ponto
importante, ao motivo que ali as levara: queriam nada menos do que a soltura e
perdão do Leonardo, e contavam para alcançar semelhante coisa com a influência
da Maria-Regalada sobre o major.
— Ora,
disse esta tomando um ar de modéstia, eu já não presto para nada... isso era
bom noutro tempo... agora... o major... as coisas estão mudadas, D. Maria...
depois que ele se meteu na polícia... nem mais nem ontem... quem sabe o que por
lá vai!... Mas enfim, D. Maria, eu não sei dizer que não, tenho o coração
assim, e sempre o tive... no meu tempo muita gente se aproveitou disto... Eu
farei o que puder; vou falar-lhe... talvez que ele me queira atender...
— Há de
atender, há de, respondeu a comadre; ele já não está tão velho que se tenha
esquecido de todo do tempo de dantes.
—
Veremos, veremos. A Sra. comadre sabe lá o que são homens?!...
—
Diga-me a mim... se sei!... acudiu esta prontamente.
— Mas
então, atalhou D. Maria, o negócio requer toda a pressa, porque de um instante
para outro podem chegar a farda ao corpo do pobre rapaz, e depois nem Santo
Antônio a tira.
— Não
há de haver novidade; ainda havemos chegar a tempo, com a graça de Deus. Para
maior segurança vamos todas três daqui à casa do major, e cada uma por nosso
lado faremos tudo para livrar o moço.
Maria-Regalada
vestiu-se à pressa, tomou a sua mantilha, e ao lado da cadeirinha em que ia D.
Maria partiram para a casa do major.
XXIII - As três em comissão
Partiram
pois as três para a casa do major, que morava então na rua da Misericórdia, uma
das mais antigas da cidade. O major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos,
não tendo a princípio suposto o quilate da visita; apenas porém reconheceu as
três, correu apressado à camarinha vizinha, e envergou o mais depressa que pôde
a farda; como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar sós as senhoras, não
completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda, calças de enfiar,
tamancos, e um lenço de Alcobaça sobre o ombro, segundo seu uso. A comadre, ao
vê-lo assim, apesar da aflição em que se achava, mal pôde conter uma risada que
lhe veio aos lábios. Os cumprimentos da recepção passaram sem novidade. Na
atropelação em que entrara o major a comadre enxergou logo um bom agouro para o
resultado do seu negócio. Acrescia ainda em seu favor que o major guardava na
sua velhice doces recordações da mocidade, e apenas se via cercado por
mulheres, se não era um lugar público e em circunstâncias em que a disciplina
pudesse ficar lesada, tornava-se um babão, como só se poderia encontrar segundo
no velho Leonardo. Se estas lhe davam então no fraco, se lhe faziam um elogio,
se lhe faziam uma carícia por mais estupidamente fingida que fosse, arrancavam
dele tudo quanto queriam; ele próprio espontaneamente se oferecia para o que
podiam desejar, e ainda em cima ficava muito obrigado. Contudo, posto que a
comadre soubesse já desta circunstância com antecipação, ou a pressentisse
pelas aparências, a gravidade do negócio de que se tratava era tal, que nem
isso bastou para tranqüilizá-la. Dispôs-se para o ataque, ajudada por suas
companheiras, que, apesar de mais estranhas à sorte do Leonardo, nem por isso
se ligavam menos à sua causa. Houve um momento de perplexidade para decidir-se
quem seria o orador da comissão. O major percebeu isto, e teve um lampejo de
orgulho por ver assim três mulheres confundidas e atrapalhadas diante de sua
alta pessoa; fez um movimento como para animá-las, arrastando sem querer os
tamancos.
— Oh!
de tamancos e farda não está má... Senhoras donas, coisas de velho; no meu
tempo não fazia eu destas...
— D.
Maria que o diga, acudiu logo a comadre referindo-se a Maria-Regalada, e
querendo fazer brecha fosse por onde fosse: mas não importa; o negócio é
outro...
— É
verdade, Sr. major, o bom tempo já lá foi.
— E
Deus perdoe a quem dele tem saudades, retorquiu o major rindo-se com um riso
rugoso de velha sensualidade...
— Sim,
sim, tornou a Maria-Regalada; mas deixe essas coisas todas para logo...
— Ai
criatura, acudiu D. Maria, que até então estivera calada, cansada talvez do
número prodigioso de mesuras que fizera ao entrar; deixai cada um lembrar-se do
seu tempo, isto consola; eu cá gosto bem quando acho...
— É
como eu, respondeu o major; em se me tocando cá nas feridas antigas...
— Pois
é mesmo por me lembrar destas feridas antigas, atalhou a Maria-Regalada, que
venho aqui com estas senhoras donas, que o Sr. Major bem conhece; e se não
foram elas cá não viera, pois o negócio é sério...
A
comadre achou a ocasião bem apanhada, e fez com a cabeça um sinal de aprovação.
— Vamos
lá ver o que é o tal negócio sério, respondeu o major atinando, pela presença
da comadre, pouco mais ou menos com o que era, e pelo que fez um sinal duvidoso
com a cabeça, ou para fazer-se de bom, ou porque realmente não quisesse abrir
largas esperanças.
A
interlocutora prosseguiu:
— O seu
granadeiro Leonardo é um bom rapaz.
O major
arqueou franzindo as sobrancelhas, e repuxou os beiços, como quem não
concordava in totum com aquilo...
— Não
me comece já com coisas, Sr. major. Pois é, sim, senhor, muito bom rapaz, e não
há razão para ser castigado, por causa de uma coisa nenhuma que fez... isso Não
é razão, não, senhor, para se mandar tocar de chibata um moço que não é nenhum
valdevinos; pois o Sr. major bem sabe que o padrinho quando morreu deixou-lhe
alguma coisa, que bem lhe podia estar já nas mãos, e ele por isso livre da
maldita farda, a quem sempre tive zanga (menos de uma que bem se sabe), se o
pai que tem... mas deixemos o pai que não vem nada ao caso...
— Já
sei de tudo, já sei de tudo, atalhou o major.
— Ainda
não Sr. major, observou a comadre, ainda não sabe do melhor, e é que o que ele
praticou naquela ocasião quase que não estava nas suas mãos. Bem sabe que um
filho na casa de seu pai...
— Mas
um filho quando é soldado, retorquiu o major com toda a gravidade
disciplinar...
— Nem
por isso deixa de ser filho, tornou D. Maria.
— Bem
sei, mas a lei?
— Ora,
a lei... o que é a lei, se o Sr. major quiser?
O major
sorriu-se com cândida modéstia. A discussão foi-se assim animando; porém o
major nada de ceder, até pelo contrário parecia mais inflexível do que nunca;
chegou mesmo a pôr-se em pé e a falar muito exaltadamente contra o atentado do
Leonardo, e a necessidade de um severo castigo. Era engraçado vê-lo no bonito
uniforme que indicamos, de pé, fazendo um sermão sobre a disciplina, diante
daquelas três ouvintes tão incrédulas que resistiam aos mais fortes argumentos.
Ainda
porém não tinham as três esgotado contra ele o seu último recurso; puseram-no
pois em ação.
Quando
mais influído estava o major, as três a um só tempo, e como de combinação,
desataram a chorar... O major parou... encarou-as um instante: seu semblante
foi-se visivelmente enternecendo, enrugando, e por fim desatou também a chorar
de enternecido. Apenas as três se aperceberam deste triunfo carregaram sobre o
inimigo. Foi então uma algazarra, uma choradeira sem nome, capaz de mover as
pedras.
O major
de enternecido foi passando a atordoado, e como que ficou envergonhado das
lágrimas que lhe corriam pelas faces: enxugou-as, e procurou reassumir toda a
sua antiga gravidade.
— Nada,
disse desembaraçando-se das três, e passeando a passos largos pela sala; nada:
que haviam de dizer de mim se me vissem aqui nestas choramingas de criança? Eu,
o major, o Vidigal, a chorar no meio de três mulheres!... Senhoras donas, o
caso é grave, e não lhe vejo remédio; o exemplo, a disciplina, as leis
militares... nada, não pode ser...
E deu
as costas às três, continuando a passear e a fazer ressoar com força os tamancos
no assoalho.
Maria-Regalada
disse baixo às duas, em cujos semblantes já nem transluzia o mais pequeno
vislumbre de esperança:
— Ainda
não está tudo perdido...
E
dirigindo-se ao major acrescentou:
— Bem,
Sr. major; águas passadas não moem moinho...
— Qual
passadas, senhora dona! mas bem vê que o caso é grave...
— Seja
lá o que for, sinto ter perdido meus passos, e não servir a quem desejava;
verdade seja que eu já contava com isso, e também não prometi... Mas em último
lugar quero sempre dizer-lhe uma coisa, mas há de ser em particular...
— Vamos
lá, estou pronto.
Quem
tivesse alguma perspicácia conheceria, não com grande facilidade, que o major
estava há muito tempo disposto a ceder, porém que queria fazer-se rogado.
Maria-Regalada
levou então o major para um canto da sala, e disse-lhe ao ouvido algumas
palavras. O major, desanuviou o rosto, remexeu-se todo, coçou a cabeça,
balançou com as pernas, mordeu os beiços.
— Ora
esta! disse em voz baixa à sua interlocutora; pois era preciso falar nisto?
Enfim...
— Ora,
graças que se lhe acabaram os sestros, respondeu Maria-Regalada em voz alta.
—
Sim?!... exclamaram as duas sorrindo de esperança.
— Eu
bem dizia que o Sr. major tinha bom coração...
— Eu
nunca duvidei, apesar de tudo... mas agora, o passado, passado; o caso era
grave, como ele dizia, e foi um favor!...
—
Então, D. Maria? Quem foi rei sempre teve majestade...
—
Majestade... qual! isso já não é para mim...
O major
atalhou esta explosão de gratidão que levava visos de ir longe.
— Hão
de ficar ainda mais contentes comigo... não lhes digo por quê, mas verão...
— Esta
agora é que é grande; veremos o que será...
— Já
sei: é...
— Há de
ser por força...
— Estou
quase adivinhando.
— Sabem
que mais? atalhou o major; são horas de uma diligência a que não posso faltar...
O rapaz está livre de tudo; contanto que, acrescentou dirigindo-se a
Maria-Regalada, o dito, dito...
— Eu
nunca faltei à minha palavra, replicou esta.
Retiraram-se
as três cheias do maior contentamento, e o major saiu depois também para
cumprir a suapromessa.
XXIV´- A Morte é juiz
D.
Maria dirigiu-se imediatamente para casa na sua cadeirinha. Ao chegar notou
grande rumor e alvoroço, e tratou logo de indagar a causa. Um escravo de sua
sobrinha a esperava com uma carta. Apenas a leu, D. Maria, não diremos que se
entristeceu, porém mostrou-se muito atrapalhada.
— Não
entrem com a cadeirinha; esperem lá, que torno a sair.
E com
efeito meteu-se de novo nela, e mandou que seguissem para casa de sua sobrinha.
O caso
era o seguinte: José Manuel entrara para casa em braços, tendo sido acometido
na rua de um violento ataque apoplético ao voltar do cartório, onde tivera uma
grave contestação com o procurador de D. Maria, por causa da demanda que
entretinham. Luisinha, a coitada, vendo-se naqueles apuros, sem saber o que
fizesse, despachara logo portador para casa de sua tia.
D.
Maria apenas entrou mandou chamar o licenciado, que depois de examinar o doente
declarou que era caso perdido. Fizeram-se entretanto algumas aplicações, que
não tiveram resultado algum.
— Estás
viúva, menina, disse D. Maria alguma coisa compungida com a declaração do
médico.
Luisinha
pôs-se a chorar, mas como choraria por qualquer vivente, porque tinha coração
terno.
Estavam
presentes algumas pessoas da vizinhança, e uma delas disse baixinho à outra,
vendo o pranto de Luisinha:
— Não
são lágrimas de viúva...
E não
eram, nós já o dissemos: o mundo faz disso as mais das vezes um crime. E os
antecedentes? Porventura ante seu coração fora José Manuel marido de Luisinha?
Nunca o fora senão ante as conveniências, e para as conveniências aquelas
lágrimas bastavam. Nem o médico nem D. Maria se haviam enganado: à noitinha
José Manuel expirou.
No dia
seguinte fizeram-se os preparativos para o enterro. A comadre, informada de
tudo, compareceu pesarosa a prestar seus bons ofícios, suas consolações.
O
enterro saiu acompanhado pela gente da amizade: os escravos da casa fizeram uma
algazarra tremenda. A vizinhança pôs-se toda à janela, e tudo foi analisado,
desde as argolas e galões do caixão até o número e qualidades dos convidados; e
sobre cada um desses pontos apareceram três ou quatro opiniões diversas.
Naqueles
tempos ainda se não usavam os discursos fúnebres, nem os necrológios, que hoje
andam tanto em voga; escapamos pois de mais essa. José Manuel dorme em paz no
seu derradeiro jazigo.
Como
havia prometido a comadre, alguém chegou quase ao anoitecer. Era o Leonardo.
Quando ele entrou na sala D. Maria não pôde conter um grito de surpresa.
Vinha
em completo uniforme de sargento da companhia de granadeiros!
— Como!
olhem o major. E então?!
— É
verdade, senhora dona, respondeu o Leonardo; a ele tudo devo.
Foi
aquilo objeto de geral espanto. Ficariam todos muito contentes com a simples
soltura do Leonardo; e não só ele aparecia solto e livre, como até elevado ao
posto de sargento, o que já não é no exército pouca coisa.
O
Leonardo começou a procurar com os olhos alguma coisa ou alguém que tinha
curiosidade de ver; deu com o que procurava: era Luisinha. Há muito que os dois
se não viam; não puderam pois ocultar o embaraço de que se acharam tomados. E
foi tanto maior essa emoção, que ambos ficaram surpreendidos um do outro.
Luisinha achou Leonardo um guapo rapagão de bigodes e suíça; elegante até onde
pode sê-lo, um soldado de granadeiros, com o seu uniforme de sargento bem
assente. Leonardo achou Luisinha uma moça espigada, airosa mesmo, olhos e
cabelos pretos, tendo perdido todo aquele acanhamento físico de outrora. Além
disso seus olhos, avermelhados pelas lágrimas, seu rosto empalidecido, se não
verdadeiramente pelos desgostos daquele dia, seguramente pelos antecedentes,
tinham nessa ocasião um toque de beleza melancólica, que em regra geral não
devia prender muito a atenção de um sargento de granadeiros, mas que enterneceu
ao sargento Leonardo que, apesar de tudo, não era um sargento como qualquer. E
tanto assim, que durante a cena muda que se passou, quando os dois deram com os
olhos um no outro, passaram rapidamente pelo pensamento do Leonardo os lances
de sua vida de outrora, e remontando de fato em fato, chegou àquela ridícula
mas ingênua cena da sua declaração de amor a Luisinha. Pareceu-lhe que tinha
então escolhido mal a ocasião, e que agora isso teria um lugar muito mais
acertado.
A
comadre, que dava uma perspicaz atenção a tudo o que se passava, como que leu
na alma do afilhado aqueles pensamentos todos; fez um gesto quase imperceptível
de alegria: raiava-lhe na mente alguma idéia luminosa. Começou então a retraçar
um antigo plano em cuja execução por muito tempo trabalhava, e cujas
probabilidades de êxito lhe haviam reaparecido no que se acabava de passar.
Passada
a primeira emoção, Luisinha ergueu-se e fez ao Leonardo um acanhado
cumprimento: este correspondeu-lhe com alguma coisa entre cumprimento paisano e
continência militar.
A
comadre rompeu depois disto a conversa, procurando entreter D. Maria, e deixar
os dois entregues a si.
—
Diga-me, disse ela dirigindo-se a D. Maria, e aquela sua demanda com o defunto?
— A
morte foi desta vez juiz. Ele não tem herdeiros; era só no mundo... Eu não
levei a minha avante, é verdade, porque enfim não posso dizer que venci; mas
também não perdi. Agora sim, tenho muito gosto de entregar tudo à menina, mas
não queria que me levassem as coisas senão por minha muito livre vontade.
— Está
bem; o passado já lá vai: Deus é assim, escreve direito por linhas tortas.
E por
aí adiante empenharam-se na sua conversa. Os dois, depois de algum tempo de
silêncio, como já se tinham retirado todas as visitas, foram pouco e pouco, de
palavra em palavra, travando diálogo, e conversavam no fim de algum tempo tão
empenhadamente como a comadre e D. Maria, com a diferença que a conversa
daquelas duas era alta, desembaraçada; a deles baixa e reservada.
Não há
nada que interrompida mais depressa se reate do que seja a familiaridade em que
o coração é interessado. Não se estranhe pois que Luisinha e Leonardo a ela se
entregassem.
E
querem ver uma singularidade que às vezes se repete? Depois que se fizera moça,
e que tomara estado, nunca Luisinha tinha tido momentos de tão verdadeiro
prazer como os que ali estava gozando naquela conversa, num dia de luto, quando
acabava de sair o caixão que levara à sepultura aquele que devia ter feito a
sua felicidade. O Leonardo também por sua vez, nunca, no meio de todas as
vicissitudes de sua vida extravagante, tinha tido instantes que tão rápidos lhe
corressem do que aqueles em que via o objeto de seus primeiros amores sob o
peso do infortúnio em um dia de pranto.
Pois
parece que estas mesmas circunstâncias reavivaram o passado: a comadre folgava
lá no seu lugar com tudo aquilo, e, parecendo prestar toda a atenção a D.
Maria, não perdia uma só circunstância.
Finalmente
chegou a hora da retirada, não da comadre, que se ofereceu para fazer companhia
à viúva, porém de Leonardo, a quem esperava o major, porque era dia de serviço,
e apenas tinha ele obtido licença para cumprir o duplo dever de dar os pêsames
a D. Maria, e agradecer o interesse que por ele havia tomado, fazendo por
intermédio de Maria-Regalada que o major não só lhe alcançasse perdão do
castigo que lhe era destinado, como também o acesso de posto que repentinamente
tivera.
Luisinha
involuntariamente estendeu à despedida a mão ao Leonardo, que lha apertou com
força.
Ora,
isto naquele tempo era bastante para dar que falar ao mundo inteiro!
XXV - Conclusão feliz
A
comadre passou com a viúva e sua tia quase todo o tempo do nojo, e
acompanhou-as à missa do sétimo dia. O Leonardo compareceu também nessa
ocasião, e levou a família à casa depois de acabado o sacrifício.
Aquele
aperto de mão que no dia do enterro de seu marido Luisinha dera ao Leonardo não
caíra no chão a D. Maria, assim como também lhe não escaparam muitos outros
fatos consecutivos a esse.
O caso
é que não lhe parecia extravagante certa idéia que lhe andava na mente.
Muitas
vezes, ao cair de ave-maria, quando a boa da velha se sentava a rezar na sua
banquinha em um canto da sala, entre um padre-nosso e uma ave-maria do seu
bendito rosário vinha-lhe à idéia casar de novo a fresca viuvinha, que corria o
risco de ficar de um momento para outro desamparada num mundo em que maridos,
como José Manuel, não são difíceis de aparecer, especialmente a uma viuvinha
apatacada.
Ao
mesmo tempo que lhe vinha esta idéia lembrava-se do Leonardo, que amara a sua
sobrinha no tempo da criançada, e que era, apesar de extravagante, um bom moço,
não de todo desarranjado, graças à benevolência do padrinho barbeiro.
Verdade
é que se não sabiam bem as contas que seu pai havia feito a esse respeito; mas
como era coisa que constava de verta testamentária, D. Maria nada via de mais
fácil do que propor uma demanda, cujo resultado não seria duvidoso.
Havia
porém no meio de tudo uma circunstância que lhe desconsertava os planos. O
Leonardo era soldado. Ora, soldado, naquele tempo, era coisa de meter medo.
Quando
D. Maria chegava a este ponto de suas meditações, abandonava-as, e continuava o
seu rosário.
A
comadre fazia quase exatamente os mesmos cálculos por sua parte, e também só
esta única dificuldade se antolhava à realização de seus planos.
Enquanto
estas duas pensavam, os outros dois obravam.
Luisinha
e Leonardo haviam reatado o antigo namoro; e quem quiser ver coisa de andar
depressa é ver namoro de viúva.
Na
primeira ocasião Leonardo quis recorrer a uma nova declaração; Luisinha porém
fez o processo sumário, aceitando a declaração de há tantos anos.
Sem que
os vissem, viam-se os dois muitas vezes, e dispunham seus negócios.
Infelizmente
ocorria-lhes a mesma dificuldade: um sargento de linha não podia casar. Havia
talvez um meio muito simples de tudo remediar. Antes de tudo, porém, os dois
amavam-se sinceramente; e a idéia de uma união ilegítima lhes repugnava.
O amor
os inspirava bem.
Esse
meio de que falamos, essa caricatura da família, então muito em moda, é
seguramente uma das causas que produziu o triste estado moral da nossa
sociedade.
Só essa
dificuldade demorava os dois. Entretanto o Leonardo achou um dia o salvatério,
e veio comunicar a Luisinha o meio que tudo remediava: podia ficar ele sendo
soldado e casar, dando baixa na tropa de linha, e passando-se no mesmo posto
para as milícias.
A
dificuldade, porém, estava ainda em arranjar-se essa baixa e essa passagem:
Luisinha encarregou-se de vencer esse embaraço.
Um dia
em que estava sua tia a rezar no seu rosário, justamente num daqueles
intervalos de padre-nosso a ave-maria de que acima falamos, Luisinha chegou a
ela, e comunicou-lhe com confiança tudo que havia, fazendo preceder sua
narração da seguinte declaração, que cortava a questão pela raiz:
— Para
lhe obedecer e fazer-lhe o gosto casei-me uma vez, e não fui feliz; quero ver
agora se acerto melhor, fazendo por mim mesma nova escolha.
Em
breve, porém, conheceu que fora inútil sua precaução, porque D. Maria confessou
que de há muito ruminava aquele mesmo plano.
Combinaram-se
pois as duas.
A
bondade do major inspirava-lhes muita confiança, e lembraram-se por isso de
recorrer a ele de novo.
Foram
ter com Maria-Regalada, que mesmo na véspera lhes tinha mandado dar parte que
se mudara da Prainha, e oferecia-lhes sua nova morada.
A
comadre, de tudo inteirada, fez parte da comissão.
Quando
entraram em casa de Maria-Regalada, a primeira pessoa que lhes apareceu foi o
major Vidigal, e, o que é mais, o major Vidigal, em hábitos menores, de rodaque
e tamancos.
— Ah!
disse a comadre em tom malicioso, apenas apareceu a Maria-Regalada, pelo que
vejo isto por aqui vai bem...
— Não
se lembra, respondeu Maria-Regalada, daquele segredo com que obtive o perdão do
moço? Pois era isto!...
A
Maria-Regalada tinha por muito tempo resistido aos desejos ardentes que nutria
o major de que ela viesse definitivamente morar em sua companhia. Não
atribuímos esta resistência senão a capricho, para não fazermos mau juízo de
ninguém; o caso é que o major punha naquilo o maior empenho; teria lá suas
razões.
O
segredo que a Maria-Regalada dissera ao ouvido do major no dia em que fora,
acompanhada por D. Maria e a comadre, pedir pelo Leonardo, foi a promessa de
que, se fosse servida, cumpriria o gosto do major.
Está
pois explicada a benevolência deste para com o Leonardo, que fora ao ponto de,
não só disfarçar e obter perdão de todas as suas faltas, como de alcançar-lhe
aquele rápido acesso de posto.
Fica
também explicada a presença do major em casa da Maria-Regalada.
Depois
disto entraram todos em conferência. O major desta vez achou o pedido muito
justo, em conseqüência do fim que se tinha em vista. Com a sua influência tudo
alcançou; e em uma semana entregou ao Leonardo dois papéis:-um era a sua baixa
de tropa de linha; outro, sua nomeação de sargento de milícias.
Além
disto recebeu o Leonardo ao mesmo tempo carta de seu pai, na qual o chamava
para fazer-lhe entrega do que lhe deixara seu padrinho, que se achava
religiosamente intacto.
Passado
o tempo indispensável do luto, o Leonardo, em uniforme de sargento de milícias,
recebeu-se na Sé com Luisinha, assistindo à cerimônia a família em peso.
Daqui
em diante aparece o reverso da medalha. Seguiu-se a morte de D. Maria, a do
Leonardo-Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que pouparemos aos
leitores, fazendo aqui ponto-final.